MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

Tenho quase sessenta anos, e uma coisa que nunca deixou de me espantar é a facilidade com que muitas pessoas acreditam com convicção em certas coisas argumentando que “todo mundo sabe disso”. Talvez porque eu tenha adquirido o gosto de ler sobre ciência muito antes do que a maioria, eu tenho o hábito de ser cético. Mas vamos ao caso concreto.

Durante muito tempo o alumínio foi um metal muito caro, de produção difícil. No final do século 19, era mais caro do que a prata. Mas a invenção de um sistema de produção chamado Hall-Héroult permitiu a produção em grande escala e a um custo cada vez menor. Na década de 1920, o alumínio já era barato e amplamente usado.

O processo Hall-Héroult, porém, tem um inconveniente: gerava grandes quantidades de fluoreto de sódio. Trata-se de uma substância tóxica e não-degradável, e livrar-se dela era difícil e caro, em uma época onde algumas preocupações com o meio ambiente já começavam a surgir.

Mas onde existe um interesse financeiro, as soluções aparecem. Em 1931, o Serviço Público de Saúde (PHS) dos EUA iniciou um estudo sobre os benefícios do flúor na prevenção de cáries. O PHS era subordinado ao Departamento do Tesouro, cujo chefe era Andrew Mellon. Depois de algum tempo, as pesquisas foram transferidas para o Instituto Mellon, que em 1939 enviu ao governo uma proposta para fluoretação da água, dizendo que os benefícios eram totalmente comprovados. Talvez interesse saber que Andrew Mellon, além de Secretário do Tesouro e bilionário, também era o dono da ALCOA, a maior fabricante de alumínio dos EUA na época (e até hoje).

1939 foi o início da Segunda Guerra, e a produção de equipamento bélico, especialmente aviões, aumentou enormemente o uso de alumínio. Quando a guerra terminou em 1945 era urgente achar um destino para o fluoreto de sódio. Neste mesmo ano, o PHS selecionou duas cidades do estado de Michigan para um experimento: uma delas receberia fluoreto de sódio na água, a outra não. Quatro anos depois, o governo cancelou o estudo e passou a colocar flúor na segunda cidade também. A explicação foi “demanda popular”. De fato, havia uma enorme campanha alardeando as vantagens do flúor, ainda que os dados científicos fossem poucos e muito recentes. Em 1950, quase 100 cidades americanas compravam o fluoreto de sódio das indústrias de alumínio para fluoretar a água distribuída à população. As indústrias se livravam do problema e os políticos posavam de bonzinhos e preocupados com o bem-estar do cidadão. Bom para todos, certo?

Bem, sempre há cientistas dispostos a ir mais fundo. Em 1956, um estudo comparando duas cidades, Newbergh e Kingston, descobriu que a incidência de câncer ósseo em jovens da cidade que colocava flúor na água era o dobro da cidade que não colocava. O estudo foi considerado “espúrio” e “irrelevante” pelas autoridades do governo. Outras pesquisas também mostraram resultados preocupantes.

O governo federal demorou mais de 20 anos para começar um estudo relacionando flúor com câncer, e o estudo levou 12 anos para ser concluído. O estudo mostrou que durante o período analisado, a incidência de câncer ósseo em jovens diminuiu 4% nas cidades que não usavam flúor e aumentou 70% nas cidades que usavam. O governo criou uma comissão “neutra” e “imparcial” que concluiu que os dados eram “espúrios” e “irrelevantes”.

De lá para cá, dezenas de estudos foram feitos, enquanto a indústria de alumínio continua recebendo dinheiro público para se livrar de algo que antes era um problema. É fácil perceber que os estudos a favor do flúor são amplamente divulgados e elogiados por “especialistas”, enquanto os que mostram problemas são geralmente criticados. Talvez o caso mais chocante seja o da Nova Zelândia: O Dr. John Colquhoun era presidente do Comitê para Promoção da Fluoretação, e o mais ardoroso defensor do uso do flúor. Decidido a provar seu ponto de vista, realizou uma grande pesquisa nacional, cujo resultado mostrou que a a percentagem de crianças sem problemas dentais era maior em áreas não-fluoretadas da Nova Zelândia, do que na parte fluoretada deste país. O departamento nacional de saúde não permitiu que Colquhon publicasse a pesquisa e o demitiu do posto de diretor de saúde dental.

No momento, o assunto voltou à tona porque o novo secretário de saúde dos EUA, Robert Kennedy Jr., já se manifestou contra a fluoretação e promete usar a força do governo federal contra ela.

Neste momento eu imagino o leitor pensando: “Espera aí, esse maluco do Marcelo está dizendo que colocar flúor na água não é bom? Claro que é! Todo mundo sabe disso!”. Pois é, leitor, lembra do primeiro parágrafo? Eu não sou dentista nem oncologista, e não tenho conhecimento para julgar por mim mesmo se flúor na água é bom ou não. O que eu posso fazer é procurar várias opiniões e tentar avaliar a credibilidade de cada uma. E nesse caso me parece óbvio que existem interesses econômicos e políticos poderosos envolvidos na questão.

Basta puxar um pouquinho pela memória para lembrar de outros casos. Nos anos 70, o mundo estava quase conseguindo erradicar a malária com o uso do DDT. De repente, o DDT foi proibido, a malária voltou, e todo mundo hoje tem certeza que o DDT é perigoso porque todo mundo sabe disso. Nos anos 80 algumas substâncias industriais da categoria dos CFCs foram proibidas porque iriam destruir a camada de ozônio e hoje todo mundo sabe disso. A pandemia de covid só acabou graças ao governo que vacinou todo mundo e todo mundo sabe disso. Aliás, tudo que o governo faz é para o nosso bem e todo mundo sabe disso.

Para deixar bem claro: eu não estou afirmando que o DDT não é perigoso ou que os CFCs são seguros. Estou dizendo que eu não sei e a maioria das pessoas também não sabe, porque é preciso um conhecimento técnico muito específico para poder ter uma opinião embasada. O que eu estou afirmando é que muita gente acredita em uma coisa simplesmente porque essa coisa foi repetida à exaustão em campanhas bem planejadas e bem pagas, onde quase sempre existe um interesse por trás. Em um tempo onde está na moda xingar os outros de “gado”, um bom hábito para quem não deseja ser parte de um rebanho é refletir bastante antes de acreditar em algo que ouviu.

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