Guilherme Fiuza

Enquanto presos políticos seguem sem informações na Venezuela, Roger Waters defende Maduro em NY. A repressão continua.
Enquanto as famílias de cerca de 500 presos políticos tentam obter informações sobre eles na Venezuela, o músico inglês Roger Waters foi a Nova York pedir a libertação do ditador Nicolás Maduro. O ex-líder do Pink Floyd diz que está defendendo a democracia.
Waters poderia adaptar sua famosa obra “The Wall” para a tragédia venezuelana. No caso, o refrão “another brick in the wall” significaria mais um tijolo na parede da prisão que o regime chavista impôs a seus opositores. Dessa vez, o libertador está a favor do muro.
Por ação da administração Donald Trump, o governo da Venezuela libertou mais 46 presos políticos na semana passada. Já são 250 as vítimas do chavismo postas em liberdade após a captura de Maduro — o protegido de Roger. Enquanto dezenas de pessoas esperavam a saída dos seus familiares da prisão de Yare, próximo a Caracas, na última quinta-feira, Roger Waters berrava diante da fortaleza no Brooklyn o nome de Nicolás Maduro — dizendo aos passantes ter a certeza de que estava sendo ouvido por ele.
Um dos presos venezuelanos disse à agência AFP, ao sair da cadeia, que foi vítima de uma armação do governo Maduro, de sabotagem e corrupção. “Trabalho na indústria do petróleo há 33 anos. Nunca roubamos nada”, declarou o ex-preso, cuja identidade a agência preservou.
Segundo entidades locais de direitos humanos, como o Foro Penal, o trabalho para libertação dos presos políticos é permanentemente dificultado pelo governo, apesar da lei de anistia promulgada após a pressão estabelecida pelos EUA. Cerca de 8 mil pessoas já recuperaram sua cidadania plena desde então, mas o governo venezuelano continua não divulgando listas oficiais de detidos.
O presidente brasileiro, candidato à reeleição este ano, parece não ter nada a dizer sobre os massacrados pelo regime do seu aliado — a quem inclusive chegara a aconselhar a busca de uma “narrativa” melhor. A narrativa de Lula parece se resumir a uma tentativa de polarizar com Trump — justamente o principal agente da libertação das vítimas de Maduro. E por algum motivo misterioso, o líder petista não tem sido chamado pela imprensa a dizer o que acha das masmorras do chavismo expostas pela ação de Trump.
Vale lembrar que, de Waters a Lula, a retórica da defesa da democracia contra o inimigo imaginário tem sido a base para ações autoritárias de “boa aparência” — como as proposições de regulação digital sempre com algum pretexto humanitário. O próprio presidente brasileiro voltou ao tema “regulatório” na semana passada — dessa vez associando esse tipo de controle à proteção da soberania nacional.
Pretexto para perseguição sempre vai existir. O que pode mudar é a disposição de parte da sociedade de legitimar o teatro.