MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS

Escrevo no dia 9 de novembro de 2020. Quase oito meses atrás, publiquei uma crônica na qual falei do modo de vida que havia adotado após a chegada da pandemia do coronavírus ao Brasil.

Na época, diante dos fatos noticiados na imprensa a respeito do assunto, anunciei as metas que norteariam a minha conduta. A meta principal: não contrair a doença. A meta alternativa: contraindo-a, não a transmitir a ninguém.

Também comentei, na referida crônica, o quão diferente havia se tornado uma simples ida ao supermercado. Falei de luvas, álcool em gel e cuidados com a desinfecção dos produtos adquiridos. Práticas que repentinamente haviam sido incluídas no meu cotidiano.

Não falei de máscaras, porque estas apenas se incorporariam ao nosso vestuário semanas depois. Menos pelas tentativas de imposição dos governos, e mais pela nossa crença nas opiniões dos especialistas, divulgadas a toda hora nos meios de comunicação.

Aqui no Brasil, somente em julho entraria em vigor a Lei Federal 14.019/2020, tornando obrigatório o seu uso, mas a depender de regulamentação a ser estabelecida pelo Poder Executivo federal.

Desconheço se houve tal regulamentação. Sei que, mesmo antes da publicação da Lei 14.019/2020, já se tinha notícia da edição de decretos estaduais e municipais estabelecendo punições a quem circulasse sem máscara em espaços públicos. Tenho dúvidas quanto ao valor jurídico desses decretos, ante o disposto no art. 5º, II, da Constituição Federal:

II – ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei;

Mas meu objetivo aqui não é fazer uma análise jurídica da suposta obrigatoriedade do uso de máscara no Brasil. Talvez faça isso em um futuro breve, mas não hoje. Hoje, minhas reflexões não estão no dever-ser das normas jurídicas, e sim no ser-e-acontecer do dia a dia.

Porque na semana passada fiz algo que há meses não fazia: fui almoçar em um restaurante. E ainda me é estranho ver mesas deliberadamente deixadas vazias, para que os comensais mantenham-se distanciados; observar pessoas usando máscara enquanto caminham entre as mesas; ter a temperatura do corpo medida na chegada ao estabelecimento.

Medidas que talvez estejam funcionando. Afinal, nos últimos três meses, apesar da reabertura de inúmeros estabelecimentos comerciais, há uma nítida tendência de queda na quantidade de novos casos e novos óbitos confirmados no Brasil por COVID-19.

Fonte: G1

Por outro lado, pode não ser nada disso. Pode ser que esses números estejam caindo simplesmente porque muita gente já foi contaminada e muita gente já morreu. A tal imunização de rebanho. Quem sabe? Embora reconheça a minha imensa ignorância na área, cada vez que tento ler sobre o assunto, encontro informações desencontradas e até contraditórias.

Então, o que me resta é observar o que acontece ao meu redor.

Olhar as pessoas em volta e imaginar quem entre nós carrega consigo o corona vírus. Nas mãos, nas roupas, na sola dos sapatos, nas entranhas… Quem de nós é seu hospedeiro? Quem de nós já o teve em suas células e hoje ostenta a tão sonhada imunidade? Talvez permanente, talvez temporária…

No restaurante, semana passada, ficamos certos de que a nossa mesa estava livre dessa presença non grata, porque a jovem que nos atendeu teve o cuidado de espalhar álcool na superfície de madeira. Mas como saber se eu mesmo não levei o vírus comigo, na minha própria roupa ou no meu telefone celular?

O fato é que ele pode ter grudado no meu tênis da última vez que saí para passear com meu cachorro – ou no cachorro mesmo – e estar atualmente no tapete da minha sala. Ou no sofá, ao meu lado, enquanto vejo um jogo de futebol na TV.

O leitor que chegou até este ponto tem motivo para pensar que, se até aqui escapei do vírus, não consegui me defender de uma psicose. E agora ando por aí assustado, sentindo pavor de um inimigo invisível, que me espreita a cada passo.

Curiosamente, isso não acontece. Depois de sete meses dessa nova realidade que o vírus nos impôs, entristeço-me com as centenas de milhares de famílias que perderam seus entes queridos, mas me sinto bem mais sereno em relação ao risco de contrair a doença e sofrer os seus tão variados efeitos.

Continuo mantendo os cuidados com a lavagem das mãos e o uso do álcool nas compras do supermercado, mas sem a tensão dos primeiros meses. O trabalho em regime de home office continua me permitindo sair de casa apenas quando necessário, mas essas saídas já não causam tanto estresse.

Como se o novo corona vírus fosse (e parece que é) apenas mais um ser que compartilha conosco a vida na superfície do nosso planetinha azul. Um ser que tem antecipado a morte de muitos da nossa espécie, e dá sinais de que pode continuar a fazer isso por um tempo cuja duração ainda se desconhece. Mas sobre o qual estamos a cada dia aprendendo mais.

Pode ser que em breve tenhamos uma vacina. As notícias mais recentes apontam para isso, nos enchendo de esperança. Mas também pode ser que demore. Pode ser até que nenhuma das que estão sendo testadas funcione satisfatoriamente.

Independentemente de alguma dessas possibilidades se tornar realidade, o que me parece cada vez mais claro é que a suspensão de atividades econômicas vai se tornando uma providência cada vez menos viável. E de eficácia duvidosa. Se nos primeiros meses da pandemia o “fique em casa” fez sentido, o fato de o número de óbitos vir decrescendo após a reabertura do comércio pode indicar o contrário.

Quem pode afirmar essas coisas com certeza?

Imagino que, para quem teve alguém da família morto pela COVID-19, deve ser bem tenso entrar em um trem ou ônibus, para se deslocar para o trabalho ou voltar para casa. E tantas outras coisas que já foram simples, mas hoje envolvem risco para a saúde e até para a vida.

Mas as pessoas precisam ganhar o seu sustento, e nem todos têm a possibilidade, de trabalhar em casa (como eu). Assim, cada vez mais as pessoas estão nas ruas. Não apenas no Brasil, mas no mundo todo. Jornais noticiam uma segunda onda do vírus na Europa, mas já não é tão fácil convencer as pessoas a se isolarem em casa.

No fim das contas, a espécie humana há de seguir o seu caminho. O vírus também.

12 pensou em “AINDA O VÍRUS

  1. Aprendemos uma nova de vida. Isolada, mas conectada. Vou preferir dar aulas remotas. Oriento teses, dissertações, monografias, participo de bancas de defesas, de dentro de casa. Pago mais energia, mas me sinto a vontade pra dar aula de bermuda, de camiseta sem gastar combustível pra me deslocar até a universidade.

      • Meritíssimo, data venia, a fuxicagem do Papa Berto, sobre sua participação no cabaré do referido, sugiro 26.11, porque no dia 19.11 teremos outro cearense na bodega. No mais, agradecemos. Abraços

        • Meu caro Assuero, assim você junta a fome com a vontade de comer. Dia 19 seria ruim pra mim, porque estarei viajando. Mas dia 26 tem tudo pra dar certo.

    • Berto, querido amigo, tenho estado trabalhando nas noites de quinta-feira, mas podemos reservar uma dessas noites para esse encontro. Preciso só de uns dias de antecedência para me preparar, porque os membros do conclave são do mais alto nível.

  2. Marcos, muito bom seu artigo.
    Mas sobre as mortes, ouvi uma entrevista dada por um infectologista de que a redução do número de mortes se deu ao aumento da experiência das equipes médicas no tratamento. No início não sabiam direito como fazer, agora já estão com bos experiência, além do fato de que os pacientes correm aos hospitai logo ao sentirem os primeiros sintomas.

    Mas aí vêm as vacinas, se Deus quiser.

    • Muito obrigado, Francisco.
      Faz todo sentido que o número de mortes tenha diminuído em consequência do aprendizado no tratamento e do atendimento precoce.

  3. Prezado Marcos,

    Apesar da mais elevada admiração que lhe tenho, aliada à minha imensa ignorância a respeito de questões médicas, permita-me fazer algumas considerações a respeito do seu artigo.

    1o) O ser humano é uma imensa colônia ambulante de vírus e bactérias, Algumas delas, inclusive, são absolutamente indispensáveis em alguns dos processos mantenedores da vida, tal qual as bactérias da fauna e flora intestinal.

    2o) Os seres humanos sempre conviveram com estas mesmas bactérias. Algumas, em simbiose. Outras, como hospedeiro e sofrendo consequências fatais delas. Isto é um fato da vida do qual não conseguiremos jamais escapar.

    3o) Criar os seres humanos em bolhas assépticas, apavorados com a mínima possibilidade de contato com essas bactérias e vírus seria desastroso para a sobrevivência da espécie, já que impossibilitaria a evolução dos sistemas imunológicos. Seríamos criaturas absolutamente frágeis e vulneráveis diante do ambiente.

    4o) A humanidade tem vergonha da eugenia, mas a natureza não. Os seres humanos criados nas condições ambientais mais adversas são, muito paradoxalmente, exatamente aqueles onde os sobreviventes desenvolveram as defesas mais poderosas às agressões e ataques dos micróbios. O melhor exemplo disto é o fato de que os atletas mais resistentes terem sido criados em condições de higiene absolutamente deploráveis, enquanto que os filhos dos ricos, criados em apartamentos e no ar condicionado, serem frágeis criaturas diante das doenças.

    5o) Diante dos fortíssimos indícios de que esta maldita pandemia seja apenas uma imensa armação de forças poderosíssimas que querem ver a humanidade toda de joelhos, parece-me que tudo isto não passe de uma imensa “jogada”, onde interesses monetários imensos se unem a interesses políticos calhordas e a multidões de aproveitadores.

    VAMOS TODOS MORRER? VAMOS!

    Só que eu, Adônis Oliveira, me recuso a passar o restinho dos anos que me sobraram a ver filmes, trancado em casa; a passar álcool gel em tudo que é buraco de meu corpo; a desinfetar tudo o que vou tocar ou ter contato; e por aí vai.

    CHEGA DE NEUROSE!!!! VÃO ENDOIDAR A PUTA QUE OS PARIU!!!

    • Grande Adonis!
      Eu também tenho elevada estima e admiração por você.
      Inclusive quanto a essa maneira direta e clara de dizer o que pensa.
      Muito obrigado!

  4. Prezado e caríssimo Mairton,

    Por Santa Maria Bago Mole, protetora dos Cíceros e Sanchos,
    Fã que sou e apesar da mais elevada admiração que lhe tenho, aliada à minha imensa jumentice a respeito de questões médicas e jurídicas, permita-me fazer uma consideração a respeito do seu artigo: Quando mandam mais de 200 milhões de brasileiros esconderem-se em casa, a expressão “combater a pandemia” talvez seja um tanto quanto sem sentido, pois não!?

    E aproveito o espaço para aplaudir todos os cinco itens elencados pelo Adônis, um cabra que quebra o coco e não arrebenta a sapucaia.

    • Pois é, Sancho. Veja que apesar de me considerar alguém que levou a sério o “fique em casa” do começo, hoje questiono se deveria ter sido como foi.
      Como diz um advogado cearense, cujo nome não lembro, “só não muda de ideia quem não ideia alguma”.
      Abraço!

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