CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

Ramalho Leite: escritor, político, advogado e jornalista

Costumo esquadrinhar jornais antigos e livros de história contemporânea do Brasil não apenas para conhecer fatos pouco comentados; mas, sobretudo, pelo espírito de descobridor de minúcias que procuro retransmitir aos meus pares.

Às vezes, procuro adequar o estilo desta coluna e preencher meus escritos sob o tom anedótico que costumo dar a estas crônicas, ditas como cheia de graça. Mas, nem sempre…

Severino Ramalho Leite, escritor, político, advogado e jornalista paraibano, escreveu vários livros escavacando fatos históricos relevantes quase esquecidos e plenamente desconhecidos pelas gerações atuais.

Quem, por exemplo, já ouviu falar em “Vacina de Cuspe”, medicação inventada pelo farmacêutico José Fábio da Costa Lira, nascido em Umbuzeiro, na Paraíba, onde foi Prefeito?

Diz-nos Ramalho Leite: “O jornal A Noite, do Rio de Janeiro, em edição de 11 de agosto do ano de 1936, na primeira página, revela a existência, no interior da Parahyba, do autor de um processo a que se atribuem curas assombrosas”.

Doentes com tuberculose, Câncer, lepra e diabetes eram objeto de tentativas de curas pelo método que denominou “Lymphotherapia” e que consistia na transmutação do princípio vital que aflora certas glândulas de crianças e menores, desde que estejam sãs, para pessoas doentes, isto é, para aquelas cuja energia orgânica esteja perturbada, diminuída ou esgotada”, explica José Fábio, para finalmente comparar: se posso dizer, é a voronofthapia simplificada.

Ao usar o neologismo o criador da famosa “Vacina de Cuspe”, como ficou conhecida a injeção que aplicava nos enfermos, refere-se ao cirurgião russo radicado em País, Serge Voronoff (1866-1951).

A reportagem de A Noite sobre o modesto farmacêutico do interior, também aludia a possibilidade de seu sistema provocar o rejuvenescimento e garantir uma velhice mais sadia e alegre.

Tal atividade, porém, foi considerada irregular, pela Sociedade de Medicina da Paraíba, e ele mesmo reconhece: 

Sei que venho agindo fora da minha profissão, pois não sou médico, mas compreendo também que a ciência não pode ser patrimônio de uma classe.

Revela que suas experiências não fazem vitimas, e conformado, conclui:

– Já me compensam as emoções de ter com meu método aliviado algumas dores humanas.

Comenta Ramalho Leite:

“Depois do pronunciamento negativo da entidade médica paraibana, o farmacêutico começou a ser perseguido pelo vigário de Bananeiras, José Pereira Diniz.

Ao tomar conhecimento e que o boticário havia dito que seu método provinha de missão divina recebida de um espírito superior que não era o Deus da religião de vocês.

Seu método de cura é resultado de estudos científicos publicados em dois livros e um memorial inédito lido perante o corpo médico do Hospital Pedro I, de Campina Grande.”

Proibido de exercer suas experiências na Parahyba, José Fábio mudou-se para o Rio Grande do Norte. A vacina era inclusive recomendada por sua mãe que a identificava como injeção milagrosa, nada mais do que saliva transformada num líquido injetável que se aplicava para qualquer tipo de doença.

Em 2016 a universitária Rosana do Nascimento Gomes de Melo apresentou à Universidade Estadual da Paraíba sua tese de História sob o título: “A seiva da vida” referente às assombrosas curas da Lymfoterapia, de José Fábio de Lyra com suas vacinas.

O trabalho de Conclusão de Curso foi apresentado em cumprimento à exigência para obtenção do grau de Licenciada em História. Orientador: Prof. Dr. Azemar dos Santos Soares Júnior, que obteve Menção Honrosa.

O trabalho experimental de José Fábio da Costa Lira está detalhado no livro: “Da Lymphothrapia ao Physio-Pschismo”, publicado em 1924, sob o patrocínio de Solon de Lucena, então Presidente do Estado da Parahyba. (Naqueles anos os governadores eram considerados Presidentes de Província.)

Mas foram vãs as tentativas em legalizar seu método científico de curar. José Fábio não acumulou fortuna. Sobraram-lhe apenas sofrimentos e frustrações, fruto das perseguições sofridas ao longo de sua existência profissional.

O inventor, entretanto, se conformava com o apoio moral que recebia dos que alcançavam a saúde plena pelo uso da popular “Vacina do Cuspe”.

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