CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

Antigo vapor brasileiro semelhante ao Itanagé

Fernando Lobo e Capibam dois jovens sonhadores, carregando fardos de ansiedades, ambos estudantes de direito, em férias, embarcaram no vapor Itanajé, rumo ao Rio de Janeiro.

Era praxe nos anos de 1930 as pessoas viajarem de navio. E quando se sabia que alguém ia para a Capital da República, sempre havia uma cartinha, um pacotinho, uma lembrancinha, até mesmo uma cartinha; um treco qualquer para infernizar o viajante-transportador.

Alegres e sacudidos, ansiosos para realizar sua primeira grande viagem, que teria a duração de cinco dias; já considerando-se navegantes, postados no convés, acenavam com lencinhos, para os que ficavam no cais, quando surge o imprevisto.

Na escadinha do navio, atrasadíssimas, com a permissão de Oficial de Marinha, sobem aflitas duas “solteironas juramentadas”. Eram as irmãs Arruda, velhas conhecidas desde quando os acadêmicos residiam em Campina Grande. Ambas filhas do respeitável senhor de terras, o saudoso Coronel Arruda.

Entregaram aquele “pacotaço” para os conterrâneos levar. Era um “Bolo Souza Leal”, o mais famoso da culinária pernambucana e mais uns pertences do Coronel. Recusar tal favor? Nem pensar! Avisados já estariam, os parentes, esperariam no porto do Rio.

Capiba e Fernando aceitaram à pulso aquela incômoda incumbência. Recebeu o bagulho, meio preocupado, mas teve que aplicar seu “Sorriso Colgate”.

O pior: se houvesse desencontro, teriam que levar o bolo até Cascadura, um lugar longe pra cacete!

Fernando Lobo e Capiba, no convés do Itanagé

Na cabine, acomodaram o pacote num dos roupeiros. Mas ocorreu uma surpresa desagradável no primeiro amanhecer atlântico. Notaram que havia formigas fazendo fila indiana; todas animadíssimas, num vai-e-vem até, de certo modo,carnavalesco, porque balançavam as bundas. Fernando fez gozação: “São formigas embarcadas”.

Identificar o porquê não era a principal atitude. Mas se livrar das formigas, sim. Fernando, ágil abriu a escotilha, Capiba enfiou a caixa e mandaram o pacotaço para os “quintos dos infernos”. Os peixes que comessem tudo.

No porto do Rio, estavam à espera, os representantes do Coronel Arruda, todos circunspectos até demais. Deu pra desconfiar. Sérios demais para quem esperava devorar um “Bolo Souza Leal” legítimo.

Com ares risonhos e pedindo mil desculpas por não estarem mais com o pacotaço, os rapazes explicaram as razões, informando que uma autoridade naval havia recomendado a única solução prática para dar fim ao bolo “formigado”. Jogar a caixa no mar. Todos ficaram muito pesarosos e sairam cabisbaixos.

Sem documento do IML o material só seria aceito se fosse indicado que era um bolo, e embarcado por passageiro legalizado. O drama: Capiba havia jogado ao mar os ossos do saudoso Coronel Arruda, que seriam colocados no jazigo da família, no Rio de Janeiro.

Quem mandou transportar ossadas, indicando que era um “Bolo Souza Leal” E que seria transportado por dois turistas navegantes?!…

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