Triste encanto das tardes borralheiras
que enchem de cinza o coração da gente…
A tarde lembra um passarinho doente
a pipilar os pingos das goteiras…
A tarde pobre fica horas inteiras
a espiar pela vidraça, tristemente,
o crepitar das brasas nas lareiras…
Meu Deus! o frio que a pobrezinha sente!…
Por que é que esses arcanjos neurastênicos
só usam névoa em seus efeitos cênicos,
nenhum azul para te distraíres?…
Ah! se eu pudesse, tardezinha pobre,
eu pintava trezentos arco-íris
neste tristonho céu que nos encobre…

Mário de Miranda Quintana, Alegrete-RS (1906-1994)
M. Quintana, gaúcho de Alegrete, que viveu a maior parte e morreu em POA.
Nestes versos dá para imaginar as tardes do inverno gaúcho frias, sem sol e úmidas.
É um poema simples, fácil de entender e cheio de simbolismos.