JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

Eny Cezarino nasceu em 23/4/1917, em São Paulo. Bem-sucedida empreendedora, dona de um cabaré em Bauru, SP, na década de 1940 e seguintes até 1983. Localizado nos arredores da cidade, numa área de 12 mil metros, seu prostibulo foi considerado um dos maiores e melhores da América Latina.

Filha da francesa Angelina Bassoti Cesarino e do italiano José Cesarino, foi educada em colégio de freiras e criada para arrumar um bom casamento. Ainda jovem, perdeu a virgindade com o pai de um amigo por simples curiosidade. Pouco depois fugiu de casa e foi viver no Rio Janeiro, onde conheceu um gigolô e namorado no Cassino da Urca, levando-a a conhecer alguns prostíbulos em São Paulo, Porto Alegre e Paranaguá. Foi aí que teve notícias da cidade de Bauru e de seu progresso com a chegada da ferrovia.

Ficou sabendo também através de uma amiga recrutadora de prostitutas, que a Pensão Imperial de dona Nair estava precisando de mulheres para dar conta da demanda crescente da cidade. De fato, com o progresso o dinheiro passou a irrigar a cidade. Em Bauru, se dava a baldeação para vários ramos da ferrovia e a cidade se expandia em novos negócios. Em fins de 1945, mudou-se para Bauru; comprou a Pensão Imperial; fez uma reforma incrementando o ambiente e alavancou seu “negócio”. Dotada de senso empreendedor, em poucos anos tornou-se poderosa, influente e amiga de empresários e políticos.

Em seguida comprou um imóvel fora do perímetro urbano e instalou o “Eny’s Bar, o maior e mais luxuoso bordel do País. No seu auge, 1963-1983, seu bordel contava com 70 moças, 20 funcionários registrados em carteira, 40 quartos, saunas, jardins, restaurante, piscina, bares e salões de festas. Chegou a realizar festas de confraternização e convenção de políticos. A pista de dança tinha o formato de violão. Um dos ilustres frequentadores, Vinicius de Moraes, confidenciou ao parceiro Toquinho “que a prioridade em Bauru era a Casa de Eny” Eles podiam até nem fazer show, mas “deixar de passar na Eny, jamais”.

Dona Eny cuidava das moças com médicos, bons perfumes, podiam estudar, se quisessem e tinham que manter algum recato. As que vinham de fora, eram orientadas a trazer o título de eleitor, pois ela era também uma boa “cabo eleitoral” e bem relacionada com os políticos da cidade. Seus familiares sabiam de sua profissão e recebiam ajuda financeira. A única exceção era sua avó Rosa, com quem não falava. Chegou a ser conhecida como uma benemérita ajudando creches, escolas e obras sociais mantidas por irmãs de caridade.

Possuía 26 imóveis; foi casada umas vezes; não teve filhos; mas perdeu grande parte da riqueza e morreu pobre em 25/8/1987, aos 69 anos. Atribuiu sua decadência a mudança dos costumes e ao surgimento dos anticoncepcionais, que liberaram as “moças direitas” a ter sexo com os namorados, além de alguns golpes que recebeu de seus contabilistas. O local onde ficava seu bordel, o trevo na entrada de Bauru, recebeu seu nome como homenagem.

Em 2002, Lucius de Mello escreveu o livro Eny e o grande bordel brasileiro, publicado pela Editora Objetiva. Uma biografia romanceada num misto de reportagem e “causos” sobre os frequentadores. Alguns deles famosos como Vinicius de Moraes e, conforme citado no livro, os presidentes Jânio Quadros e João Goulart. Desde cedo manteve bom relacionamento com políticos.

Sua fama adquirida em Bauru deve-se, em parte a um cliente, frequentador de sua casa, que ajudou-a adquirir o terrento onde instalou seu bordel. Em seguida ele candidatou-se a prefeito e deputado estadual, elegendo-se nos dois cargos. Eny lhe garantia o voto de alguns clientes e suas moças, mantendo o discurso: “O voto é uma carta poderosa que temos na manga, meninas. Temos que saber usá-lo na hora certa. Somos putas, vagabundas, como dizem as damas da sociedade, mas somos um colégio eleitoral. Só as mulheres que moram na Costa Ribeiro elegem um vereador nesta cidade. Portanto, meus amores, votem de cabeças erguidas, orgulhosas porque nós todas somos cidadãs brasileiras e merecemos respeito”.

3 pensou em “AS BRASILEIRAS: Eny Cezarino

  1. Gostei de saber que após quase 90 anos as decisões do país continuam sendo tomadas em um cabaré.
    Em 2013, as decisões eram tomadas no cabaré da Jeany Mary Corner em Brasilia, até ministro do então presidente Lula caiu.
    Rede de prostituição de Jeany Mary Corner é desmontada em Brasília… – Veja mais em https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/efe/2013/12/02/rede-de-prostituicao-de-jeany-mary-corner-e-desmontada-em-brasilia.htm?cmpid=copiaecolade Jeany Mary Corner … – Veja mais em https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/efe/2013/12/02/rede-de-prostituicao-de-jeany-mary-corner-e-desmontada-em-brasilia.htm?cmpid=copiaecola

    Em 2025, as decisões passaram a ser tomadas no Cabaré do Vorcaro, em Trancoso, com as suíças.

    Sakamoto: Festa mostra como Vorcaro comprava proximidade com políticos… – Veja mais em https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2026/09/11/sakamoto-festa-das-suicas-mostra-como-vorcaro-comprava-proximidade-com-politicos.ghtm?cmpid=copiaecola

    Chego a conclusão que o Cabaré Brasil, sustentado pelo povo, continua.

  2. O nome correto da Eni era Emy Cesarino.À época, eu trabalhava na agência Ford (Salmen) e quando do
    lançamento do Ford Corcel, vendemos 17 carros para
    as meninas todas as duplicatas tinham o aval de Dona
    Eni. Não atrasaram nenhuma prestação e eu comentei
    com meu amigo Noel Zorzella sob o pagamento no
    vencimento. E ele comentou ” também, elas tem uma
    caixa econômica grudada no corpo…”

    • Grato Mario Augusto

      pela visiita ao nosso memorial e pelo delicioso acréscimo na breve biografia. Realmente sua “caixa econômica” é um belo atrativo à clientela

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