FERNANDO ANTÔNIO GONÇALVES - SEM OXENTES NEM MAIS OU MENOS

Um homem de meia idade, morador da periferia de uma região metropolitana, vendia cachorro-quente a preços bastante acessíveis. Era meio surdo e detestava rádio, não lendo jornais porque sofria da vista, uma miopia braba que o atormentava desde a juventude. Mas tinha aprendido com seus avós a fazer um tipo de cachorro-quente que era muito consumido, sem segundo lugar pelas redondezas, tido e havido como o melhor de todos os bairros que constituíam a área sul da capital.

Diante do sucesso de suas vendas, tinha afixado uma tabuleta à beira da avenida, onde apregoava a boa qualidade do seu produto. E ainda bradava, nos horários de maior trânsito e com uma frequência que até incomodava, uma frase de efeito:

– Cachorro-quente dezoito quilates, o melhor do Nordeste!

Aumentada a freguesia, e, consequentemente, a compra de carnes e pãezinhos, resolveu adquirir um fogão maior, a fim de atender melhor os clientes, novos e veteranos. Conversando com um vizinho, desses que veem o mundo permanentemente nas trevas, tudo na mais absoluta escuridão, dele recebeu uma advertência:

– Amigo, não tens ouvido rádio? Dizem que o dinheiro está rareando, que todo mundo ficará em má situação, acontecendo uma grande crise, os negócios indo por água abaixo.

Aí, o cachorroquenteiro, que detestava rádio e ainda ouvia pouco, míope da gota serena, resolveu não mais adquirir um fogão maior. Apressou-se em diminuir as compras de carne e pãezinhos e ainda pôs abaixo o cartaz pintado a óleo que era seu chamariz principal. E não mais gritou, apregoando as boas qualidades do seu produto.

Com as vendas em declínio, o nada-fazer foi se instalando no seu pedaço existencial, o vizinho se tornando um grande identificador de crises econômicas. Os dois passaram a prognosticar uma época de muitas incertezas, um futuro depressivo para os diferenciados ramos de negócio, posto que o fim dos tempos se aproximava. Com quase toda certeza.

A motivação voltou quando o cachorroquenteiro ouviu de um neto o que estava escrito num canto de um jornalzinho de uma localidade próxima:

“Quando triunfar, vai fazer falsos amigos e verdadeiros inimigos, mas continue em frente. O que leva dias para construir pode ser destruído num instante, mas construa assim mesmo. Dê ao mundo o que tiver de melhor, pois você colherá o que semeou.”

Todo negativista é recheado de mil e um complexos, é autoritário, inculto e detesta ver o sucesso dos outros, sempre se acercando de incompetente babaovistas que não possuem pensar crítico, sempre se comportando como boi de manada, sempre segurando o “aquilo” dos chefes imediatos.

Todo negativista pouco se lixa para uma MDI – Metodologia de Desabestalhamento Integral, preferindo conviver com alucinados aplaudidores frenéticos, igualmente idiotizados, que nunca leram a declaração-prognóstica do ex-ministro da Educação Darcy Ribeiro, fundador da Universidade de Brasília:

“Três direitos fundamentais precisam ser devolvidos ao Brasil excluído:
O direito de saciar a fome,
O direito de ter uma casa decente, e o
Direito à escola boa para todas as crianças.”

E o cachorroquenteiro ainda passou a repetir, alto e bom som, os versos de um poeta nordestino para lá de muito arretado, de nome Bráulio Bessa, que recomenda:

“Acredite no improvável,
acredite no impossível
enxergue o que ninguém vê,
perceba o imperceptível
e enfrente o que, para muitos,
parece ser invencível.”

Saibamos sempre efetivar a diferença entre inteligências decisórias que dignificam e merdalidades posturais que apenas infestam derredores, povos e nações.

3 pensou em “VIVER NO NEGATIVO

    • Quando eu era adolescente, Maria José, eu vivia bimbando todos os dias, batendo sempre uma coxa na outra, pois era bem gordinho. ,

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