MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

Acabei de mudar para uma casa nova, e a troca de endereço serviu para demonstrar a diferença que existe entre o mundo privado e o mundo estatal.

Mudar o endereço do cartão de crédito, do provedor de internet e do plano de saúde foi simples: bastou um telefonema. O banco, que é privado mas funciona debaixo do guarda-chuva do estado e segue a sua burocracia, pediu o famoso “comprovante de endereço”, que é a conta de água ou de luz. É interessante notar que o tal comprovante não comprova nada, porque mostra apenas que uma pessoa é proprietária de um imóvel, o que não significa morar nele. Conheço uma pessoa que é dona de mais de dez apartamentos, e que portanto pode ter mais de dez comprovantes de endereço diferentes – mas na verdade não mora em nenhum deles.

Já quando se trata do DETRAN, a coisa é diferente. A lógica diria que se Marcelo Bertoluci, brasileiro, maior, casado, vacinado, comunica um novo endereço, os automóveis de sua propriedade se mudaram com ele: não se sabe de carros que morem sozinhos. Se o carro tem um proprietário, obviamente o endereço do carro é o endereço do proprietário.

Mas a burocracia do estado é incapaz de perceber esta lógica. Assim, o cidadão que se muda, como eu, deve comunicar a mudança de endereço pelo correio, anexando as famosas cópias autenticadas do documento de identidade e do comprovante de endereço. Depois, em outro envelope, anexar novamente cópia autenticada da identidade, do comprovante de endereço e do certificado do veículo. E, para quem possui mais de um carro, como é o meu caso, repetir para cada um deles. Tudo enviado por carta registrada, porque o covid-19 colocou os funcionários estatais em quarentena quase vitalícia.

Afora o trabalho, a burocracia me fez deixar quase cem reais no cartório, para obter as tais cópias autenticadas (autêntica jabuticaba brasileira) e mais uns cinquenta no correio, para enviar várias cópias dos mesmos documentos em envelopes separados. Provavelmente todos estes papéis, após receberem alguns vistos e carimbos, serão arquivados em um grande prédio, onde ficarão gerando custos para o contribuinte por toda a eternidade, ou até o próximo incêndio, que parece ser uma ocorrência periódica em se tratando de DETRAN.

A conclusão é inescapável: além de desperdiçar nosso dinheiro, o estado deixa claro que para ele todo brasileiro é em princípio culpado, até que consiga provar o contrário.

9 pensou em “BUROCRACIA

  1. Para o estado todo contribuinte honesto é ladrão. Pior ainda é quando você vai registrar um imóvel!

    Todo os SEFAZ do Brasil são uns bandidos a serviço da burocracia para fuder o contribuinte honesto.

    O maior arrecadador de taxas, emolumentos, autenticação, reconhecimento de firma…são os cartórios. Uma máquina de fazer dinheiro em benefício de uma carreta de “funcinários fantasmas”.

    • Estudei nos EUA. Em um determinado momento precisei de um documento com firma reconhecida. Perguntei a um colega de classe onde tinha um cartório. Após muitas explicações ele me disse que isso não existe e que eu deveria procurar um “notarial”. Eu perguntei onde encontrava um. Ele disse que qualquer banco tem. É uma espécie de serviço gratuito que eles prestam aos clientes. Mesmo não tendo conta no banco, entrei em uma agência, perguntei pelo “notarial” e fui à mesa de um empregado, que tirou um carimbo da algibeira e carimbou o documento.
      Simples assim.
      Depois eu perguntei ao colega como é que faziam com os registros de imóveis. A prefeitura cuida, respondeu ele.

  2. Lecionei em algumas faculdades no DF. Uma delas, privada, parece ter incorporado o espírito cartorial que nós herdamos. Fui no RH comunicar que estava me mudando e a responsável pela área pediu que eu apresentasse um comprovante de residência. Perguntei como eu poderia apresentar um comprovante de residência se estava me mudando para o imóvel. Ela disse que precisava sim.
    Pensei assim: quem tem mais interesse em saber meu endereço é a faculdade, não eu.
    Não voltei mais no RH.

  3. Sábias palavras, meu caro Marcelo. Os cartórios aqui na terrinha, são simplemente, uma mina de ouro inesgotável. Impossível se livrar deles.

  4. Sou contra a burocracia, hoje a assinatura eletrônica vale para muitas coisas, porém o Estado não as reconhece.

    O comprovante de endereço, não sei se existe só no Brasil, serve para enviar correspondências e saber onde encontrar a pessoa em caso de necessidade.

    Quando v. tem mais de um imóvel e reside ora em um, ora em outro, v. terá dois comprovantes.

    Porém, se aluga o imóvel, o inquilino terá o direito de passar as contas de água e luz (comprovantes mais exigidos) para o seu nome para também ter comprovante de endereço. Também não faz muito sentido ter mais de um local para receber correspondências.

    Quanto ao automóvel, o estado tem que saber, no caso de mudança, onde será o outro endereço, não do carro, mas do proprietário, no caso de correspondência.

    Entendo também que telefone, endereço eletrônico (email) facilitariam muito as coisas.

    O Brasil é o país da burocracia, mas também é o país dos golpes e dos espertalhões. Venda de imóvel então….a burocracia é total.

    Para concluir, o Estado tem que modernizar, porém não dá para ficar sem ele.

  5. Marcelo, está aí uma oportunidade. Por um salário mínimo a empresa MB Representações, que já tem tecnologia e os atalhos para chegar nos lugares certos, resolve toda burocracia de troca de endereço para o pobre brasileiro. Criar dificuldade para vender facilidade é o normal aqui no Patropi. Mas, se você tiver uma carteira potente, consegue até colocar os filhos no Colégio Militar sem fazer prova. Tudo é relativo.

    Não devemos reclamar de nada viveremos tempos gloriosos segundo o Ministro da Economia. O Brasil no sonho dele está decolando. Apertem seus cintos, o piloto endoidou.

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