Os Estados Unidos devem 36 trilhões de dólares. A China deve 15 trilhões. O Japão, 10 trilhões. A Alemanha, 3 trilhões. O Reino Unido, também 3 trilhões. A França deve 3 trilhões e meio. O Brasil está chegando aos 2 trilhões. Praticamente todos os países do mundo estão endividados. Estima-se que a soma das dívidas governamentais passe dos 150 trilhões. Empresas devem mais 90 trilhões, e pessoas físicas, mais 60 trilhões. O total passa dos 300 trilhões. Em 2024, essa dívida gerou o pagamento de 15 trilhões em juros, o que corresponde a 13% do PIB global. Mas quem são os credores dessa dívida?
1 – Os Bancos Centrais: O FED tem 5 trilhões de dólares em dívida do governo dos EUA. O Banco do Japão tem 5 trilhões de dólares em dívida do governo japonês. O Banco do Povo da China tem 3 trilhões de dólares em dívida do governo chinês. Bancos centrais globalmente detêm aproximadamente 25 trilhões em títulos dos governos de seus países. Isso representa menos de 10% da dívida total, mas essa dívida é a base do sistema: é a partir da emissão de títulos que todo o mecanismo se sustenta.
2 – Investidores institucionais: São instituições que usam os títulos como reserva financeira. Fundos de pensão: 50 trilhões. Seguradoras: 35 trilhões. Fundos mútuos: 25 trilhões. Fundos soberanos: 10 trilhões. Total: 120 trilhões.
3 – Governos estrangeiros: Governos detêm aproximadamente 30 trilhões em dívidas emitidas por outros países. A China possui 3,2 trilhões em ativos estrangeiros, incluindo 850 bilhões em títulos dos EUA. O Japão possui 1,1 trilhão em títulos dos EUA. A principal fonte disso é o comércio. Os EUA, por exemplo, compram da China muito mais do que vendem. Se a China exigisse pagamento em dinheiro, as vendas diminuiriam e ambos os lados seriam prejudicados no curto prazo. Assim, a China compra os títulos dos EUA e os EUA usam esse crédito para pagar a China. Em outras palavras, a China entregou produtos e recebeu em troca papéis que supostamente serão pagos no futuro.
4 – Famílias ricas: O 1% mais rico do mundo detém aproximadamente 40 trilhões em ativos financeiros, grande parte deles em títulos. E um quarto disso, 10 trilhões, pertence a aproximadamente 500.000 pessoas que constituem o 1% mais rico dentro do 1% mais rico. Em 2024, estas 500.000 pessoas repartiram 500 bilhões de dólares em juros.
5 – Pequenos investidores: Perto de 100 trilhões de dívida estão nas mãos de pequenos investidores e fundos de investimento, como por exemplo o Tesouro Direto no Brasil.
A questão importante é que as dívidas dos países foram planejadas para serem impagáveis. Na verdade, a dívida da maioria dos países é muito superior à sua base monetária, o que faz com que simplesmente não exista dinheiro suficiente para pagá-la. Exemplo: o Brasil deve 9 trilhões de reais, mas existem apenas 440 bilhões de reais em dinheiro. Se somarmos o “dinheiro virtual”, quantias que só existem nos computadores dos bancos, chegamos a 7,3 trilhões, o que ainda é menos do que a dívida. Ou seja, se o saldo de todas as contas bancárias e aplicações financeiras de todas as pessoas e todas as empresas do país fosse transferido para os credores, ainda ficaríamos devendo. Ao invés de chamar de empréstimo, o mais exato é dizer que os credores usaram seu dinheiro para comprar uma renda eterna.
Em 2024, os pagamentos globais de juros sobre a dívida foram de aproximadamente 15 trilhões de dólares. E este dinheiro não está pagando a dívida, nem mesmo uma pequena parte dela. Na verdade, nas últimas décadas a dívida de praticamente todos os países vem crescendo, às vezes mais lentamente, às vezes mais rápido, mas sempre crescendo, e sempre aumentando o valor que os pagadores de imposto entregam aos credores. Até quando?
A dívida global hoje representa 300% do PIB, e está crescendo 7% ao ano. O PIB está crescendo 3% ao ano. Matematicamente, a dívida global chegará a 500% do PIB por volta de 2035 se as tendências atuais continuarem. Isso não é sustentável. Em algum momento, algo vai quebrar. Aí, ou os governos dão calote, o que elimina a dívida mas colapsa o sistema financeiro, ou aumentam a emissão de dinheiro, que reduz a dívida por meio da desvalorização da moeda, mas destrói as poupanças, ou tentam “renegociar” a dívida, o que no fundo significa apenas empurrar o problema para frente, de preferência para depois da eleição.
Isso tem solução? Não. Na verdade, isso é uma consequência inevitável de um modelo de sociedade que permite que políticos façam o que bem entendem e deixem as consequências nas costas dos eleitores. Bancos centrais, moedas inflacionáveis sem lastro, governos que concedem a si mesmos o poder de fazer e modificar as leis que eles deveriam obedecer, tudo isso foi criado para substituir a escravidão antiga, aquela das senzalas e chibatas, pela moderna, dos impostos sempre crescentes e da obediência voluntária. Modificar isso não passa por decisões econômicas; passa por decisões políticas, quase inimagináveis hoje em dia, que começariam por tirar de Executivo, Legislativo e Judiciário o nome de “poderes” e colocá-los na posição de empregados da população. Não vai acontecer. Ao contrário, o que vai acontecer é que o sistema vai se sofisticar ainda mais para extrair o nosso dinheiro com maior eficiência.
Como disse um ministro do rei francês Luís XIV, “Cobrar impostos é como depenar gansos: devemos sempre tentar conseguir o máximo de penas com o mínimo de gritos.”