Tenho-te, do meu sangue alongada nos veios,
à tua sensação me alheio a todo o ambiente;
os meus versos estão completamente cheios
do teu veneno forte, invencível e fluente.
Por te trazer em mim, adquiri-os, tomei-os,
o teu modo sutil, o teu gesto indolente.
Por te trazer em mim moldei-me aos teus coleios,
minha íntima, nervosa e rúbida serpente.
Teu veneno letal torna-me os olhos baços,
e a alma pura que trago e que te repudia,
inutilmente anseia esquivar-se aos teus laços.
Teu veneno letal torna-me o corpo langue,
numa circulação longa, lenta, macia,
a subir e a descer, no curso do meu sangue.

Gilka da Costa de Melo Machado, Rio de Janeiro-RJ (1893-1980)
Seria Gilka, pelas característica deste soneto, uma Florbela (35 anos de vida) que viveu até os 87 anos?
Não entendo assim.
Florbela também era dada a grandes paixões, às quais se entregava loucamente. Porém ela sabia envolver seus amantes em uma teia que era envolvente dos dois lados.
A Gilka, pelo visto, se apaixonou pelo típico malandro carioca (“…o teu modo sutil, o teu gesto indolente”) e se entregou totalmente sem reservas, sem contrapartes.
“Teu veneno letal torna-me os olhos baços,
e a alma pura que trago e que te repudia,
inutilmente anseia esquivar-se aos teus laços.”
Gilka não chega aos pés da Florbela.