AS BRASILEIRAS: Maria Quitéria

Maria Quitéria de Jesus Medeiros nasceu em 27/7/1792, em São José das Itapororocas, atual Feira de Santana, BA. Militar e heroína na luta pelo reconhecimento da independência do Brasil. Filha do fazendeiro português Gonçalo Alves de Almeida e Joana Maria de Jesus, perdeu a mãe aos 10 anos e assumiu o comando da casa. O pai casou novamente e ela não se deu bem com a madrasta, que não admitia seu comportamento independente. Não frequentou escolas, mas dominava a montaria, caçava e manejava armas de fogo.

Estava noiva, prestes a casar, entre 1821 e 1822, quando teve início na Bahia o movimento contra o domínio português. Em janeiro de 1822, a Coroa enviou as tropas portuguesas, sob o comando de Inácio Madeira de Melo. No confronto, os portugueses cometeram barbaridades, como a invasão do Convento da Lapa, onde ocorreu o martírio da freira Joana Angélica. O fato veio acirrar o ânimo da população, levando o Conselho Interino do Governo da Bahia a convocar voluntários. Maria Quitéria quis se alistar, pediu permissão ao pai, mas teve o pedido negado. Com a apoio da irmã e do cunhado, cortou o cabelo, vestiu roupas masculinas e se alistou com o nome Medeiros no “Batalhão dos Voluntários do Príncipe Dom Pedro”. 15 dias depois o pai foi buscá-la, mas o major José Antônio da Silva Castro (avô do poeta Castro Alves) defendeu-a e não permitiu seu desligamento da tropa, devido a sua disciplina militar e facilidade no manejar de armas. Seguiu com o Batalhão, agora com um saiote à escocesa acrescido ao seu uniforme, para vários combates.

Participou das batalhas na da Ilha da Maré, da Pituba, da Barra do Paraguaçu e de Itapuã. Dom Pedro enviou à Salvador o general Pierre Labatut, para organizar o combate, no qual ela teve atuação destacada. Em 2/7/1823, quando terminou a “Guerra da Independência”, com a entrada do Exército Brasileiro em Salvador, a cabocla Maria Quitéria, já promovida a cadete, foi saudada e homenageada pela população. Lembremos que esta guerra durou de 1821 a 1823 e que o dia 2 de julho de 1823 ainda hoje é a data magna da Bahia, feriado em comemoração a consolidação da independência do Brasil.

Em 20 de agosto do mesmo ano, foi condecorada, no Rio de Janeiro, com a “Ordem Imperial do Cruzeiro do Sul”, numa audiência especial quando recebeu a medalha das mãos do próprio Imperador Dom Pedro I, com o discurso: “Querendo conceder a D. Maria Quitéria de Jesus o distintivo que assinala os serviços militares que com denodo raro, entre as mais do seu sexo, prestara à causa da Independência deste Império, na porfiosa restauração da Capital da Bahia, hei de permitir-lhe o uso da insígnia de Cavaleiro da Ordem Imperial do Cruzeiro”. Além da comenda, foi promovida a Alferes (2ª tenente), posto em que ficou reformada. Voltou à Salvador com uma carta do imperador dirigida à seu pai, pedindo que ela fosse perdoada pela fuga de casa para lutar pelo Brasil.

A escritora e pintora inglesa Maria Graham, que viveu três anos no Brasil, estava presente nesta cerimônia e ficou tão impressionada com sua figura que desenhou seu retrato, o único que temos de Maria Quitéria. Além disso, escreveu no seu livro Journal of a Voyage (Londres, 1824), que “Maria de Jesus é iletrada, mas viva. Tem inteligência clara e percepção aguda. Penso que, se a educassem, ela se tornaria uma personalidade notável. Nada se observa de masculino nos seus modos, antes os possui gentis e amáveis”. Foi a partir daí que a nossa heroína passou a ser conhecida e valorizada entre nós. Por incrível que pareça, ainda hoje os brasileiros mantém o costume de só reconhecerem suas personalidades quando são divulgadas no exterior.

Pouco depois casou com um antigo namorado, o lavrador Gabriel Pereira de Brito, com quem teve uma filha. Em 1835 ficou viúva e mudou-se para Feira de Santana para tentar receber parte da herança do pai, falecido no ano anterior. Desistiu do inventário, devido a morosidade da justiça e foi morar com a filha em Salvador. Faleceu em 21/8/1853, aos 61 anos, quase cega e total anonimato. Encontra-se sepultada na Igreja Matriz do Santíssimo Sacramento, no bairro de Nazaré em Salvador. Foi a primeira mulher brasileira a assentar praça numa unidade militar do Exército. 120 anos depois, em 1943, durante a 2ª Guerra Mundial, as mulheres passaram a ter existência oficial naquela instituição.

Em 1953, Os Correios estamparam um selo comemorativo do centenário de seu falecimento. Em 1996 foi-lhe atribuído o título de patronesse do Quadro Complementar de Oficiais do Exército Brasileiro. Sua imagem está exposta em todos os quartéis do Brasil. As câmaras municipais de Salvador e Feira de Santana instituíram a Comenda Maria Quitéria. Em sua cidade foi-lhe erguido um monumento no cruzamento da Av. Maria Quitéria com a Av. Getúlio Vargas, além de nomear o Paço Municipal. Seu retrato mais conhecido é uma pintura de corpo inteiro, pintado por Domenico Failutti, que atualmente integra o acervo do Museu Paulista, em São Paulo. A pintura foi baseada no retrato publicado no livro de Maria Graham.

Sua vida foi descrita em diversos livros de história do Brasil e em algumas biografias: Maria Quitéria: A Joana d`Darc brasileira (2014), de Mônica Buonfiglio; Maria Quitéria (2008), de Miriam Mambrini e A incrível Maria Quitéria (1977), de João Francisco de Lima. Sua vida e feitos vêm sendo comparados ao da mártir francesa Joana d’Arc, que também teve uma destacada vida militar.

13 pensou em “AS BRASILEIRAS: Maria Quitéria

    • Caro Raimundo Floriano

      Você tem toda a permissão para divulgar este Memorial e todos os outros já publicados no JBF. Precisamos divulgar mais estes brasileiros e brasileiras meio esquecidos na memória nacional.

      Muito obrigado pela ajuda neste trabalho, pela ampliação de sia divulgação em seu excelente almanaque.

    • Mestre Plíno

      E quantos daqueles e daquelas fizeram o nosso país aquilo que é? É isso que o nosso Memorial quer responder. A cada domingo vamos acrescentar mais um nome. São muitos na lista de espera, e damos preferência aos nomes pouco divulgados, os mais esquecidos, e estamos abertos às sugestões dos leitores.

    • Pois é Valéria,
      ela não precisou do “movimento”, ela fez o movimento para o centro da história e antecipou em 100 anos a entrada da mulher no Exército. Vejo no seu breve comentário um elegante peteleco nas atuais feministas que não se lembram dela.

  1. Papa Berto, primeiro e único e o “escrevinhador” destas linhas…. depois de ler o escrito e ter a alma lavada, fico pensando o que um texto desses não faria no cérebro de uma feminazi – se é que elas têm algum – ao ler que, uma mulher, não precisou deixar essa condição, muito menos deixar o suvaco cabeluco e fazer guerra de aranhas para ter seu nome escrito para sempre na História do Brasil.

    Grato aos dois pelo arremate do domingo.

    Da Gloriosa Campo Grande/MS

    • Caro Roque

      A coluna é que agradece ao contar com leitores categorizados como você. Acompanhe nossas próximas atrações e surpreenda-se com nomes que estão na lista.

  2. Caríssimo Brito. Graças a sua pena, fiquei conhecendo mais uma heroína da nossa história. Quanta bravura e brasilidade no coração dessa mulher.
    Como muito acertadamente disseram , os comentarista acima, Valéria e Roque Nunes. a mulher não precisa contrariar a sua natureza e se masculinizar para mostrar a sua força e grandeza.
    Fiz um repasse das suas “heroínas ” retratadas na sua coluna ultimamente
    e notei como é incrível o nível de grandeza das personalidades femininas retratadas, ( sem demérito nenhum para os homens, claro ), pois na mídia você jamais vê citações de personalidades históricas ou talentos como de Cecilia Meireles, Clarice Linspector, Eufrásia Leite, e tantas outras grandes personalidades femininas homenageadas pela sua coluna.

    Cuidado ! Os Rapazes da Banda, podem não gostar e exigir também espaço ou COTA IGUALITÁRIA,
    ou poderão eventualmente processa-lo por homofobia. Neste caso, o difícil
    vai ser encontrar heróis gays atuais, com grande personalidade digna de louvor
    que mereçam ser retratados. Não digo não existam, mas são pessoas cultas
    inteligentes que não se expõem com a vulgaridade de um Jean Wyllis, ou de
    “artistas ” que infestam a o nosso cenário artístico .
    Te cuida Brito, pode vir bomba por ahí .
    Abraços.

  3. d. matt

    Grato pelo conselho; é a voz da experiência falando. Temos mais alguns nomes de mulheres que vão dar inveja aos homens. Para compensar, atendendo ao seu conselho, vou dar uma caprichada nos nomes dos machos para balizar melhor o memorial

  4. Casou-se com Gabriel Pereira de BRITO? Será que nós somos descendentes de Maria Quitéria?
    Uma salva de palmas para a primeira feminista do Brasil, lutando por igualdade de gênero antes mesmo dessa pauta entrar em voga nos anos 50.

    ps.: certamente ela não raspava o suvaco, não por feminismo, mas porque isso não devia ser comum para as mulheres do século 19.

  5. Jonas
    Confirmado, Maria Quitéria é nossa parente sim. Pode se orgulhar de termos uma grande heroína na famíilia. Temos outras e outros, mas essa era do balacobaco

  6. Caro Colunista Fubânico e Memorialista Sério José Domingos Brito:

    Tenha em mim um dos seus grandes admiradores.

    Todo ser que se preza a pesquisas sérias com os personagens da História, famosos ou não, merecem nossos aplausos e considerações, e o Nobre Colunista é um desses.

    Esse retrato da heroína militar Maria Quitéria, que lutou na luta pelo reconhecimento da Independência do Brasil, feito pelo Nobre Memorialista, só tem a acrescentar mais um capítulo ao reconhecimento das heroínas brasileiras negligenciadas pela historiografia oficial!

    Parabéns e fraternais saudações!

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