MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

Nos tempos do império romano, mais de dois mil anos atrás, já havia capitalismo e livre mercado. O capitalismo, na forma de indústria, mineração, agricultura, pecuária, os famosos “meios de produção” ou “bens de capital”, além de uma enorme rede comercial terrestre e marítima. O livre mercado, embora não absoluto, também existia: uma boa parcela da economia vinha de empreendimentos privados, especialmente no comércio. Todas as regiões em torno do Mediterrâneo (o que hoje são Espanha, França, Itália, Croácia, Albânia, Grécia, Turquia, Síria, Líbano, Israel, Egito, Líbia, Argélia e Marrocos) compravam e vendiam de tudo: alimentos, tecidos, utensílios domésticos, materiais de construção, jóias, espadas, vasos, estátuas, vinho, azeite de oliva e muitos etc.

Como de costume, havia um governo que cobrava impostos e bancava obras de infra-estrutura, como estradas, aquedutos e prédios públicos. Infelizmente, quando políticos se acostumam a gastar o dinheiro dos outros nos tempos bons, eles não aceitam poupar quando chegam os tempos ruins. Quando o dinheiro fácil das conquistas diminuiu, o império entrou em declínio, com todos os incredientes que nós conhecemos: corrupção, governos incompetentes, inflação, populismo. Na capital Roma o governo distribuía comida de graça e as arenas (como o famoso Coliseu) funcionavam 24 horas por dia para dar distração ao povo. Era a política conhecida como “pão e circo” (em latim, “panis et circensis”). Claro que não adiantou.

Com a decadência do império, o comércio praticamente acabou. A Europa se transformou em um amontoado de minúsculos territórios, cada um controlado por um conde, duque, barão ou similar, com o povo submetido ao regime de servidão (um escravo pertence a uma pessoa, um servo pertence a um lugar). A única interação entre estes condados ou ducados era através das constantes guerras. De vez em quando, dois territórios se uniam quando os filhos dos senhores de um e de outro se casavam.

Demorou quase um milênio para o comércio voltar a níveis comparáveis aos bons tempos do império romano. Foi a época das feiras, que recebiam visitantes de vários lugares, e das cidades livres, ou burgos, onde as pessoas eram livres para trabalhar sem deveres de obediência a um senhor. Os moradores dos burgos, os burgueses, impulsionaram a indústria, o comércio e as profissões liberais: médicos, engenheiros, arquitetos, artesãos, artistas, e até banqueiros.

Trabalho traz riqueza, e o aumento da riqueza desperta a cobiça. Os reis, que por séculos foram apenas figuras decorativas, começaram a esforçar-se para ampliar seu poder. A conta era simples: quem tem mais exércitos tem mais poder, quem tem mais poder cobra mais impostos, quem cobra mais impostos tem mais dinheiro, e quem tem mais dinheiro tem mais exércitos. Aplicando este raciocínio circular os reis formaram seus estados.

Os reis dos lugares com menos recursos naturais perceberam que dependiam da iniciativa privada para gerar riquezas. Alguns países de hoje como Holanda, Bélgica, Dinamarca, Alemanha, Suíça e até mesmo Inglaterra, foram criados a partir de algum grau de liberdade econômica que fomentou a indústria e o comércio.

Do lado oposto, Espanha e Portugal adotaram o colonialismo: com a descoberta das rotas de navegação e a conquista das Américas, o estado se tornou o dono da economia. O comércio com as Indias era monopólio estatal; o ouro e prata da América, também. A livre iniciativa era fortemente reprimida. A única forma correta de enriquecer era sendo parte do governo e recebendo um privilégio do rei. A indústria era desestimulada: era melhor vender as matérias-primas para outros países e comprar os produtos manufaturados. Afinal, indústrias podem crescer e se tornar poderosas, e tudo que o governo não queria era concorrência pelo poder. Pelo mesmo motivo, a educação era vista como inútil e até mesmo perigosa; um povo que pensa é uma ameaça para o governo e seus amigos.

O governo cobrava impostos mas não oferecia muito em troca. Idéias como saúde de graça ou educação de graça seriam consideradas absurdas para a época. Para manter o povo sob controle, o governo se associou à igreja, que ensinava ao povo que obedecer ao rei era um mandamento divino que seria recompensado com um lugar no paraíso. Para os que não acreditassem, havia a Inquisição.

A Inquisição se ocupava basicamente de duas tarefas: perseguir e prender os adversários do governo, sob pretextos religiosos, e tomar dinheiro dos que se atreviam a enriquecer por conta própria, e não graças ao estado. Para esta segunda tarefa, aceitava delações anônimas recompensadas com dinheiro ou cargos na própria Inquisição, que entre outras vantagens concedia foro privilegiado a seus integrantes: se algum funcionário (ou parente) da Inquisição fosse acusado de um crime, não seria julgado pela justiça comum, mas pela própria Inquisição. (será que meus leitores estão notando semelhanças com os tempos de hoje?)

Com o passar dos anos, as diferenças entre os dois tipos de países se tornaram óbvias: de um lado, sociedades que acreditam no trabalho e na liberdade, valorizam o conhecimento e admiram quem consegue sucesso. De outro lado, sociedades que desprezam o trabalho e tem como meta de vida um cargo no governo; temem a liberdade e pedem que o governo as controle; desdenham da cultura e da educação, e vêem diplomas como um “favor do rei” que dá ao dono direitos que os outros não tem. Sociedades que cultivam (como a Inquisição ensinou) a inveja e a traição como modo de vida e admiram quem consegue “se dar bem”, não importa o método usado. Sociedades onde é regra desdenhar dos mais pobres e bajular os poderosos, onde todos tem como meta agarrar-se aos seus direitos e safar-se de seus deveres. Sociedades onde obedecer ao governo continua sendo um mandamento divino, agora ensinado nos colégios e universidades, não só nas igrejas.

Este segundo tipo de sociedade inevitavelmente (mesmo que esteja sobre uma enorme reserva de petróleo, como nossa vizinha Venezuela) empobrece, porque as coisas necessárias não são feitas ou são mal-feitas; porque poucos se dedicam a criar riqueza e muitos se dedicam a tomá-la dos outros; e porque a burrice acaba por virar uma sina, quando as crianças que foram educadas para odiar os empresários, amar o governo e temer a liberdade tornam-se professores e dominam o ambiente escolar e acadêmico, que se transforma em mais uma repartição pública unida aos ideais do estado enorme.

Infelizmente, a economia não tem remédios para a degradação moral. Modificar o espírito e a cultura de um povo é algo que, raramente e com muita sorte, pode ser conseguido por bons líderes. Na maioria das vezes, as mudanças só vêm após muito sofrimento.

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