MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

Querido Papai Noel: Eu sei que a sua vida não é fácil, atender aos pedidos de bilhões de crianças e fazer todas as entregas na mesma noite deve precisar de uma logística danada. Então eu não vou pedir tudo que eu gostaria, vou ficar só no mais importante, e que eu acredito que vai fazer um monte de gente feliz, não só eu.

Em primeiro lugar, Papai Noel, eu queria voto distrital, que nem os países ricos (eles não devem ser ricos à toa). De preferência com um congresso unicameral, sem senado, para acabar com essa trabalheira de votação aqui, votação lá, volta para cá, volta para lá porque alterou… Mas o importante é que cada lugar escolha o seu deputado e saiba quem ele é, para poder cobrar. Do jeito que é hoje, tem deputado que se elege com 0,1% dos votos. Esses deputados não representam o povo, representam panelinhas: panelinha dos sindicatos, panelinha das igrejas, panelinha das rádios, panelinha dos detrans, panelinha dos usineiros…

Se der pra atender esse pedido, Papai Noel, os outros pedidos você pode até repassar para eles, os deputados. Se eles quiserem, dá para resolver um monte de coisa.

Na educação, por exemplo. Precisa tirar da mão dos municípios, porque se a coitada da criança der o azar de morar numa cidade com prefeito ruim (e são muitas), o futuro dela acabou antes de começar. Tem um jeito bem simples: chama “voucher”. Pega o dinheiro que o governo gasta com educação, que é uns 50 bilhões por ano, e divide pelo número de crianças. Aí manda para cada uma um papelzinho dizendo que ela tem aquela quantia disponível para se matricular onde quiser. Se o prefeito quiser continuar tendo escolas municipais, tudo bem. Só que ele só vai receber a grana se a escola for boa, senão as crianças vão para outro lugar. (Se eu fosse prefeito, eu transformava cada escola numa cooperativa e doava para os funcionários, mas essa é outra história)

A saúde também dá para melhorar. Faz o governo parar de regulamentar e controlar os planos de saúde, e libera para cada um poder oferecer o plano que quiser. Para os chatos não gritarem muito, estipula que o preço tem que ser no máximo a metade dos planos atuais regulamentados pelo governo. Depois, pega o gasto da saúde, que é mais de 100 bilhões, e distribui pelo mesmo sistema de voucher, para cada um contratar o plano que quiser. Aproveita e acaba com a ANVISA, que só serve para deixar remédio mais caro e deixar os doentes esperando anos para poder comprar os remédios depois que são lançados lá fora. Afinal, quando o congresso passou por cima da ANVISA liberando na marra a fosfoetanolamina, todo mundo apoiou.

Na segurança pública, Papai Noel, eu acho que é mais fácil ainda. Faz um plebiscito para aprovar duas medidas: Primeira, acaba com qualquer progressão de pena para quem não é primário: da segunda condenação em diante, se foi condenado a cinco anos, vai ficar cinco anos preso, sem semi-aberto, semi-fechado, semi-domiciliar ou sei lá o quê. Segunda medida: crime de responsabilidade para governador que deixar faltar vaga em presídio. Constatou falta de vaga ou superlotação, perde o cargo e fica inelegível; assim não vai faltar vaga para cumprir a primeira medida.

Só tem um detalhe, Papai Noel. Tem que parar de botar gente na cadeia só porque era pobre e estava fumando maconha (se é rico todo mundo sabe que não acontece nada). Afinal, encher a cara de cachaça ou cerveja pode, não pode?. O sujeito não está incomodando ninguém, e se ele vai preso sou eu que pago. Esse papo de “guerra às drogas” não convence, não funcionou em nenhum lugar do mundo, é uma guerra impossível de ganhar e que só serve para produzir violência, corrupção e despesa. Cigarro dá câncer e vende no supermercado, então qual o argumento para dizer que maconha é crime?

Outra coisa que precisa muito, Papai Noel, é acabar com essa coisa de ter que pagar um conselho para poder trabalhar. Não precisa. Deixa cada brasileiro decidir o que é melhor para ele. Quem acha que é importante que o arquiteto, contador, corretor de imóveis, advogado ou médico seja filiado a um desses troços, procura um que seja. Se não, deixa cada um escolher o profissional que quiser de acordo com os critérios que quiser (afinal, o João de Deus não tinha CRM e um monte de gente consultava com ele).

Papai Noel, eu também queria que fosse proibido colocar lombadas, tartarugas e coisas parecidas no meio da rua. A gente compra um carro, paga um monte de imposto, e daí o governo usa o meu dinheiro para estragar o meu carro de propósito? É muita sacanagem, Papai Noel. Além disso, governo que coloca lombada está confessando que acredita que todos devem pagar pelos erros de alguns.

Papai Noel, eu tenho um último pedido que é um pouco mais difícil. Eu queria que todos os brasileiros gostassem de estudar e tivessem o sonho de ganhar dinheiro trabalhando, não vivendo de seguro-desemprego, bolsa-família ou emprego público. Será que dá ou está acima dos seus poderes, Papai Noel?

Encerro essa cartinha com muita esperança, Papai Noel. Eu fui um bom menino o ano todo, não fiz malcriação, não matei passarinho, não quebrei vidraça jogando bola, não fiz xixi na cama e sempre fui muito estudioso, mesmo já tendo saído da escola faz uns trinta anos. Atende meus pedidos, Papai Noel !

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