A PALAVRA DO EDITOR

Encantou-se anteontem em Brasília, aos 89 anos, o meu querido amigo Vladimir Carvalho, grande cineasta-documentarista brasileiro.

O governo do Distrito Federal decretou luto oficial de três dias pela morte do ilustre cidadão.

Nos anos 80, quando ainda morava em Brasília, homenageei Vladimir com uma placa, que está aqui na parede do meu escritório, em meio a várias outras com nomes de amigos queridos.

Vladimir está no Wikipédia. Cliquem aqui e vejam quão interessante é o seu trabalho.

Ele é paraibano de Itabaiana, cidade onde mora o Poeta Jessier Quirino, um grande amigo nosso.

E também cidade do mestre Sivuca, um ícone da música nordestina.

A coluna de Jessier, publicada hoje aqui no JBF, é dedicada a Vladimir.

Vladimir Caravalho com este Editor, anos 80, em Brasília

Guardo aqui nos meus arquivos uma carta que Vladimir mandou para a cineasta Tizuka Yamazaki, que foi sua aluna no curso de Cinema na Universidade de Brasília.

Uma carta – da qual ele me deu uma cópia -, enviando pra ela um exemplar do meu livro “O Romance da Besta Fubana”, fazendo uma apreciação que me deixou imensamente feliz.

A carta é esta que está transcrita a seguir:

Brasília, 9 de junho de 1988

Querida amiga Tizuka,

Quem é vivo sempre aparece.

Há muito não nos vemos, mas sigo-lhe os movimentos e atuações com grande interesse do seu torcedor fanático, como sabe.

Agora lhe escrevo para dar uma penada por um grande amigo e quase conterrâneo meu, Luiz Berto. Trata-se do autor de um romance interessantíssimo chamado justamente “Romance da Besta Fubana”. Escrito nordestinamente num estilo arisco e debochado, é, para mim, uma obra prima do picaresco, a além de tudo – e principalmente, muitíssimo cinematográfico. À época do seu lançamento obteve excepcional acolhida da crítica, conquistando prêmios importantes.

Quando li a primeira vez pensei imediatamente que poderia resultar em excelente rapsódia cinematográfica, mas também pensei num especial de TV, como fizeram com algumas coisas de Ariano Suassuna. Porém, você sabe, a ficção não é a minha praia. Por isso, tenho enorme satisfação de ajudar a encaminhar o livro do Berto à sua apreciação. Não se arrependerá de sua leitura.

Como no samba, “faça por ele como se fosse por mim”.

Com um abraço do seu admirador de sempre

Vladimir Carvalho

Tempos depois Vladimir, me ligou dizendo que Tizuka tinha lido o livro, estava empolgada e tinha planos de botar em prática um projeto de fazer um filme com o enredo.

O tempo passou e nunca mais perguntei pra ele em que pé estavam as coisas. Tenho um pudor intransponível pra vender o meu peixe e pra tratar dos meus interesses no que diz respeito à minha obra.

Desconfio que o desmantelo pra botar a Besta na tela seja infinitamente maior que o desmantelo contido no livro. Um trabalho da pesada.

Viajasse antes do combinado, Vladimir.

Descanse em paz, seu cabra arretado!

E daí de cima cuide bem da gente que estamos aqui embaixo.

Um dia iremos te encontrar.

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