NO ESCURINHO DO CINEMA

Nos anos 60, a maior diversão da juventude era, com certeza, o cinema. No Centro da cidade, bem instalado na Rua do Comércio, o Cine São Luiz reinava em Maceió, como o mais frequentado. Havia os cinemas dos bairros: o Cine Rex ficava na aprazível, Pajuçara, bairro da classe média alta, gente grã-fina, porém, o cinema era aberto a todos. A moçada da Rua do Cravo e imediações lotava o cinema para assistir filmes de cowboys e seriados. O cine Plaza, ficava no bairro do Poço, fui frequentador assíduo. O Cine Lux na Ponta Grossa fazia a alegria da pivetada dos bairros vizinhos. E o Cine Ideal na Levada passava as melhores séries, “voltem na próxima semana”. Nos anos 80 o Cine Ideal foi transformado em cinema pornô.

Certa vez fui jurado em um concurso literário. Fiquei impressionado com uma crônica bem escrita por um cidadão, homossexual, de Maragogi. Uma crônica- depoimento, onde confessava o que acontecia em suas tardes no Ideal. Quando ele sentia vontade, quando dava comichão no rabo, entrava no cinema com o filme já iniciado. Não demorava, alguém encostava, se oferecendo como parceiro; em pé, encostado à parede, eles satisfaziam-se mutuamente. Na crônica ele chegava a detalhes impressionantes. Outra jurada, professora da Universidade, arquivou aquela crônica como documento para estudos de comportamentos sexuais dos anos 80. É bom esclarecer aos apressadinhos meninos do arco-íris que o Cine Ideal já fechou há alguns anos.

Na década de 50 o cinema mais chique no centro da cidade, o Cinearte passou a ser chamado São Luiz (minha mãe em lapso de memória às vezes chamava de Capitólio, seu nome original nos anos 30). Foi a época do cinemascope e tecnicolor, o auge dos grandes filmes americanos: “Suplício de Uma Saudade”; “Tarde Demais para Esquecer”; “Juventude Transviada”, entre outros. No início de uma paquera, o jovem marcava encontro no São Luiz, pedindo a moça para guardar seu lugar. Ao iniciar o filme, no escurinho do cinema, ele sentava-se ao lado. Às vezes, no primeiro dia, pegava na mão, era a glória, ter pegado na mão no primeiro dia. Quando era uma moça já calejada, marcava encontro nas cadeiras de trás, mais discreto para o beijo na boca, o alisar e outras carícias mais íntimas. À noite o cara se gabava com os amigos que tinha feito maior “sabão” com uma jovem no São Luiz.

As matinês do São Luiz eram bem frequentadas, os maloqueiros de Maceió se juntavam para fazer presepadas. Certa vez no filme “Sansão e Dalila”, numa cena, Dalila caminha numa estrada, a câmara focalizava ela andando de costas. De repente, Dalila para, vira a cabeça, olha para trás e dá um adeus com mão direita. Becker, um dos maiores presepeiros de Maceió, ficou para assistir outra seção do filme. Quando apareceu a cena de Dalila caminhando, Becker deu um grito: “Tchau Dalila!!!”. Nesse momento, na tela, Dalila parou, olhou para trás, deu adeus. O cinema veio a baixo, às gargalhadas. Outra vez durante um filme de terror, maior tensão, maior perigo, todos entretidos no filme, de repente, Becker em cima, no balcão, jogou uma galinha viva. O barulho que a galinha fez batendo as asas e o cacarejando alto, deu um susto apavorante na plateia. Parou o filme, tentaram inutilmente pegar meu querido amigo Becker.

Havia um rapaz de uma das famílias mais distintas de Maceió que nasceu com problema, tinha idade mental de cinco anos, vivia perambulando pela Rua do Comércio, todos gostavam de Celinho. Ele assistia várias vezes os filmes no São Luiz. O gerente compadeceu. Propôs a Celinho entrar de graça e ser fiscal do cinema e disse quais suas funções: Não deixar pivete fazer maloqueiragem; não deixar fumar; não deixar se masturbar; beijar podia. Celinho repetia para memorizar: “Não pode fumar, não pode gritar, não pode se masturbar”

Celinho até que ajudou, quando percebia um cigarro aceso, aproximava-se: “Cigarro não! É proibido!”, o cara apagava. Ele ficava louco porque não podia identificar os meninos gritando nas matinês. Certa vez, Celinho encostado com a barriga na mureta notou um casal suspeito nas duas últimas cadeiras. Andou de ponta de pés até constatar a cena: a namorada segurava alguma coisa por dentro da braguilha do namorado. Celinho não advertiu, emocionado com o primeiro flagrante foi gritando:

– “Ela tá masturbando ele! Tá masturbando. Não pode, não pode.”

O cinema veio abaixo numa só vaia. O casal saiu apressadinho pedindo licença entre as cadeiras. Por azar a moça foi identificada pela moçada da Rua do Comércio. Por muito tempo ficou conhecida como “Mãozinha de Ouro”. Celinho foi chamado pelo paciente administrador comunicando que ele devia ser discreto quando chamasse a atenção, ele entendeu. Celinho por muito tempo assistiu todos os filmes do São Luiz gratuitamente e zeloso, repreendia discretamente quem fumasse, quem gritasse ou quem se masturbasse, o que acontecia algumas vezes em filmes impróprios a 18 anos.

10 pensou em “NO ESCURINHO DO CINEMA

  1. Carlito, tuas crônicas nos dão uns momentos de leveza, humor, sensibilidade e até de sensualidade e erotismo, sem apelações para o vultar. Nos momentos de lê-las, dou uma parada, respiro fundo, me encosto e me delicio.

  2. Quando tinha 13 anos ficava sempre pensando em chegar aos 21. Porque um cinema pelo lado da Praça dos Andradas em Santos S.P. passava este tipo de filme. Nunca pude assistir pois mudei de lá em 1965. Pornô só vi na internet , no computador e por celular que se infesta de vírus.

  3. Carlito me reporta aos tempos que vivi em Rolândia, cidade do norte do Paraná, onde passei parte de minha infancia e toda a juventude. Cinema era, como disse o autor, um dos poucos passatempos das pequenas cidades e nele aconteciam os namoros e as brincadeirqs para atazanar a vida dos lanterninhas e do dono do cinema. e por tabela os frequentadores. Nosso amigo João Batista, que há tempos deve estar aprontando suas peraltices lá entre os anjos, filho de farmaceutico, era mestre em arquitetar as mais variadas safadesas . Um pacote de balas TOFFE, devidamente preparadas com azul de metileno, era compartilhado com os amigos que mais tarde percebiam que estavam com a lingua e os lábios azulados, e no dia seguinte vertendo urina esverdeada que deixava todos apavorados. Outra feita, rolava uma cabeça de nego que ia estourando por entre as poltronas. Lógico que houve discussão com o dono do cinema, e o Batista prometeu que esvaziaria a primeira sessão do cinema o que impediria a sequente. Passou tempo, ninguem mais lembrava da promessa. Domingo, cinema lotado, venda de ingressos só para a segunda sessão. Apagam-se as luzes, começa a música “folhas Mortas” ao piano de Roger Willians, começa o filme logo apos os trailers dos filmes da semana, um fedor insuportavel invade a sala do cinema, e todos vâo se levantando e saindo do cinema. Todos acreditando que o Batista, havia despejado acido sulfidrico nos ventiladores. Mas ele apenas foi o arquiteto da malandragem, pois ele nem entrou no cinema naquela noite. Até hoje ninguem ficou sabendo quem de fato cumpriu a promessa do divertido Batista.

      • Quero fazer um reparo na minha crônica. Chamei de grande cronista Carlito Maia sem citar outro grande e oportuno Tarcísio Martins, pois só agora vejo sua crônica.
        De uma lapada só, num só parágrafo, ele mostrou com uma clareza, verdade, bem humorada vida que se dava no escurinho do cinema.

        Beleza de crônica, Tarcísio!. Parabéns!!!
        abs.
        Brito

  4. Já que o grande cronista do JBF se aventurou pelo cinema de antigamente, eu também quero contar a minha história de cinéfilo lá em Garanhuns do anos 60 no século passado.

    A cidade tinha 4 cinemas: “Eldorado”, onde frequentava diariamente; e o “Veneza”, no bairro, onde ia de vez em quando; o “Glória” e o “Jardim” no centro, onde assistia grandes filmes nas matinées de domingo. Após o fim do expediente às 18hs, jogava porrinha até as 19hs para ganhar o valor do ingresso. Todo dia a rotina era essa e o guarda do cinema já me conhecia. Íamos numa turma sem saber qual filme estava passando, Assistíamos qualquer um brincávamos no escurinho aporrinhando o vigia que ficava cuidando da algazarra e da bagunça que fazíamos.
    Levava biriba (estalos) para o vigiar pisar e estourar quando passava e caíamos na risada. Um dia o filem era tão tuim que derrubamos as cadeiras, que eram soltas no chão e caiam igual um dominó. . .

    Tinha 10/12 anos e falsificava um documento para assistir os filmes proibidos até os 14 anos, geralmente cow-boys, onde havia muitos tiros e violência vedada às crianças. Ai assisti os “Dez mandamentos”, “Sansão e Dalila”, Aventuras de Tarzan “O cangaceiro” etc.
    .
    Garanhuns era uma cidade de muitos estudantes, onde o cinema era a maior diversão. Em meados de 1962 os estudantes faziam passeata protestando contra o aumento do preço do ingresso. Certa vez participei de uma grande em frente ao Cine Jardim, onde se aglomeravam centenas de estudantes. Não lembro dos resultados destas movimentações, mas lembro que davam notícia no Rádio. .

    Eram tantos os filmes vistos, que me dei ao trabalho de anotá-los num caderno de 50 folhas. Anotava apenas os títulos e o ator/atriz principal. Parei de anotar quando o caderno acabou. Até hoje lamento ter perdido esse caderno.

    Desse modo, o cinema marcou minha memória de criança antes de me tornar adolescente e passar a ver cinema apenas de vez em quando, quando mudei para São Paulo. Por essa época, aos 15 anos, já havia televisão e os filmes eram vistos em casa. Dos mutos dos filmes que via na TV, guardava uma lembrança de já ter ter visto aquelas cenas na telona.

    Foi assim que peguei gosto pelo cinema, quando ainda era a maior diversão; que aprendi a distinguir um filme ruim de um bom; um filme importante de um sem importância alguma, mas às vezes um bom filme até chegar no cinema novo, documentários, grandes produções e por aí vai.

    . . . .

  5. Nos meus 14/15 anos, na esquina da rua onde tomava o ônibus para voltar da escola para casa havia um cinemas daqueles bem decadentes.
    Numa semana o filme era “O Dragão do kung-fu”. Na outra, “O tigre do kung-fu contra o dragão do shao-lin”. Depois “Os sete dragões do shao-lin contra o tigre do kung-fu”.
    Sempre desconfiei que era o mesmo filme, só mudavam o título dos cartazes….

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