As revelações envolvendo o banco Master são, cada vez, mais escabrosas e o pior de tudo isso: seguem passivamente sem o menor incômodo aos envolvidos. Apesar das constatações envolvendo a esposa de Alexandre de Morais, apesar do seu notório vínculo já constatado através de mensagens no celular, ele continua ditando a lei, sem qualquer sinal de constrangimento.
Esta semana a Revista Veja publicou uma pequena doação para Alcolumbre: US$ 30 milhões, que dá, aproximadamente, R$ 150 milhões. O prêmio da Mega Sena da virada deu R$ 180 milhões aos acertadores. Alcolumbre recebeu um pouco menos, em propina, dinheiro depositado fora do Brasil. Vorcaro afirmou que fez isso, mas Alcolumbre se apressou em negar e fica por isso mesmo. Ele continua presidente do senado, não tem o menor interesse em abrir a CPMI do banco Master e, simplesmente, não deve satisfação nenhuma à população brasileira. Caso se candidate novamente, será reconduzido ao senado, sem sombras de dúvidas.
Ainda ecoa na internet o depoimento de Marcelo Odebrecht. De forma nítida, objetiva, ele simplesmente falou da diretoria de operações estruturadas cuja finalidade era pagar propinas. Estavam na planilha para identificar pagamentos ao “amigo do meu pai”, “amigo do amigo de meu pai”, “amante” e tantos outros que, vez por outra, merecem voltar à baila. Não podemos esquecer isso e não podemos deixar de lembrar isso.
Eu tenho muita dificuldade em entender por que quando um cara diz que deu dinheiro para um político, este se apressa logo em dizer que é mentira. Aécio Neves foi flagrado em conversa com Joesley Batista pedindo dinheiro. Procure na internet essa conversa que você vai ver o nível do papo: “eu mando um cara de confiança minha, você um manda do seu e seu o cara falar a gente mata. Eu vou mandar o Fred”. O diálogo era por aí e Fred era primo dele que trabalhava no seu gabinete. Aécio foi afastado do senado por Marco Aurélio, mas Renan Calheiros defendeu que quem decide sobre afastamento de parlamentares é o congresso. Ele está certo, mas isso náo funcionou para Deltan Dellagnol.
Fico impressionado quando um político nega envolvimento em desvios de conduta ou é improbidade administrativa. Do outro lado tem uma pessoa que pagou propina, que disse como isso pago e muitas das vezes com um detalhe tão grande que não dá para criar algo desse porte. Muitas vezes, o cara reafirma os detalhes de como pagou propina e os detalhes são idênticos e, a maneira mais simples de descobrir uma mentira é quando ela repetida. Se a história muda, pode duvidar da veracidade.
O problema é que no Brasil a presunção de inocência foi transformada em presunção de incredulidade seletiva. Quando um empresário confessa que pagou propina, apresenta datas, valores, intermediários, locais e circunstâncias, a primeira reação não é investigar os fatos, mas encontrar uma justificativa para ignorá-los. Parece que a palavra do corruptor só tem valor quando serve para acusar adversários políticos. Quando alcança aliados, ela passa a ser considerada imprestável.
Não estou defendendo condenações sem provas ou sem o devido processo legal. Muito pelo contrário. O que chama atenção é a completa ausência de interesse em esclarecer os fatos. A negativa do acusado deveria ser apenas o início da apuração, nunca o seu encerramento. Afinal, se alguém afirma ter pago milhões de dólares a uma autoridade pública, o mínimo que se espera de uma democracia séria é que essa afirmação seja rigorosamente investigada.
O mais grave é que a população parece ter desenvolvido uma espécie de tolerância à corrupção. Escândalos que, em qualquer país minimamente institucionalizado, provocariam renúncias, afastamentos e investigações profundas, aqui se transformam em manchetes de um ou dois dias. Logo surge um novo assunto, uma nova polêmica e tudo é esquecido. A indignação dura menos que um ciclo de notícias.
Talvez por isso tantos políticos reajam com tranquilidade diante de acusações graves. Eles sabem que a memória coletiva é curta e que a responsabilização raramente chega. Negam, atacam quem denunciou, falam em perseguição política e aguardam a próxima pauta ocupar o espaço na imprensa. O roteiro é conhecido, repetido e, infelizmente, bastante eficiente.
No final, o cidadão comum fica com a sensação de que existem dois países. Um em que a lei é aplicada com rigor para quem tem pouco poder e outro em que acusações envolvendo milhões de dólares, contas no exterior e esquemas de corrupção terminam sem maiores consequências. Enquanto essa percepção persistir, continuará difícil convencer a população de que as instituições funcionam da mesma forma para todos.