ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

Para Nonato

Zé Benedito era famoso em Codó. Bem apessoado, galanteador, cheio de mesuras e dado a fazer fosquinha para todo rabo de saia que visse pela frente. Enfim, era o abatedor-mor da cidade. Sempre dizia com sua voz galã das ribaltas que não importava o tipo de mulher, desde as novatas de ofício, passando pelas donzelas militantes, até mesmo aquelas com cara de jenipapo de gaveta que macaco brincou com ele.

– Seu compadre…. quem perdoa é Deus. Comigo, caiu na mira da lazarina, leva chumbo!

Emboramente fosse pândego nas artes do pega-embaixo-e-olha-praver-se-não-vem-gente, era bastante querido em Codó. Encantava pelo seu educativismo, pela fala macia igual dobradiça azeitada, prestativo, devocioneiro e respeitador de família. Contradição, mas são coisas dos ermos, de cidade em que até o bugre mais desecudado tem receio de entrar.

Pois, se mudou para a cidade a Izildinha. Galega charmosa, com seus avantajados, tanto na parte superior, quanto nas subalternas. O olho mofino de Zé Benedito foi encalhar justamente nessas partes subalternas, a ponto dele em comício de beiço de boteco, garantir aos amigos, em discurso que mais parecia despacho de desembargador, que aquela ali, já estava na alça de sua mira.

Para dar início aos seus ataques foi se apresentar à moça como manda as regras do galanteio. Nesse dia resolveu dar um arremate na sua pessoa. Correu na botica do Major Juju Bezerra, arrematou toda uma sociedade de sabonetes, um comício de pasta de dentes e quase toda a água de cheiro. Em casa, fez a barba, esfregou os dentes, tomou banho demorado e encharcou o sovaco com água de cheiro e foi cortejar a menina Izildinha.

Essa penitência de todas as sextas fazer o mesmo martírio levou seis meses, e a menina, apesar de ser suspeitosa, de receber visitas mofinas altas horas da noite, mais instigava Zé Benedito a solicitar em modos corteses, os fofinhos e escondidos da mocinha. A turma em que ele andava vivia mangando do coitado do Zé Benedito nessa labuta de ser obra de Santa Ingrácia, de nunca terminar.

Lá chega o dia e a moça cede aos seus encantos e galanteios. Zé Benedito saiu mais alegre que negro forro de cativeiro. Pra comemorar o acontecido que se assucederia na noite seguinte, chamou os amigos pra se gambá dos acontecimentos. E, nessa gambação mandou o bolicheiro descer cachaça, cerveja, licor, vermute, carne assada, frango de cabidela, torresmo, farofa, queijo coalho, azeitona, ovo de codorna em conserva, em comemorativo com os comparsas.

Dia aprazado, Zé Benedito mais elegante que um lorde, todo embonecrado da sola da botina até o chapéu, lenço avivado na água de cheiro, cabelo avaselinado, foi ao encontro da moça. Nem bem começou a armar o acampamento, sentiu uma fisgada na entrejunta do baço com o pâncreas, um bululu nas tripas e um arrepio que começou na carcunda e desceu até o dedo mindinho.

Todo sem graça, pediu licença e foi se despachar no reservado da moça. Bucho aliviado, foi ensaiar nova investida e novo movimento das entranhas. A mocinha, toda esperançosa, com cara de alma penitente pedindo uma ave maria, deitada estava, deitada ficou. Lá pela quarta chamada ao reservado, Zé Benedito pediu bandeira branca, desculpou-se, desarmou o acampamento e foi embora.

Três dias depois estava Izildinha na praça da cidade mais duas amigas suspeitosas também quando passa o Zé Benedito e dá um olá para as meninas e uma especial atenção à Izildinha.

– Nossa!, que pedaço de homem, obtemperou uma das amigas, reparando o olhar de Zé Benedito para a Izildinha.

– Ahã! Exclamou a moça. Me cantou durante seis meses só pra ir cagar lá em casa.

3 pensou em “ZÉ BENEDITO

  1. Como diria Sua Santíssima Santa Santidade o Santissimo Santo Papa Berto I e Único, fiquei todo ancho com essa homenagem do Dr. Roque Nunes, principalmente considerando que meu aproveitamento nessa seara galanteante é deveras merecedor de comiseração.
    Como o croqui original foi perdido foram montando a lataria aqui com o que tinha e deu nisso.
    Desconfio, inclusive, que essa música do Falcão, foi feita em minha homenagem: https://youtu.be/jE8QEADRB9w?si=M6ZQLTV0J2SmUyI9
    Parabéns e duplamente obrigado, Dr. Roque!

Deixe um comentário para Xico Bizerra Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *