SAUDADE DE UM TURISTA DA TERRA
“Seu moço, eu vim do Recife
Cidade pequena porem decente
Onde o rio Capibaribe, se junta com o Beberibe
Pra formar o Oceano Atlântico”
(Gilvan Chaves, monólogo Sou do Recife, Grav. Cid – 1977)
Pois é meus e minhas, provocado e insultado por um amigo, também pernambucano ausente e saudoso como este escriba, que vive exilado no Piauí há mais de 40 anos, chamado Sebastião Ramalho, que sem nenhuma viadagem pelo meio, eu quero um bem danado, resolvi falar um pouco da saudade das coisas da minha terra. Eu hoje me sinto um turista na minha cidade, estou fora há mais de 40 anos.
Nascido em Tejipió, ou seria Tijipió?, na Rua Aprigio Guimarães, que eu nunca soube quem foi, e criado, como diria Arnaud Rodrigues, com cuscuz e tabefe. De cara me vem a memória aquela coisa magnífica composta por Antônio Maria…. “Ai ai saudade/ saudade tão grande/ saudade que eu sinto do clube das pás dos vassouras/ passistas traçando tesouras/nas ruas repletas de lá”….. Eita pau…
Lá pelo meio da música fala em Haroldo Fatia, que é nada mais nada menos que o famoso Haroldo Praça, amigo do meu avô, já falecido, que foi por muitos anos gerente da Viana leal e ambos torcedores do América, aliás os únicos. Tive o prazer de conhecê-lo no prédio onde minha falecida mãe morou, ele era pai da vizinha, e sempre ia visita-la. Haroldo foi uma reserva moral do jornalismo pernambucano, e ainda hoje faz muita falta
É meus amigos, saudade é um bicho danado, que entra, se aboleta na sala do coração, e como visita chata não quer mais ir embora, nem adianta botar vassoura atrás da porta. Seria eu um pernambucano verdadeiro? (existe por acaso algum falso?) na minha modesta opinião, Pernambucano verdadeiro, é quem viveu como eu (apesar do pouco tempo) a cidade intensamente, e eu tenho uma saudade lascada de muita coisa.
Saudade dos pregões na pracinha do Diário de Chá Preto e Pente, famoso camelô, de Bolinha de Cambará… “Compre bolinha de Cambará/1, pacote é 1 tostão/cura gripe e constipação“
Saudade da pipoca doce e do amendoim cozido, comprado dentro do trem na estação Central.
Saudade da Rua da Guia, Vigário Tenório, Chantecler, Moulin Rouge, e das carreiras que levávamos dos agentes do juizado de menores, certa vez , correndo em fuga me refugiei no quartel de 5 pontas, no Cais de Santa Rita, onde um comandante da guarda, amigo do meu pai que também era do Exército, me safou das garras dos famigerados agentes.
Saudade do Rápid Toast do Gemba, do combinado da sorveteria Pérola, do cartola do Varieté
Saudade da TV Jornal do Comercio, Você Faz o Show (Fernando Castelão) Noite de Black Tie (Luis Geraldo) Turbilhão, Zé do Gato, Ziul Matos, Ribas Neto, Alberto Lopes, até hoje a programação começa e termina com o Guarani de Carlos Gomes.
Saudade da molecagem de estudante, quando jogávamos pedra no portão da garagem de Múcio Catão, só para vê-lo nos chamar de “Rapazes Indelicados”. Dessa mesma turma, lembro de Lolita, cujo chavão era .. “Quem não conhece Lolita, não conhece o Recife”.
Saudade do cinema de arte, sábados de manhã no São Luís, onde espantávamos o condor da Condor Filmes, jogávamos caroço de pitomba no capacete do soldado tão logo a luz apagava só para ouvir o barulhinho que fazia. Saudade também do Trianon, Art Palacio, Moderno, Pathé, Capricho, Central, coisas que o progresso acabou.
Saudade do refresco de pitanga e de Mangaba tomado em copo de papel, cuscuz molhado com leite de coco, chope no Savoy, queijo assado com macaxeira, inhame com carne de charque, cozidão, sarapatel, cachaça com caldinho de feijoada do Jaime, caldo de mocotó tomado no mercado de S. José.
Saudade das palestras e das aulas show do extraordinário Ariano Suassuna, que só nasce um igual a cada 5 milhões de anos, saudade dos recitais da Orquestra Armorial criada por ele, onde se destacou o genialíssimo, músico, cantor, palhaço, ator etc. Antônio Nóbrega, cujos shows deveria ter uma lei obrigando todo brasileiro a assistir pelo menos 2 vezes.
Saudade das propagandas do biscoito Pilar… “Todo gordo quer emagrecer/todo magro quer engordar/para o gordo não tem o que fazer/para o magro biscoito Pilar.” Do Guaraná Fratelli Vita, dos lençóis Capibaribe, das lojas A Palmeira (pague tudo na valsa) da Viana Leal, onde ia para passear na escada rolante (a primeira do nordeste)
Saudade do corso na Av. Conde da Boa Vista, onde jogávamos água, maisena, ovo e outras porcarias nos incautos transeuntes durante o carnaval. Os bailes do Bal Masqûe no Internacional, ou no Clube Português, onde conseguia entrar invariavelmente sem pagar. Não se pode falar em carnaval sem lembrar o Baile Dos Casados no Clube Atlético em Afogados.
Saudade da gravadora Rosemblit, dos frevos de Capiba e Nelson Ferreira, cantados por Claudionor Germano, e Expedito Baracho..
Saudade dos passeios a 2 Irmãos, Águas Finas, Praia do Janga, visitar navios no porto dia de Domingo, Tomar gasosa de maçã na Galeria Brasil, Sorvete Xaxa, Cavaco, Quebra Queixo de coco e castanha, também conhecido como Japonês.
Guenta Coração, acho bom parar por aqui, já estou adentrando os 6.8, e não dá para agüentar muita emoção, teve um FDP aí que disse que envelhecer é uma arte, arte um cacete, envelhecer é uma merda, mas pelo menos eu tento faze-lo com muita saudade no coração, e já dizia o grande Aldemar Paiva (saudade do programa Pernambuco Você é meu na Rádio Clube)
Quem tem Saudade
Não está Sozinho
Tem o carinho da recordação
Por isto quando estou
Quase Isolado
Estou bem acompanhado
Com você no coração.
Pelo menos vale como consolo.
É isso aí.
Bom dia.
Seu artigo, é, dessas coisas que a gente lê, se encanta, lava a alma, mata a saudade e fica com mais saudade, querendo que ela não saia mais da gente.
Que texto primoroso! Inesquecíveis lembranças!
Como estou longe da nossa terra amada há mais de 50 anos (retornei algumas vêzes para respirar o oxigênio revitalizante da natureza do nosso lugar natal).
Fui lembrando de várias passagens, lugares, acontecimentos, personagens, eventos, comidas… Pois, na minha época, vivi e convivi com esse ambiente tipicamente nordestino.
Único, inigualável e incomparável.
Agradeço-lhe, por fazer esse rebuliço arretado na nossa memória.
De tantas e tantas frases, palavras, exemplos, histórias, etc. Que definem nosso estado e nossa capital. Duas, são marcas registradas. A primeira é essa citada no início da sua coluna: “Onde o Rio Capibaribe, se junta com o Beberibe. Pra formar o Oceano Atlântico”. A outra é aquela que diz: “Pernambuco, falando para o Brasil e para o mundo”. Esse é o verdadeiro orgulho pernambucano.
Nossos sinceros cumprimentos, tenha um bom dia e um feriado proveitoso. Sr. Wellington Malta.
Muito obrigado meu irmão,somos pernambucanos ausentes e saudosos.
Grande abraço