A estrela da noite
Não era um palco dos que isolam os artistas do público. Ao contrário.
Com um desenho de uma meia lua, com altura de no máximo 15 centímetros, que permitia a interação do artista com o público, ansioso para dançar.
Extravasar ao som do que ouvia.
Parecia que a sonoridade do saxofone penetrava pelos poros das pessoas, contagiando-as.
Fazendo-as sentir a música tocada:
Careless Whisper
(George Michael)
Feel so sure
There’s no-one here for me
Crying on the floor
I got no-one to gee, oh-oh
And as the time goes by
I reach out for your hand
So cold
You’re looking into my eyes
Like you could never understand
Plead my case
Oh, you know it’s not the same
I’m never gonna dance again
Guilty feet have got no rhythm
Though it’s easy to pretend
I know you’re not a fool
I should’ve known better than to cheat a friend
And waste a chance that I’ve been given
So I’m never gonna dance again
The way I danced with you
Time can never mend
The careless whispers of a good friend
To the heart and mind
Ignorance is kind
There’s no comfort in the truth
Pain is all you’ll find
Tonight the music seems so loud
I wish that we could lose this crowd
Maybe it’s better this way
We’d hurt each other with the things we’d want to say
We could have been so good together
We could have lived this dance forever
But now who’s gonna dance with me?
Please stay
Êxtase total.
Sem intervalo, a estrela da noite retira o sopro do saxofone, e se deixa mostrar em sorriso de satisfação, ao tempo que um foco de luz mostra a penetrante solidez do que fazia: agradar ao público que o assistia e sentia, nota por nota, como se todos estivessem tocando naquele saxofone.
Ninguém se atrevia a dançar e perder as emoções daquelas notas tão bem tocadas.
Divino!
2 – A visita ao torrão natal
O ipê amarelo, a casa simples e o fusquinha
Guaiuba era o nome do povoado – parte de Pacajus – onde nascem os cajus e as estrelas que caem das noites para iluminar os dias. Como se fossem castanhas.
Naquela casinha, antes caiada, e agora pintada de róseo, nasceu o Zé. Zé, ali. José, fora dali pelo mundo à fora.
A estrada que levava à BR, antes não era assim como está hoje. Era areia frouxa que atolava o pé de quem a pisava.
Zé caminhava pela areia que atolava na direção da BR onde virava José. Por anos, ia levando saudades e voltava trazendo alegrias.
De noite, após cafunés e chamegos, se punha a observar estrelas num céu límpido e sem nuvens. De dia, assava castanhas dos cajus para fazer mocororó e temperar o peixe.
Os anos se passaram e José, adulto, trabalhou e conseguiu comprar um fusquinha. A estrada não atolava mais, mas o céu continuava ali no lugar dele. Límpido e repleto de estrelas.
Era primavera. O ipê que João plantara para fazer sombra e proteger a casa do calor do verão, floriu. Era amarelo. Um amarelo vivo que ao derrubar as flores amarelava o chão e a natureza pintava um quadro de beleza contrastando com o róseo da casa.
A claridade do dia mostrava um quadro que recebia o enfeite das araras que usavam o aconchego do verde de antes da floração, para o ninho e a reprodução.
A casinha rósea, o ipê, agora amarelo, o fusca brando e as araras nunca substituíram a boa lembrança dos cafunés noturnos.

