JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

Beiju feito com a “goma” retirada da massa da mandioca

Cada coisa no seu devido lugar.

Quem bebe água do pote na caneca, não tira a água com a caneca usada para beber. Tira com outra caneca, ou com uma concha feita de uma das bandas do coco – e, depois, recoloca tudo nos devidos lugares. É assim que começa a lida de uma coisa ser uma coisa, e outra coisa ser outra coisa.

Como dizia Vovó: “na terra dos sapos, de cócoras com eles”.

Na Queimadas, a cada fim de dia da farinhada, com ordem explícita do patrão dono de tudo que está sendo feito, o Encarregado pela torração da farinha inicia o procedimento: limpa os tijolos do forno com uma vassoura, e prepara a massa para a feitura de cinco ou seis beijus. Prontos os beijus, cada um é entregue aos beneficiados que lideram as famílias envolvidas na farinhada.

O catitu que cevou a mandioca, cevou também o coco que será acrescentado ao beiju. Uma antiga tradição, pois ninguém consegue explicar o sabor que o coco dá ao beiju.

Terminada a tarefa de assar os beijus, o forno é coberto para evitar que gatos tentem aproveitar a quentura dos tijolos para passar a noite com suas artimanhas sexuais ou necessidades fisiológicas: cagar ou mijar.

Tudo recomeça na manhã do dia seguinte: o responsável arruma a lenha e toca fogo para aquecer o forno para continuar torrando a farinha.

Tapioca caseira, também feita com a goma extraída da mandioca

Muito distante das Queimadas, o usufruto da farinhada percorre vários lares nas cidades grandes.

O café da manhã é servido. Pães, bolachas, frutas adequadas para a hora – mas, eis que alguém que ainda continua ligado ao sertão, “inventa” de preferir o que chama de tapioca.

Diferente do beiju sertanejo dos fins de dias da farinhada, a tapioca é menor. Feita com pouca goma, e sem o coco – mas também pode ser adicionado – que outros que preferiam os pães e/ou bolachas certamente vão aderir. Provar e aprovar.

Em vez do forno de tijolos aquecidos pela lenha, a frigideira, também utilizada para outras tarefas da cozinha. A goma molhada e às vezes peneirada faz a tapioca. Há quem acrescente manteiga ou margarina, da mesma forma que há aqueles que preferem sem esses ingredientes.

Essa é a tapioca. Diferente do beiju. E é aqui que começa a diferença de, uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa.

Tapioca “recheada” servida nas cidades grandes

Criativas, algumas pessoas procuram sair da mesmice diária do consumo. Tentam mudar o foco, e até conseguem. Mas, felizmente, não conseguem mudar o sabor original. Tapioca será sempre tapioca, por mais ingredientes que sejam acrescentados.

Há até quem adicione algo doce – mas, aí, deixa de ser parte adicional do café da manhã, e passa a ser peça importante nos lanches.

Repetimos: uma coisa é uma coisa, e outra coisa é (e será sempre) outra coisa.

Aruá em desova em local apropriado

Voltamos à Queimadas. Anos antes do aproveitamento da área para reconstrução do Açude Novo, um pequeno lago servia de alimento para as batatas doces semeadas ao seu derredor. As raras chuvas aumentavam o diâmetro da área, alagando-a. E era ali que os aruás se deleitavam em vida e escolhiam para a reprodução.

Quem já viu a fome precedente da morte de perto, e sem fantasia carnavalesca ou literária, vai conseguir identificar o que, agora, tento descrever: “a gente procura o que comer, e come o que encontra”.

Quando íamos apanhar batatas doces para o café da manhã e para completar o dicumê do meio-dia, catávamos e apanhávamos, também, um bornal de aruás. Ovados ou não. Aprendemos a preservar, não bulindo jamais com os ovos postos nos galhos ressequidos das pequenas árvores. Seria a comida, no futuro.

Escargot da culinária francesa

Banha suína era coisa rara. Óleo de soja, milho ou outro qualquer, ainda não existia. Vovó recorria ao sebo bovino, retirado como excesso na carne e salgado separadamente. Aquele sebo era derretido, virando o adicional das frituras. Nenhum tempero – quando muito, o colorau feito a partir do urucu.

A farofa de aruá, por vezes (muitas) enfeitou o dicumê na casa dos Buretama.

Longe algumas horas da Queimadas, Paris. A Torre Eiffel.

Próximo dali, mas com vista privilegiada, a Brasserie Lipp serve aos endinheirados turistas, o “escargot”.

Para os cearenses que viram a fome sem desenhos estilosos, o aruá.

Mas, uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa.

4 pensou em “UMA COISA É UMA COISA – E, OUTRA COISA, É OUTRA COISA”

  1. As gomas de hoje em dia, vendidas nas grandes redes de supermercados, fedem muito. Um odor azedo.
    Mando buscar a minha em Acary. Sem conservantes. Pura.

  2. Jesus, felizmente a gente conhece por vivência – e aprendeu o que é bom ou não. Aqui no Maranhão, faz-se mais a chamada “farinha d´água”, que começa a preparação colocando a mandioca com casca e tudo num igarapé (ou recipiente apropriado) por alguns dias. Depois, retira-se faz-se a limpeza do tubérculo. Esse é “espremido” na prancha, retirada a goma (no estado “fedido de azedo” que está, chama-se “massa puba”) e é iniciada a preparação para torrar. No meu Ceará, eu “merendava” farinha com açúcar. Aqui no Maranhão, a farinha mais consumida é a farinha d´água. A farinha seca só é usada para farofa ou pirão,

  3. Prezado ZéRamos, quem nasceu e viveu as décadas de 40/50 e 60 sabe das agruras do que era nascer e viver no nosso nordeste brasileiro, o que você descreve de forma real, pode parecer aos irmãos sulistas ( saiu do NE o restante era chamado de sul) uma utopia, mas nós vivemos isso na pele, no toitiço

    • Marcos, foi isso sim, que vivenciamos. Sofremos mais que alguns, mas estamos aqui firmes para dar nossos testemunhos.

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