As cigarras morreram… Todavia
Sinto um leve rumor tranquilo e lento
Que vai, de ramaria em ramaria,
Lento e tranquilo como o pensamento.
As cigarras não são, porque, outro dia,
Vi que soltavam o último lamento…
E o vento? Deve ser a alma do vento
Que entre os ramos das árvores cicia…
Entretanto o rumor parece eterno…
Agora que as estrelas se acenderam,
Vibra num coro, em serenata, ao luar…
Contam os lavradores que, no inverno,
As almas das cigarras que morreram
Ressuscitam nas folhas a cantar.

Olegário Mariano Carneiro da Cunha, Recife-PE, (1889-1958)
Eis um belo poema de Olegário Mariano, que trata do ciclo da natureza e da persistência da memória ou da arte, simbolizadas pela alma das cigarras que morreram e que no inverno ressuscitam nas folhas a cantar.
Tudo isso confere ao poema um caráter místico e de valorização da sabedoria popular, ao repercutir o que contam os lavradores.
Não sei se eram almas de cigarras que morreram, ou se tem algo a ver com o ato de ouvir estrelas, mas na subida do morro me contaram que a ideia de que as almas das cigarras ressuscitam nas folhas a cantar oferece um desfecho esperançoso neste enredo, de que a arte e a vida não acabam, elas apenas se transformam em novos ciclos naturais.
Hoje JJ está muito poético.