MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

“Tava jogando sinuca, uma nega maluca me aparece. Vinha com um filho no braço e dizia pro povo que filho era meu”. Este é o primeiro verso da música Nega Maluca, São Peninha que me acuda, gravada por Linda Batista. “Toma que o filho é teu”. Hoje a coisa se resolve com um exame de DNA e o atesto de uma paternidade deixou de ser coisa do outro mundo.

O Brasil virou essa “nega maluca”. Ninguém assume o filho e todos buscam mecanismos de driblar o exame de DNA. Atualmente, a culpa de todas as mazelas não é de quem promove as mazelas, mas que as faz, procura mecanismos legais para se livrar. O pior é que tudo se faz como se fosse tudo, absolutamente, normal. Por exemplo, numa entrevista o presidente disse que a taxa das blusinhas tinha sido coisa de Haddad. Ele nunca sabe o que acontece no seu governo e, mesmo quando faz alguma coisa, não assume. O mensalão, por exemplo, nunca existiu, mas ele disse em Paris que tinha sido caixa dois de campanha, recursos não contabilizados.

O filho do presidente, por exemplo, apareceu citado em relações obscuras com o “Careca do INSS”. Coisa bastante esquisita envolvendo, inclusive, interesses comerciais de implantação de uma empresa em Portugal para comercializar cannabis. Não se enxerga qualquer problema em compartilhar uma viagem ao lado de um cara que, para a polícia, cometeu crimes financeiros. Dias Toffoli também viajou até o Peru ao lado do advogado de uma empresa envolvida em falcatruas, mas isso não importa: o que é fundamental é ele ter tido que durante todo o trajeto se falou de futebol e nós, pobres mortais, devemos acreditar que foi isso mesmo se não quisermos nos deparar com um processo.

As desculpas dadas para comportamentos poucos republicanos são as mais estapafúrdias possíveis. Tome-se o caso da lobista Roberta Luchsinger com o ex-chefe de gabinete do presidente, o sr. Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola (este é do PT e não do PCC). Quando descoberto que a lobista transferiu dinheiro para Marcola, este se apressou em dizer que se tratava de um empréstimo pessoal.

O detalhe desse empréstimo era que ela ocorria mediante o pagamento de boletos bancários e muita gente se apressou em dizer que isso não deixa rastro. Não é bem assim. Eu posso pagar um boleto em nome de qualquer pessoa, a baixa do título aparece como pago, mas o comprovante de pagamento fica em nome, com o código de barras que foi pago. Na GRU, por exemplo, é necessário colocar o CPF do beneficiário, mas aparece o nome do pagador do título. O que houve entre Roberta e Marcola, nunca foi um empréstimo formal, foi uma troca de favores.

Não estou dizendo não ser possível existir um empréstimo entre duas pessoas físicas. Não há nenhum problema é fazer um empréstimo para um amigo, mas o que desconfigura isso é a frequência. Se todo mês tem alguém pagando meus boletos bancários, então vamos ser coerentes e entender que isto já se distancia bastante de qualquer “empréstimo”. O pior de tudo é que isso ocorreu com o chefe de gabinete da presidência da república e a providência tomada foi sair do cargo para trabalhar na campanha política do chefe e, agora, diante do tamanho do problema, Marcola é afastado da campanha “para não contaminar”. Putz! Sobrou alguma coisa não contaminada?

Qual o esforço em tudo isso? Resolver o problema? Não, absolutamente, não! O esforço é lutar para que os atingidos por denúncias sejam inocentados. Foi nesse sentido o famoso jantar na casa de Alexandre de Morais que contou com a participação do presidente da república, de Davi Alcolumbre e do advogado do presidente, Zanin. O interesse não era apaziguar as relações entre Lula e Alcolumbre, mas tratar de como contar o lamaçal que envolve cada um deles. Morais e Alcolumbre atolados com o caso Master e eles precisam de apoio do presidente para que a polícia federal não avance, não conclua e arquive as denuncias contra eles. Alcolumbre pretende concorrer à presidência do senado e precisa do apoio do presidente.

Morais, além de precisar de apoio no caso Master, precisa que o presidente do senado arquive os pedidos de impeachment em seu nome e o presidente precisa do apoio do STF para afastar as denúncias contra ele e seus familiares em casos pitorescos como o INSS e, agora, pelo declarado vínculo entre seu filho e Roberta Luchsinger. Apura-se tráfico de influência, afinal de contas uma visitinha de Roberta ao ministério da saúde, fez uma empresa ganhar um contratinho de R$ 85 milhões.

Esse é o Brasil atual: um país sem paternidade. A gente se reveste de esperança de que tudo isso mude, mas em tempos de inteligência artificial, o melhor artifício é fingir que está fazendo tudo certo.

2 pensou em “TOMA QUE O FILHO É TEU

  1. Caro Assuero, belo texto como sempre. O que me deixa revoltado é que PTistas e asseclas envolvidos em todo tipo de falcatruas, com essa mídia PIX no bolso dos poderosos, tudo parece natural e correto, trabalha-se para que mais uma vez, não dê uma dor de dente para nenhum dos envolvidos.

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