No primeiro semestre, num aeroporto sulista, adquiri um livro com o título Prosa Morena. A viagem acabou, atividades diferenciadas foram concluídas e o conteúdo do livro não me saiu mais da cabeça, tantas as cócegas desenvolvidas nos meus interiores de nordestino. Seu autor, Jessier Quirino, colunista do JBF, se declara arquiteto por profissão, poeta por vocação e matuto por convicção. De Campina Grande por nascimento, alojou-se com seus teréns e neurônios em Itabaiana, onde vive sem medo algum de ser afoito. Uma afoiteza que lhe possibilita “evangelizar” os abestalhados de sempre, a grande maioria metida a urbanitas, sem compreensão devida da sabedoria dos iletrados e pouco versados nos porompompons letristas das capitais, onde não se vive mais com as satisfações de antigamente, todo mundo afogueado nuns tempos cada vez mais diminutos e nuns espaços tão apertados onde nem soltar mais um pumzão se pode, pois assusta a vizinhança amontoada do derredor, que logo imagina tiro.
Embora não conhecendo o Quirino pessoalmente, com ele fiquei mais íntimo a partir das orelhas do livro escritas pelo Luiz Berto, um sempre gota serena de arretado, autor de O Romance da Besta Fubana, um dos melhores livros por mim já lidos e relidos, imaginário regional a mais de mil, recheado de muita filosofia existencial, sem qualquer salamaleque. Nordestino que nunca leu O Romance da Besta Fubana não sabe o que está perdendo de nordestinidade legitimadora.
O livro do Jessier Quirino começa apregoando que “neste mundo tem gente pra tudo e ainda sobra um pra tocar gaita”. Manda pauladas boas num compadre dele, Mané Cabelim, raparigueiro que só, que gastou um bocado de reais na fundação de um “conjunto dançarineiro” para assentar em cima de um trio elétrico, inaugurando uma putanhagem fora de época nos quintais municipais. Para ver se alimentava a vontade do eleitorado em sufragar seu nome neste ano, época de promessas mil, todo mundo de anjo, jurando mundos e fundos, incluídos os assentados nas calças próprias, nas moçoilas moeda de troca nas horas mais desesperançosas.
Gosto que me arrepio todo de gente inteligente, que ensina os outros a levar a vida sem muita consideração diplomática, batendo palmas de gozo diante da funerária Vai que é tua Paraíso, concorrente daquel’outra, sediada em Campina Grande, registrada em cartório como A Caminho do Céu, tanto uma como outra esmero nota dez para os beneficiados com um despachamento chorosamente correto.
Aprecio como ninguém um poeta como Jessier Quirino, que denomina, com muita propriedade, lua cheia de lua de tapioca, homenageando as quentínhas dobras goma-coco-ralado-sal-de-pouco. E ainda muito me deleito com algumas fichas de pensão, uma delas da Pensão da Véa Duda, patrocinada pelo Sabão Rendoso. Num dos cantos da ficha, o quesito Motivo da Viagem tem quatro alternativas: Negócio, Romaria, Retirante e Raparigagem.
O Jessier Quirino, com seus versos “evangelizadores” quer mostrar pro mundo inteiro que nos interiores nordestinos tem gente de muita grandeza intelectiva, que embora nada saiba de abêcê, sabe latir pra poupar cachorro, e que diante das indagações dos visitantes, sempre declara de pronto: Cumpadre, eu me acho velho / Caco de bunda tremendo / Não tou liso nem roubando / Mas tou platando e colhendo / Às vezes rindo ou chorando / Viúvo, não tou amando / Tou lucrando, não devendo. E para mostrar sua diferença biológica com os da cidade, conclui sua cantoria proclamando: Esperto, não estou bestando / Nem jogando, nem bebendo / Nem perdendo nem ganhando / Tou calmo não tou inchando / Tou vivendo e aprendendo.
O livro do Quirino é para quem não perde as estribeiras, que pensa mais que copia, que nunca pia, guardando o troco para depois. Gente abençoada por Deus, apesar das embromações religiosas catadoras de trocados. Gente que já percebe como o blá-blá-blá é coisa fingida, enquando o propinoduto continua a pleno vapor, sem prisão alguma. Sempre a prejudicar o forever da gente.