Beiju feito com a “goma” retirada da massa da mandioca
Cada coisa no seu devido lugar.
Quem bebe água do pote na caneca, não tira a água com a caneca usada para beber. Tira com outra caneca, ou com uma concha feita de uma das bandas do coco – e, depois, recoloca tudo nos devidos lugares. É assim que começa a lida de uma coisa ser uma coisa, e outra coisa ser outra coisa.
Como dizia Vovó: “na terra dos sapos, de cócoras com eles”.
Na Queimadas, a cada fim de dia da farinhada, com ordem explícita do patrão dono de tudo que está sendo feito, o Encarregado pela torração da farinha inicia o procedimento: limpa os tijolos do forno com uma vassoura, e prepara a massa para a feitura de cinco ou seis beijus. Prontos os beijus, cada um é entregue aos beneficiados que lideram as famílias envolvidas na farinhada.
O catitu que cevou a mandioca, cevou também o coco que será acrescentado ao beiju. Uma antiga tradição, pois ninguém consegue explicar o sabor que o coco dá ao beiju.
Terminada a tarefa de assar os beijus, o forno é coberto para evitar que gatos tentem aproveitar a quentura dos tijolos para passar a noite com suas artimanhas sexuais ou necessidades fisiológicas: cagar ou mijar.
Tudo recomeça na manhã do dia seguinte: o responsável arruma a lenha e toca fogo para aquecer o forno para continuar torrando a farinha.
Tapioca caseira, também feita com a goma extraída da mandioca
Muito distante das Queimadas, o usufruto da farinhada percorre vários lares nas cidades grandes.
O café da manhã é servido. Pães, bolachas, frutas adequadas para a hora – mas, eis que alguém que ainda continua ligado ao sertão, “inventa” de preferir o que chama de tapioca.
Diferente do beiju sertanejo dos fins de dias da farinhada, a tapioca é menor. Feita com pouca goma, e sem o coco – mas também pode ser adicionado – que outros que preferiam os pães e/ou bolachas certamente vão aderir. Provar e aprovar.
Em vez do forno de tijolos aquecidos pela lenha, a frigideira, também utilizada para outras tarefas da cozinha. A goma molhada e às vezes peneirada faz a tapioca. Há quem acrescente manteiga ou margarina, da mesma forma que há aqueles que preferem sem esses ingredientes.
Essa é a tapioca. Diferente do beiju. E é aqui que começa a diferença de, uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa.
Tapioca “recheada” servida nas cidades grandes
Criativas, algumas pessoas procuram sair da mesmice diária do consumo. Tentam mudar o foco, e até conseguem. Mas, felizmente, não conseguem mudar o sabor original. Tapioca será sempre tapioca, por mais ingredientes que sejam acrescentados.
Há até quem adicione algo doce – mas, aí, deixa de ser parte adicional do café da manhã, e passa a ser peça importante nos lanches.
Repetimos: uma coisa é uma coisa, e outra coisa é (e será sempre) outra coisa.
Aruá em desova em local apropriado
Voltamos à Queimadas. Anos antes do aproveitamento da área para reconstrução do Açude Novo, um pequeno lago servia de alimento para as batatas doces semeadas ao seu derredor. As raras chuvas aumentavam o diâmetro da área, alagando-a. E era ali que os aruás se deleitavam em vida e escolhiam para a reprodução.
Quem já viu a fome precedente da morte de perto, e sem fantasia carnavalesca ou literária, vai conseguir identificar o que, agora, tento descrever: “a gente procura o que comer, e come o que encontra”.
Quando íamos apanhar batatas doces para o café da manhã e para completar o dicumê do meio-dia, catávamos e apanhávamos, também, um bornal de aruás. Ovados ou não. Aprendemos a preservar, não bulindo jamais com os ovos postos nos galhos ressequidos das pequenas árvores. Seria a comida, no futuro.
Escargot da culinária francesa
Banha suína era coisa rara. Óleo de soja, milho ou outro qualquer, ainda não existia. Vovó recorria ao sebo bovino, retirado como excesso na carne e salgado separadamente. Aquele sebo era derretido, virando o adicional das frituras. Nenhum tempero – quando muito, o colorau feito a partir do urucu.
A farofa de aruá, por vezes (muitas) enfeitou o dicumê na casa dos Buretama.
Longe algumas horas da Queimadas, Paris. A Torre Eiffel.
Próximo dali, mas com vista privilegiada, a Brasserie Lipp serve aos endinheirados turistas, o “escargot”.
Para os cearenses que viram a fome sem desenhos estilosos, o aruá.
Mas, uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa.





As gomas de hoje em dia, vendidas nas grandes redes de supermercados, fedem muito. Um odor azedo.
Mando buscar a minha em Acary. Sem conservantes. Pura.
Jesus, felizmente a gente conhece por vivência – e aprendeu o que é bom ou não. Aqui no Maranhão, faz-se mais a chamada “farinha d´água”, que começa a preparação colocando a mandioca com casca e tudo num igarapé (ou recipiente apropriado) por alguns dias. Depois, retira-se faz-se a limpeza do tubérculo. Esse é “espremido” na prancha, retirada a goma (no estado “fedido de azedo” que está, chama-se “massa puba”) e é iniciada a preparação para torrar. No meu Ceará, eu “merendava” farinha com açúcar. Aqui no Maranhão, a farinha mais consumida é a farinha d´água. A farinha seca só é usada para farofa ou pirão,
Prezado ZéRamos, quem nasceu e viveu as décadas de 40/50 e 60 sabe das agruras do que era nascer e viver no nosso nordeste brasileiro, o que você descreve de forma real, pode parecer aos irmãos sulistas ( saiu do NE o restante era chamado de sul) uma utopia, mas nós vivemos isso na pele, no toitiço
Marcos, foi isso sim, que vivenciamos. Sofremos mais que alguns, mas estamos aqui firmes para dar nossos testemunhos.