Allright!
R. G. Watkins, cidadão americano, era meu colega. Ele com elevada função no City Bank e eu, “office-boy”. Optara, a pedido, ser transferido para o Recife, a fim de conhecer melhor o Brasil.
Já trabalhara no México e driblando algumas pronúncias da língua portuguesa, entendia e dava a entender o que pretendia dizer, mesmo adotando o “processo macarrônico”, quando suprimia algumas palavras e juntava outras. Aquele desmantelo!
Falava nossa língua de forma meio confusa e embrulhada, como todo gringo. Notando seu entusiasmo pelo Brasil, logo no primeiro mês de amizade, dei-lhe de presente uma bandeirinha do Brasil, própria para as mesas de trabalho. Ficou muito satisfeito com a oferenda.
Com muito respeito, durante todo o tempo em que trabalhou no Recife, manteve nossa bandeirinha na mesa.
Ganhei, assim, a amizade de Mr. Watkins. Já iniciado no jornalismo, eu tinha facilidades em introduzi-lo em visitas a clubes de língua inglesa. Fomos almoçar no Country e dias depois participamos do “Caxangá Ágape”, no Golf Club.
Comecei o turismo por Olinda, suas paisagens e instituições ligadas à cultura. Visitamos o Mosteiro de São Bento, ficando ele deslumbrado com os cânticos gregorianos dos monges.
Num dia de folga, levei-o à casa do antropólogo Gilberto Freyre, que muito melhor do que eu, tinha conhecimento de nossa cultura e falando inglês fluente, dissertou sobre Pernambuco.
E no final da conversa, regada a Licor de Jenipapo, Dr. Gilberto fez uma análise demorada sobre cada estrofe do Hino Nacional Brasileiro, as qualidades do linguajar de seu autor – Joaquim Osório Duque Estrada – e dissertou sobre as estrofes dos versos, que considerava as mais significativas no hino brasileiro.
À despedida, cada um de nós ganhou um exemplar do livro “Casa Grande e Senzala”.
Passados alguns meses, representando os americanos durante um almoço com todos os funcionários do Banco, ocupou o púlpito para homenagear o Brasil. E ao findar sua oração, atreveu-se a cantar, talvez lembrando a referência do Dr. Gilberto Freyre ao nosso hino.
Com seu jeito de se expressar soltou a voz com o maior entusiasmo, cantando a primeira linha da estrofe do Hino Nacional Brasileiro. Um tanto “macarronizado”, é bem verdade:
“Ubirudu” Ipiranga às margens plácidas…
Na segunda-feira, os funcionários brasileiros mais gaiatos começaram a cantar entre si, uma nova versão do hino nacional brasileiro: “Ubirudu”.
