Em sua obra-prima “O Tempo e o Vento”, o escritor gaúcho Érico Veríssimo diz o seguinte: “A política no Rio Grande do Sul é uma dança ritual em torno de dois cadáveres, Júlio de Castilhos e Silveira Martins. A maioria se deixa levar irracionalmente pelo fascínio mágico de um nome ou pela cor de um lenço, e por esses mitos é capaz de matar ou morrer.”
Eu li essa frase aos dezessete anos de idade, quando cursava o segundo grau no CEFET-PR, e ela nunca mais saiu da minha cabeça. Com o tempo, fui me convencendo de que Érico mirou no seu estado natal mas acertou no país inteiro. De estado para estado e de região para região, mudam os nomes, mas a prática é cada vez mais a mesma: não importam idéias, propostas, conceitos, importam apenas os nomes e as cores. Claro que isso de “matar ou morrer” hoje é apenas metafórico, se é que algum dia chegou a ser literal.
Poucas palavras definem tão bem a nossa política como “caudilho”. Pertence à língua espanhola, e como o Brasil gosta de fingir que não faz parte da América Latina, também finge que a palavra só serve para nossos vizinhos que falam espanhol. Grande engano. A filosofia do “salvador da pátria” é tão forte por aqui quanto por lá. Quem não quiser usar palavras estrangeiras pode trazer de Portugal a expressão “sebastianismo”, que designa a esperança na volta de Dom Sebastião, rei português que desapareceu em uma batalha no norte da África em 1578. Por aqui, tivemos getulistas contra lacerdistas, tivemos janguistas, brizolistas, ademaristas, malufistas, tancredistas, e agora temos lulistas e bolsonaristas.
Esqueça designações como “esquerda” ou “direita”, “progressista” ou “conservador”, “fascista” ou “socialista”. São expressões vazias, que são usadas como auto-elogios na primeira pessoa e como xingamentos na terceira. A orientação política do brasileiro (de outros também, mas não é o objetivo desse pitaco) não se define por inclinações sociológicas, ideológicas ou filosóficas, mas pela simpatia por um personagem, que rapidamente se transforma em devoção e daí em idolatria – ou fascínio, para voltar à frase de Veríssimo. Aliás, no mesmo capítulo há outra frase que vale a pena destacar: “Quando se pergunta a um caboclo se é maragato ou pica-pau, com frequência se ouve essa resposta: ´Sou gente do Coronel Fulano´”
Em tempos de redes sociais, o fenômeno se multiplica e chega ao absurdo. Aquilo que os otimistas chamam de “debate político” é na verdade um confronto entre dois grupos gigantescos de fãs/fanáticos de um político e de outro, repetindo sem pensar frases feitas e memes, com o único intuito de alimentar o próprio ego. Algumas poucas vozes solitárias pedem inutilmente que se tente debater soluções para os problemas reais do país, mas a grande maioria já decidiu que a causa de todos os problemas é “o outro lado”, e que basta derrotá-lo para que tudo se resolva. Como neste debate a única coisa que importa é o sobrenome, não as idéias, o surgimento de novas propostas torna-se impossível, porque qualquer nome novo é visto como inimigo.
Colocando em termos práticos, o Brasil está em um momento crítico de transição: o bolsonarismo está prestes a se tornar um “governo no exílio”, o que o coloca no caminho da irrelevância. De outro lado, o lulismo em breve se tornará órfão por um simples motivo biológico: Lula está com 81 anos e o declínio de sua saúde é evidente. Em um ambiente saudável, ambos os movimentos teriam outras lideranças prontas a dar continuidade aos respectivos projetos. Mas não temos ambiente saudável, nem lideranças, nem projetos. Temos apenas a devoção cega. Estamos prestes a entrar em uma era, que não se pode saber quanto durará, em que a frase de Érico Veríssimo será tristemente verdadeira: Nossa política é uma dança ritual em torno de dois cadáveres.
(*) Para quem não conhece a história política do RS, os “maragatos” se opunham ao governo federal monárquico e defendiam o parlamentarismo e a descentralização do poder. Seu símbolo era um lenço vermelho no pescoço e seu ícone máximo era Gaspar Silveira Martins (1835-1901). Do outro lado, os “pica-paus” ou “chimangos” apoiavam o governo federal, usavam lenço branco e tinham como ídolo Júlio de Castilhos (1860-1903).