MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS

É grande e justa a fama do poema de Edgar Allan Poe, “O Corvo” (The Raven), de 1845.

Um poema narrativo, cheio de suspense e mistério, que fala de um insólito encontro entre alguém que está sozinho em casa, em uma noite fria de dezembro, e a ave, que chega de surpresa.

Tendo sido vertido para vários idiomas, conta com traduções para a língua portuguesa assinadas por ninguém menos que Fernando Pessoa (clique aqui para ler) e Machado de Assis, em O Corvo

Mais recentemente, na década de 1970, nosso saudoso conterrâneo Belchior juntou Allan Poe com Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga, ao por o Corvo na companhia do Assum Preto, em sua canção “Velha roupa colorida”:

Como Poe, poeta louco americano
Eu pergunto ao passarinho
Black bird, assum preto, o que se faz?
Raven, never, raven, never, raven, never, raven, never, raven
Assum preto, pássaro preto, black bird, me responde: Tudo já ficou atrás
Raven, never, raven, never, raven, never, raven, never, raven
Black bird, assum preto, pássaro preto, me responde:
O passado nunca mais.

Pois também eu me inspirei no Corvo, ao encontrar, empoleirada no telhado da minha casa, outra ave. Também preta, também misteriosa.

O URUBU

Inspirado no poema “O Corvo” (The Raven), de Edgar Allan Poe

Certo dia, numa tarde ensolarada,
Regressava ao meu lar, minha morada.
Quando, ao chegar à frente do portão,
Surpreendeu-me a insólita visão
De um grande e majestoso ser alado.
Que, ali, postado ao topo do telhado
— a um só tempo, próximo e distante —
Como estátua, das que habitam os portais,
Em silêncio, sério, sóbrio e elegante,
Olhava-me apenas, e nada mais.

Observando a imponente figura,
Com sua plumagem quase toda escura,
Veio-me a ideia de que aquela imagem
Bem poderia ser a de um personagem,
Já conhecido, de outro tempo e lugar.
Lembrava eu, então, do corvo de Edgar.
Que em sua casa, entrou, num certo dia,
De ventos frios, quase glaciais.
E às perguntas do poeta respondia
Sempre a resposta mesma: “Nunca mais!”

Imaginei, mas só por um momento
Fez-me sentido aquele pensamento,
De que a ave sobre o meu telhado
Fosse o corvo em versos retratado
Pelo famoso poeta americano.
Rapidamente, reparei o engano,
Pois que lembrei, olhando o céu azul,
De um detalhe sobre esses animais:
Corvos não há na América do Sul,
Se um dia houve, hoje não há mais.

Assim, ficou, de plano, esclarecido,
Que a ave que houvera ali surgido
Não era corvo. E, de fato, a olho nu,
Bem se via se tratar de um urubu.
Um urubu que, abrindo suas asas,
Sobrevoou, decerto, muitas casas,
Até que veio a pousar na minha,
Muito embora ali houvesse outras tais.
Um urubu, que não se sabe de onde vinha,
Simplesmente estava ali, e nada mais.

Mas, mesmo resolvida essa questão,
De que a ave ali pousada não
Seria o corvo, o corvo tão famoso,
Continuei intimamente desejoso,
De que o ser, de tão escuras penas,
Não fosse um simples urubu, apenas,
Mas uma ave que então respondesse
Minhas perguntas, quem sabe outras mais.
Que eu, depois, em versos escrevesse
Ainda que somente repetindo: “nunca mais”.

Pensando assim, passei a indagar:
Ó, ave misteriosa, podes me falar
Do que tens visto quando estás voando?
Ou do que chega aos teus ouvidos quando
Planas tranquilo em grandes altitudes?
Conta-me, pois, se entre tuas virtudes
Está a generosidade de dizer
Aos que não voam – como nós, pobres mortais –
Coisas que somente hão de saber
Os que alcançam altitudes colossais!

Mas o urubu calado permanecia.
Se tinha algo a dizer, não me dizia.
Talvez guardasse íntimos segredos,
Talvez apenas escondesse medos,
Por estar pousado, e não voando.
Enquanto eu, já me impacientando,
Deixei transparecer que era presa
De um dos sete pecados capitais:
“Fosse eu poeta de maior grandeza,
Tu certamente falarias mais!”.

Mas até o meu insulto foi ignorado.
E o urubu permaneceu calado.
Ao contrário do corvo, em Baltimore,
Que respondia sempre “nevermore”
A cada indagação de Edgar.
Conformei-me, desisti de perguntar.
E, amuado, me calei também.
E, sem dizer sequer um “nunca mais”
Parecendo mesmo demonstrar desdém,
A ave foi-se em ventos termais.

Passou o tempo e esqueci o ocorrido
Até que um dia tudo fez sentido:
Não foi por má educação ou desrespeito
Que o urubu se comportou daquele jeito.
Explico: anos depois fiquei sabendo,
Em obra de ornitologia que andei lendo,
Que, na verdade, por não ter siringe,
– órgão das aves, de funções vocais –
Permanecia a ave, tal qual uma esfinge,
Em seu silêncio, sem falar jamais.

11 pensou em “AVES PRETAS E POETAS

  1. Hahaha, muito bom e muito engraçado
    Mairton acabou com o corvo do Edgar
    O corvo assim como o urubu é bem calado
    Porque não tem cordas vocais para falar

  2. Lindíssimo poema, Dr. Mairton!!! Parabéns! Tão emocionante quanto “O Corvo” (The Raven), de Edgar Allan Poe), merecedor de tantas traduções importantes.
    A composição de Belchior, juntando Allan Poe com Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga, e pondo o Corvo na companhia do Assum Preto, em sua canção “Velha roupa colorida”, também é sensacional!

    Grande abraço!

  3. Bom poema, Mairton. Mas me permita um pequeno reparo – a revelação do significado de “siringe”; o que confere um certo didatismo aos versos, o qual não casa bem com poesia. Penso que, sem isso, o poema estaria melhor do que me parece. Parabéns!

    • Francisco, você tem toda razão.
      Comecei o poema um pouco na brincadeira, o que incluída a revelação do motivo da mudez do urubu no final.
      Depois que ficou pronto, deu uma vontade danada de cortar a última estrofe, que não foi a última a ser escrita.
      Resolvi manter, para ser fiel ao projeto original, mas é possível que eu reveja essa posição.
      Muito obrigado pela observação.

  4. Lascou pedra no corvo que fizeram com a Geni de Chico Buarque. Vou olhar melhor para o urubu. A propósito, os carneiros da rua botaram um urubu na panela. O dia inteiro e o cabra não ficou comestível. Será que chinês sabe cozinhar ou Goiano já viu essa opção culinária em países neoliberais?

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