Às vezes meu pensamento volteia pelos dias, locais e fatos da infância e ocorrem interessantes recordações. Nesses retornos, recordo ensinamentos que recebi dos meus pais; recomendações que fortaleceram meu caráter para enfrentar os anos do porvir.
Como papai era Agente de Propaganda de produtos farmacêuticos, passava 25 dias viajando pelo interior de Pernambuco, e mamãe aproveitava para ficar na casa das irmãs, na Boa Vista, exatamente num casarão situado na Rua Rosário da Boa Vista, 136.
Com seis anos, eu era ainda, dos sobrinhos, o mais novo; por isso dominava oterritório. A casa ficava de frente com a Rua do Aragão, que terminava na Praça Maciel Pinheiro, onde havia uma fonte luminosa e às tardes, as primas Yeda e Nicinha, me levavam para passear.
O bairro era formado por compridos casarões. Onde minhas tias moravam, a frente dava para a rua do Rosário e os fundos para a Rua Gervásio Pires. Construídas bem ao estilo colonial: eram casas estreitas, compridas e quintais enormes.
Eram vizinhos, a família do Sr. Hamilton Groley, um inglês muito educado. A parte do quintal, que tinha uns 20 metros de comprimento, um muro alto limitava as duas propriedades. Por ele descia, como que por encanto, uma parreira de uvas, cuja raiz nunca localizei.
Não raro eu colocava um tamborete e subia para tirar deliciosas uvas brancas, um tanto amargosas, porque às vezes eram colhidas ainda verdes.
Naquela idade eu não poderia imaginar seus benefícios. Hoje tenho conhecimento de que, quando maduras, podem ter influência na redução de doenças cardiovasculares.
A ciência provou que a ingestão de seu suco, duas vezes ao dia, por 30 dias, resulta na diminuição da circunferência abdominal e do Índice de massa corporal, com perda de peso e diminuição de medidas.
Certa feita, dominado pela curiosidade normal das crianças, perguntei a uma das minhas tias onde ficava o pé das uvas e ela me disse que era do outro lado do muro; ou seja, no quintal do sr. Hamilton.
Fiquei preocupado porque estava comendo as uvas da casa de minhas tias, mas aquelas maravilhosas bolinhas verdes do vizinho! Lembrei-me dos ensinamentos do meu velho: “Só use o que for seu! O que não for, peça para usar.”
Dias depois, estando os vizinhos em cadeiras na calçada – como se fazia antigamente – aproveitei para falar com o sr. Hamilton:
O senhor deixa eu comer suas uvas?
Admirado e solícito, ele pediu a mamãe para me levar até seu quintal, onde mostrou-me a plantação, deu algumas explicações e tirou um cacho de uvas maduras para me presentear.
Muito obrigado, Sr. Hamilton, mas não vou aceitar porque todas elas que passam por cima do muro e chegam à casa de tia Teresa eu “passo nos peitos”!
O vizinho ficou admirado com a honestidade da criança. Mesmo assim, aceitei, e ao comê-las notei que eram doces. O vizinho me explicou:
É que certamente você deve estar comendo uvas ainda verdes. Estas nossas são doces porque foram colhidas no tempo certo de colheita.
Depois que a conversa se espalhou, houve discretos comentários, ficando em foco minha boa educação.Tia Teresa, então, passou a comprar uvas para mim, no Mercado da Boa Vista, perto do Pátio da Santa Cruz.
Certamente uvas abençoadas!