E AGORA, JOSÉ?

No carnaval, o José esqueceu a verdade e fez muito bem. Escondeu num lugar bem secreto a chave que nenhuma porta abre e engoliu em seco a palavra doce que nunca pronuncia. Apenas sentou-se na esquina do mundo esperando a utopia. A vida de fantasia, embora fugaz, é bem menos doída, sabia José. Dói menos ver quase nada no bolso se há uma colombina a lhe alegrar o coração; é menos dolorida a barriga vazia se há uma esperança a azular-lhe a alma. Fez muito bem José em não ter ido para Minas em busca de sua lavra de ouro, de seu terno de vidro. Ficou por aqui, ladeiras e pontes a receber seus pés e suor porque a vida tem todo dia e aquela alegria só acontece três ou quatro dias por ano e vale a pena pensar que aquela é a verdade. Embora não seja. Aquilo tudo era festa, era carnaval, era folia. Isto, apenas a vida. A fantasia, para José, sempre foi muito melhor que a realidade. Assim era feliz José, por três ou quatro dias. Evoé!

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3 comentários em “E AGORA, JOSÉ?

  1. Xico Bizerra, sem puxa-saquismo:

    E Agora, José?, pulando na Utopia do Carnaval, escrita com uma delicadeza que só os gênios possuem esse dom de fazê-los, me lembrou os versos geniais de Chico Science e Fred Zero Quatro em Rios, Pontes e Overdrives:

    Rios, pontes e overdrives – impressionantes esculturas de lama
    Mangue, mangue, mangue, mangue, mangue, mangue, mangue
    Rios, pontes e overdrives – impressionantes esculturas de lama
    Mangue, mangue, mangue, mangue, mangue, mangue, mangue
    E a lama come mocambo e no mocambo tem molambo
    E o molambo já voou, caiu lá no calçamento bem no sol do meio-dia
    O carro passou por cima e o molambo ficou lá
    Molambo eu, molambo tu, molambo eu, molambo tu

    Dói menos, realmente, pular, pular, com uma colombina ao lado e males da vida, provocados pelo homem insensível, jogarmos na lama do caos!

    Obrigado, grande poeta mais esse texto lindo!

    Fraternais abraços!

  2. Texto belíssimo e muito verdadeiro, poeta Xico Bizerra. Parabéns!
    Li, certa vez, que um turista americano, deslumbrado com a alegria do carnaval no Rio de Janeiro, perguntou a alguém do povo: – Isso tudo “ser” felicidade?” E a resposta foi imediata: “Não! Isso tudo é desespero!!!”

    Um abraço!

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