A CASA DOS SONHOS DO MEU AMIGO

Que bela e poética a casa de um amigo meu, de portas amarelas e jardim florido, onde bate o sol mas não se deixa faltar chuva. A casa que ele sonhou. Tão diferente da casa que certo dia descobri ser a casa que não sonhei, de apenas uma porta para entrar e uma janela permanentemente fechada, por onde não passava uma fresta sequer de luz. Nem passarinhos. Serenatas, não as ouvia. Não existiam músicos nem instrumentos. Apenas poeira sobre um chão silencioso. No jardim, covas não fecundadas, semipreenchidas por areias cujos grãos já se tornavam pretos e nenhum jardineiro ou gota d’água para deles cuidar. Paredes nuas, sem quadros a adornar-lhes, fazendo companhia à janela de que falei, sempre fechada. Respirava-se solidão na casa que não sonhei. Nenhum amor ali podia ter vida. Não havia ar. Não havia amor. Nada fazia questão de existir no tempo daquela casa. Nem relógio havia para marcar a tristeza das horas. Só uma cadeira de balanço que não mais balançava por falta do impulso de alguém. Pelo menos não se ouvia o seu ranger ao balançar. Menos mal que nunca sonhei com esta casa. Melhor sonhar com a casa dos sonhos do meu amigo, próxima dos bons botecos e das boas prosas com amigos, onde não há polícia nem Lei Seca, por desnecessário ser. Uma casa sem cercas, muros ou vigias, com todas as gaiolas de portas abertas, em que se possa esperar o nada-fazer o tempo que necessário for conversando com as borboletas e acariciando as pedras que servem de pouso para passarinhos coloridos e cantantes.

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2 pensou em “A CASA DOS SONHOS DO MEU AMIGO

  1. Caríssimo poeta Xico Bizerra:

    Também sonho com uma casinha sem grades, janelas, cercas de arame farpado, caco de vidros ou grampos, e no jardim, acerolas, jacas, mangas, pitangas, cocos, mamões, jabuticabas, dentre outras fritas cíclicas…

    Mas esse sonho não sonho na cidade grande, que se tornou uma selva de pedra, onde os malandros nos tiram a liberdade e nos põem medo.

    Por isso, sempre que posso, busco a felicidade no sítio onde para cada canto que olho vejo uma sabiá, um canário, uma pintassilga, um galo de campina, um papa capim, uma rolinha… cantando livremente sem a ameaça dos pedradores de espingardas ou padoques…

    Belíssima crônica, caro poeta do coração. A leveza de suas poesias me fazem bem à alma!

  2. Obrigado, seu Cícero. Que tenhamos todos nós a casa que mereçamos ter em decorrência de nossos atos e atitudes. Grande abraço

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