JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

Prato vazio e olhos de quem depende de você

“Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.”

Depende de nós. Muito depende de nós. Muitos também!

É chegada a hora de entendermos que versos só alimentam as almas e, algumas vezes, os amantes. É chegada a hora da decisão.

Repito: muitos dependem de nós. Do que vamos fazer no próximo domingo. Deixe a poesia em casa. Leve o voto! Leve a vida e a comida para os pratos vazios. Bote brilho nos olhos onde o “branco” anuncia a poesia da fome – e, provavelmente, a da morte.

Morrer de fome não é nada poético. A fome nem permite ouvir os gorjeios das aves que cantam nas palmeiras.

Tal qual o sabiá sem palmeiras o menino sem poesia sente fome

– Bom diaaaaa!

– Diaaaa!

– Tá indo pra onde, tão devagar?!

– Tô indo votar. Fazer a minha parte, sabendo que só eu faço!

– Quer uma carona?

– Quero!

– Posso saber em quem você vai votar?

– Pode, claro!

– Em quem?

– Vou votar para a preservação dos cachorros, dos gatos, dos morcegos e, provavelmente, para a preservação dos sabiás, augurando que eles voltem a cantar nas palmeiras da minha terra!

– Seu voto tá parecendo poesia!

– E é!

Poesia da fome, para que versos consigam alimentar as minhas crianças, as suas e as crianças famintas do mundo, sem deixar de fora as da Venezuela!

Crianças consomem versos da mais bela poesia

“Minha terra tinha palmeiras
Onde cantavam os sabiás
As aves que ali gorjeavam foram comidas,
Agora cantam noutro lugar!”

Sou descendente direto de negro, que resolveu fazer uma mistura com índios. Posso ser uma salada, mas, provavelmente, jamais serei uma poesia. Um verso sequer.

Nasci no Ceará, lugar onde, nem nas poesias existem palmeiras.

Os sabiás fugiram ou se transformaram em graúnas – mansas!

Quase poéticas. Com rima e métrica expelidas pelos gorjeios. Mas, sem rimar ou cantar com as palmeiras.

Ali, aprendi a poesia do semear manivas e colher mandiocas, fazendo da terra o casulo da transformação – e aquilo eu tinha certeza que eram versos. Versos irrigados pelo suor escorrido e caído do rosto, imitando os pingos das chuvas versejando pelas folhas verdes da vida – e da alimentação que estará por vir.

Sou poeta?

Qual poesia construí ou escrevi?

– “A poesia da fome”!!!!!!!

Respondeu o eco desde as entranhas produzidas nos cânions da imaginação – sem palmeiras e sem sabiás cantando.

Criança “catando” versos sem sabiás, mas com urubus

Epaminondas, pessoa que a vida e a necessidade transformaram em poeta, recebeu como “presente” o dom de dormir em qualquer lugar. Para dormir, era suficiente apenas “adormecer”. Por anos, a fio, escolheu adormecer e dormir num dos bancos de uma praça sem palmeiras e sem sabiás. Sem poesia, digamos.

Comia versos originados nas sobras de pasteis que os poetas de barrigas cheias ofereciam. Aos sábados, domingos e feriados naquela praça sem palmeiras e sabiás, nada comia. Nem versos nem poesia completa.

Eis que escutou o cântico mágico e transformador da barriga. Verso mal escrito, sem rima, sem métrica – e resolveu comer uma lagarta. Seu único e principal verso consumido naquele dia.

Na manhã do dia seguinte, na praça ainda deserta, desceu as calças e cagou uma linda e bem desenhada borboleta.

“E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?”

Carlos Drummond

2 pensou em “A POESIA DA FOME

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