A PALAVRA DO EDITOR

Já vai pra três meses agora em junho que João não tem aulas no seu colégio.

Levá-lo todos os dias da semana era uma tarefa que eu e Aline cumpríamos com um prazer enorme.

Agora, por conta da quarenta compulsória, ele tem aula em casa, via computador, ao vivo e a cores, com imagem e som.

Coisas desses tempos modernos.

Começa às 7 da manhã e vai até o meio-dia.

Assim que termino o expediente desta gazeta escrota e boto as postagens nos ares, vou lá pra sala, me sento na mesa e, como de costume, vou ler, escrever ou atualizar os fuxicos e mensagens do zap.

E fico só ouvindo as falas dos mestres e das mestras de João, devidamente fardado, olhando sua cara e a dos colegas na telinha do computador.

Mergulho na geometria, reviso meu inglês, revejo pontos da história do Brasil e do mundo, tomo conhecimento da geografia dos novos tempos, redescubro coisas do organismo dos animais, viajo pelo universo e por outras galaxias e aprendo como interpretar um texto.

Ontem, na aula de história, a professora citou Dante Alighieri e a sua obra, A Divina Comédia.

Eu chega arregalei os zóios e se espantei-se-me todinho.

Depois mostrei pro João o exemplar desse livro do genial italiano, que tenho aqui na minha estante.

Seu Luiz, meu saudoso pai, era um matuto agrestino, rudemente alfabetizado nas letras da vida e que tinha uma visão de mundo da porra.

Quando chegava alguém no balcão de sua bodega, reclamando dos tempos modernos e falando em saudades do passado, Seu Luiz dava logo um esporro:

– Passado merda nenhuma! Tempo bom é o presente, o hoje em dia. Tem telefone, tem rádio, tem remédio pra gonorreia, tem televisão e tem até avião pra gente avuar nos ares. Te dana com tua conversa: o passado era um atraso.

Seu Luiz tava certo: o passado era um atraso.

Num tinha nem internet pra assistir aula em casa e nem tinha Viagra pra macho sem forças endurecer a bimba.

Vôte!

11 pensou em “TEMPOS MODERNOS

  1. Sei que discordar do pai do dono da empresa pode resultar em sumária demissão, mas (ousado mas), reclamo dos tempos modernos e falo em saudades do passado, porque a selva de pedra e a violência urbana tomaram conta de quase tudo.

    Hoje o Severino Souto postou foto de açude (açude do poço, d’alvorecer). Quantos garotos das grandes cidades tiveram o prazer que o menino Sancho (Polifásio Fermônico de Almôndegas) teve nadando em um açude parecido com o da foto? E as brincadeiras na rua (saudade do pique-bandeira (captura à bandeira, também conhecido como rouba bandeira)? E as peladas com a bola de capotão? E a ausência de drogas?
    E cavalgar nos cavalos do “pai do Miltinho”? E “roubar” frutas no quintal do ranzinza señor Bartholomeu? E etc, etc, etc (Un largo etcétera que haría demasiado extensa esta reflexión.)

    • Sancho, seus comentários são uma atração à parte nesta gazeta!
      Eu fico ancho feito pinto ciscando num terreiro de Viltamilho quando dou com um comentário seu.
      Você é f…!
      Fera.

      • Em minha Desengano natal a gente falava que ficava como “pinto no lixo”, quando a alegria era grande.
        Abraço grande gigante MIÚDO,
        E um até sempre!!!!!!!

  2. Eu agora me lembrei do velho Cocó, acariense, baixinho, magro, que foi morar no Rio de Janeiro naquelas eras de 1940; muito amigo do meu avô Chiquinho, do meu tio Zeca e do meu pai, que quando ele saiu ainda era menino.
    Voltando Cocó pela primeira vez já quis levar meu pai para o Rio de Janeiro no final dos anos 50, após papai haver servido o exército. Mas não deu certo.
    Em sua volta definitiva para Acary já aposentado com mais de oitenta anos, ali no começo dos anos 1990, após quase quarenta anos sem pisar por aqui, já me encontrou homem feito casado, pai de dois, e aí sentávamos todos os dias pela manhã nos batentes do escritório da velha algodoeira, que papai tomava conta, rodeado por gente toda nascida antes de 1950. Eu no meio deles.
    Um dia nesse mesmo lenga-lenga “que tempo bom era o passado”, Cocó se levantou brabo, batendo nos fundos das calças. “Tempo bom é o de hoje, que minha filha mora no Japão e fala comigo todo dia se eu quiser. Pela televisão vejo o que acontece nos Estados Unidos, na Alemanha, no Brasil e na Europa inteira. Tempo bom é o de hoje! Antigamente o homem mais rico de Acary era Zé Evaristo, e quando ele cagava, se quisesse limpar o cu com algo macio, tinha que usar um sabugo de milho. Hoje em dia nem jornal se usa mais! Minha mulher mesmo me chamou de seboso, porque outro dia eu estava cortando um para me limpar.”
    Pronto.

  3. Sensacional, Berto! Magnificas são as suas leseiras profundas, profanas e escrotas. Cuidado! Não vá bater as botas se afogando na falta de ar. O bicho Covid é traiçoeiro. Meu abraço.

    • Fique tranquilo, meu amigo. Tomo as providências necessários e me cuido. Mas não me deixo dominar de modo algum por essa histeria que domina as pessoas. É mais fácil eu matar o Covid do que ele me pegar!!! Abraços e bom final de semana.

  4. Luiz Berto é um homem feliz porque é um homem simples, apesar do gigantismo de sua capacidade intelectual.

    Vive cercado só de gente simples, talentosas, honestas e honradas que colaboram e fazem do JBF, sua obra-prima, uma referência mundial.

    Sua simplicidade me lembra muito o grande compositor e poeta caririense, Luiz Fidélis, da terra de Xico Bizerra, que poderia ser um homem milionário se tivesse aceitado os conselhos de Emanuel Gurgel para sair do Crato e ganhar o mundo com suas composições, mas preferiu fincar no seu sítio nas encostas do Juazeiro-Ceará, e lá andar a cavalho toda tarde com sua esposa Darineia, musa inspiradora, os filhos, pastorar seus rebanhos e está em harmonia com a natureza bruta mas rica em virtudes que o homem não pode dar.

    Parabéns, Grande Mestre!

    • Escreve Cícero: “Luiz Berto é um homem feliz porque é um homem simples, apesar do gigantismo de sua capacidade intelectual.

      Vive cercado só de gente simples, talentosas, honestas e honradas que colaboram e fazem do JBF, sua obra-prima, uma referência mundial.”

      Como seu texto “não exclui ninguém” ao citar que o genial editor vive cercado de gente…

      Suas palavras fizeram Sancho se sentir como Berto, que diria algo como:

      Êita peste!!! Mais uma vez tô aqui ancho que só a bixiga lixa, avuando nas asas da satisfação.

  5. Estando com saúde, que, depois da vida, é o bem mais precioso que existe, é estranho dizer, mas o “isolamento compulsório” está dando oportunidade de sentirmos de perto o valor das coisas boas que a vida nos proporciona. São momentos inesquecíveis e gratificantes, que não tem preço., Não tem preço essa cena, eternizada na foto, retrato da vida, onde pai e filho estão lado a lado, um apreendendo, outro reaprendendo. Os caminhos percorridos desembocam agora na modernidade, sem que o saudosismo seja anulado. .

    Grande abraço, Berto, João e Aline! Bom domingo!

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