Olhos do meu Amor! Infantes loiros
Que trazem os meus presos, endoidados!
Neles deixei, um dia, os meus tesoiros:
Meus anéis, minhas rendas, meus brocados.
Neles ficaram meus palácios moiros,
Meus carros de combate, destroçados,
Os meus diamantes, todos os meus oiros
Que trouxe d’Além-Mundos ignorados!
Olhos do meu Amor! Fontes… cisternas..
Enigmáticas campas medievais…
Jardins de Espanha… catedrais eternas…
Berço vinde do céu à minha porta…
Ó meu leite de núpcias irreais!…
Meu sumptuoso túmulo de morta!…

Florbela Espanca, Vila Viçosa, Portugal (1894-1930)
Uma declaração apaixonada da Florbela não é uma coisa sonsa, água com açúcar dos românticos que vez por outra aparecem nestes espaços.
É visceral, enigmático…
“Ó meu leite de núpcias irreais!…”
Uma letra trocada em uma palavra “leito de núpcias” por “leite de núpcias” deixa nossa imaginação ir longe.
Sou fascinado pela Florbela.