MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS

Não tenho como meta convencer ninguém a acreditar nos fatos que passo a narrar. Mas que foi assim que tudo aconteceu, isso foi.

Era um domingo, nos idos de 2010 ou 2011. Uma época em que aconteciam muitos assaltos em Fortaleza, inclusive nas chamadas áreas nobres, como Aldeota, Meireles, Dionísio Tôrres e Papicu.

Eu tinha acabado de almoçar em uma churrascaria de rodízio e, sabendo que havia exagerado no consumo de picanha e outras carnes vermelhas, decidi passar em uma farmácia e comprar uns envelopes de sal de fruta, para tomar logo que chegasse em casa.

Estacionei o carro em uma das três vagas que havia diante de uma farmácia ali perto, em uma rua que fazia esquina com a Avenida Engenheiro Santana Júnior, se não me falha a memória.

Sabendo que era uma área onde ocorriam assaltos com certa frequência, observei o local antes de desembarcar. Havia quase nenhum movimento de pedestres na rua. Só os carros passavam na avenida, a maioria no sentido de quem voltava da Praia do Futuro.

Pude perceber que havia um rapaz atendendo no balcão, mas parecia não haver nenhum cliente no estabelecimento, porque o dito rapaz estava parado, olhando na minha direção, como se esperasse que eu fosse em sua direção para me atender.

Havia, sim, uma idosa, no exato limite da porta da farmácia, mas não estava comprando nada. Parecia mais estar esperando alguém, porque olhou para um lado da rua e depois para o outro, antes de voltar à posição inicial. Magra, pequena, usando um vestido preto até a altura dos joelhos, e com o cabelo preso em uma espécie de rabo de cavalo. Devia ter uns 70 anos, talvez um pouco mais.

Resolvi entrar na farmácia. Em um gesto extra de cautela, deixei a carteira e o celular embaixo do banco do carro e desembarquei levando comigo apenas o cartão do banco e uma nota de cem reais no bolso traseiro da bermuda. Se fosse vítima de um roubo, evitaria entregar o telefone e a carteira com meus documentos.

Os acontecimentos seguintes mostraram que minha cautela fazia sentido. Mal iniciei a caminhada pela calçada, em direção às portas da farmácia, três rapazes saíram de uma viela – um beco, como se diz no Ceará – que eu não havia percebido, e vieram em minha direção.

Tinham o cabelo parcialmente descolorido, de uma maneira que eu já conhecia, e sabia que seria um sinal de possível relacionamento com o crime.

– Tem um trocado pra gente aí, barão? – disse-me aquele que parecia ser o líder do grupo.

A abordagem seguia um padrão que eu já conhecia, do relato de outras pessoas: pedem algum dinheiro ou perguntam as horas; quando você pára e pensa numa resposta, anunciam o assalto ou tentam arrancar à força o que você tiver nos bolsos. A ação depende do tipo de arma da qual disponham.

Naquele exato momento, porém, na velocidade absurda que nossos pensamentos alcançam em situações de alto estresse, lembrei que, ao sair da churrascaria, havia encontrado no chão, perto do meu carro, uma nota de dez reais. Amassadinha, mas inteira. Lembrei ainda que havia posto aquela nota de dez reais no bolso da camisa, e não na carteira, junto com as outras notas.

Com essa memória de fatos recentes instantaneamente carregada em minha mente, pus a mão no bolso da camisa, peguei a nota encontrada minutos antes e disse:

– Eu trouxe esses dez reais pra você. Ela disse que eu lhe entregasse aqui, em frente à farmácia.

– Diabeisso, barão?! Tu é doido? Ela quem?

– Era uma senhora idosa, magrinha, com o cabelo amarrado como um rabo de cavalo. Apareceu pra mim num sonho essa noite. Disse que eu viesse aqui com dez reais e desse pro primeiro rapaz que aparecesse pedindo. Que é melhor pedir do que roubar, e que não queria ver o “menino” roubando pra comprar droga.

– Porra, maluco, tu sonhou com a vó!?

– Se era sua avó eu não sei. Tô fazendo só o que ela me pediu – disse eu, estendendo a nota de dez reais em direção a ele.

– Era a vó, macho! Ela morreu tem uns três mês. Todo domingo ela me dava dez real, quando chegava da missa – prosseguiu ele, com a voz trêmula e lágrimas transbordando dos olhos.

– Que seja, então, irmão. Toma aí teus dez reais!

– Tô nem com vontade de receber, ó? Que doidice é essa, macho? – disse, esfregando o pulso direito no olho do mesmo lado, dando-me a impressão de que tentava dissimular o movimento para enxugar uma lágrima.

Peguei a sua mão esquerda, pus a nota de dez reais nela e comecei a me despedir:

– Guarda aí, irmão. Vai na paz!

Retomei, então, meu movimento para entrar na farmácia, ao mesmo tempo em que observava, com minha visão periférica, os três rapazes se afastarem, conversando entre si, como tentando entender o que tinha acontecido.

O rapaz do balcão, que acompanhava tudo de seu posto, parecia surpreso com a cena que acabara de assistir:

– Achei que o senhor ia ser assaltado – disse ele. – Essa turma já é conhecida aqui na área…

– Eu também achei. Mas, quando eles me abordaram, eu vi aquela senhorinha entrando na farmácia, e veio uma ideia na minha cabeça. Acabou dando certo.

– Qual senhorinha?

– Uma magrinha, de preto, com o cabelo feito um rabo de cavalo. Tava aqui na entrada, olhando lá pra fora. Quando eles apareceram ela veio pra perto do balcão.

– Desculpa aí, senhor, mas não tinha mais ninguém aqui, não. Só eu e minha colega ali no caixa.

Olhei em volta e não vi ninguém além do rapaz que me atendia e da moça no caixa, que em nada se assemelhava à senhora que eu acabara de ver.

Fui até a calçada e examinei com os olhos tudo ao redor, mas não vi mais a idosa.

Paguei a conta e retomei meu caminho para casa. Mas nunca entendi direito o que aconteceu naquele domingo. Em plena luz do dia. Em uma farmácia de Fortaleza.

10 pensou em “UMA NOTA DE DEZ REAIS

  1. Eu acredito. Já vi coisas estranhas acontecerem. Um dia se identificou como o paciente que tinha morrido no hospital da Mirueira, aqui na RMR. Tinha morrido de lepra e e cocei minhas costas com uma régua de 50cm. A noite, num centro, ele relatou a questão. Estava no cemitério sem saber sair, perturbado, e um senhor de barba mandou ele me seguir. Estava tão fraco que se apoiou em mim.

  2. Acredito, piamente, que a senhora de preto era mesmo a avó do marginal, desencarnada. E o impulso que você teve, de se referir a ela, ao dar ao rapaz a nota de 10 reais, foi coisa sobrenatural.
    Parabéns pela ótima narrativa, Dr. Marcos Mairton!

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