Nasci e cresci na roça – me dá prazer relembrar a vida e as alegrias vividas ali. Enquanto tiver lucidez dada por Deus, vou lembrar e me alegrar com tudo que ali vivi.
Quando chegar a hora, não tenho dúvida porque acredito e sou obediente a Deus, voltarei ao barro – como todos.
Por isso, hoje, vou falar do sertão e do barro que aprendemos a usar.
Pote de barro
Num canto daquela casa simples, com piso de barro batido e endurecido, fora erguido um pilar. Com um metro de altura, mais ou menos, para as crianças não malinarem nem os sapos ascenderem durante e anoite.
O “filtro” colocado na boca do pote, era um pedaço de molambo velho, lavado, fervido, que protegia a água para evitar a entrada de mosquitos e troíras.
A água colocada naquele pote era carregada desde o açude (distante de casa por uns cinco quilômetros) em barris de madeira e nuns cambitos carregados pelo jumento Abricó e pela jumenta Belinha – essa, de vez em quando, ajudava na “diversão” dos meninos.
Vovô, e eu nunca soube o motivo, não gostava de colocar no pote a água da chuva (quando chovia) aparada nas calhas feitas nas calhas da árvore sabiá. Sempre preferiu o sacrifício de pegar água no Açude Novo.
Alguidar de barro
O alguidar, também de barro, tinha mil e umas serventias. A principal era torrar os grãos de café, com mel de rapadura e mangirioba – semente que Vovó adicionava para aumentar “a quarta de grãos de café” comprada na bodega do Seu Antônio. Nunca se teve informação que a mangirioba tivesse feito algum tipo de mal a quem o usava.
Outra serventia, era temperar a galinha caipira para o almoço de domingo – dias santos ou feriados.
Penico de barro
O penico, que muitos chamavam também de “urinó” era a salvação dos aperreios noturnos. Na casa da Vovó tinha uso diário de pelo menos uns cinco, quantidade que aumentava durante as férias escolares dos netos.
O chão de barro batido e socado, varrido mais de uma vez durante o dia, recebia os “urinós” debaixo das redes dos meninos que tinham o hábito de “mijar na rede”; outro era colocado ao lado da rede da Vovó, que tinha o hábito de mascar fumo de rolo antes de dormir (que ela falava “drumir”, sem qualquer cerimônia). Vovô sempre levantava e “mijava” fora de casa. Se deliciava com o barulho do mijo tocando no chão.
Usados ou não durante a noite, nas manhãs seguintes a primeira preocupação de Vovó era lavar os penicos com creolina e água fervida.
O barro tem muita utilidade, sim. Mas, a principal, é nos receber de bom grado quando chegar a hora determinada por Deus.


