CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

Cine Teatro Apollo, localizado em Palmares, é o mais antigo do interior de Pernambuco. Fundado em 6 de dezembro de 1914 – Foto de C.C .Hermilo

O Teatro entrou na minha vida por descendência. Meu avô paterno, João Pacífico Ferreira dos Santos, além de Juiz de Direito, era jornalista, escritor, poeta, professor, político e teatrólogo.

Isto sem falar que quando acadêmico de Direito lutou com Joaquim Nabuco contra a escravidão. Por estas qualificações foi imortalizado com seu nome num dos logradouros do Recife: Rua Pacífico dos Santos, no antigo bairro do Paissandu.

Durante vários anos, logo que se casou, residiu em Palmares onde produziu a maior parte de sua obra teatral, mesmo sendo pai de cinco filhos.

Escreveu várias peças, algumas das quais encenadas, tendo iniciado com “Amor que salva”, levada ao palco em 1904 na cidade de Ribeirão, Pernambuco e as demais em Palmares.

De sua cartela de produção, (que consta em livro escrito à mão em minha estante), fui encontrar algumas indicações dos seus trabalhos, os quais transcrevo os títulos, com a grafia da época.

Para o teatro: “Consequências do Ciúme” (representada); “Chufas e Lufas”; “Palmares na Ponta” (representada); Ribeirão em cena; “Effeito magnético”; “Filho da sciência”; “Bendengó Assu”; “Amor que salva”; “Charlatães” e “Sogra domesticada”.

Papai viveu esses momentos em que vovô Pacífico, já morando no Recife, e com família ainda mais numerosa, pois sendo viúvo casara-se novamente, escrevia até altas madrugadas.

Além de jornalista mantinha intenso programa de trabalho profissional. Partícipe da política aliou-se à Campanha do General Emídio Dantas Barreto, que derrubou a oligarquia de Rosa e Silva, sofrendo inclusive um atentado à bala, na Pracinha do Diário.

Folhas da peça “Amor que Salva”, escrita por Pacífico dos Santos, encenada em Ribeirão, PE., em 1904

E diante dessa ascendência colateral, observando suas técnicas e ensinamentos, fui herdando o gosto para a escrita e o teatro. Assim – como disse acima – por tal influência, ingressei no nos trabalhos nde palco e no jornalismo, porque via meu velho – semelhante ao procedimento de meu avô – atravessar as madrugadas escrevendo, aproveitando uma antiga máquina “Underwood” semi-portátil.

O Recife até 1950 não conhecia a Televisão, tornando o teatro e o cinema os pontos de divertimentos chic das famílias. Como o cinema era a diversão mais popular, a arte teatral e musical, com as operetas e apresentação de cantores famosos, eram oferecidas ao público nos teatros. Presenciei no Santa Isabel e no Teatro do Parque, apresentações de Sílvio Caldas, Orlando Silva, Carlos Galhardo e Francisco Alves.

Tudo muito alinhado. Cavalheiros de terno completo e os cantores acompanhados por orquestras. Os espectadores sentados em poltronas confortáveis e camarotes exclusivos. Muito diferente de hoje, quando as multidões alucinadas gritam de pé, com os braços para cima como quem pede socorro.

A cultura teatral e o chamado Teatro de Revista, no Recife – começou a aparecer com a formação de grupos artísticos locais e se intensificou a partir de 1927, com produção de operetas produzidas em nossa terra.

Uma das primeiras operetas levadas à cena no Recife foi “Bobby e Bobette”, escrita por Valdemar de Oliveira com a colaboração de seu amigo Samuel Campelo, apresentada no Teatro Santa Isabel pelo Grupo Gente Nossa.

Na década de 1950, conforme pude observar, foram surgindo novos teatrólogos em Pernambuco, os quais abasteceram os grupos de artistas que se foram formando na Capital, alguns dos quais encenando peças de autores de nossa terra, como Aristóteles Soares (de Catende), Pacífico Sobrinho (de Palmares) e Isaac Gondim Filho (do Recife).

Montando peças de autores da Região os novos grupos de teatro divulgavam também nossa cultura e expandiam o prestígio do nosso teatro pelas cidades do Sul.

Assim, ainda aos 15 anos, espectador de um desses movimentos – o Grupo Teatral de Amadores do Atlético – dirigido por meu pai, fui aproveitado para atuar como ator. Iniciei-me com participação na peça “As Árvores”, de Aristóteles Soares, no teatro do Atlético, no bairro de Afogados.

Depois fui integrado ao Teatro de Amadores de Pernambuco e excursionei ao Rio de janeiro, conforme comentei em crônica anterior, que ora dou prosseguimento, como se fosse uma peça teatral.

Quando chegamos ao Aeroporto Santos Dumont, do Rio de Janeiro, e fomos recebidos por significativo grupo de pessoas da Colônia de Pernambuco, sob aplausos. O entusiasmo era tão grande que me deu a impressão de sermos uma equipe de teatro internacional.

Em se falando de Teatro, transfiro para a próxima crônica os comentários da Imprensa carioca, sobre o Teatro de Amadores de Pernambuco, cujos recortes guardo há quase 70 anos. Vou transcrever observações de um garoto de 15 anos que chega à Capital da República para se apresentar num teatro.

Narrarei o que foram nossas apresentações no Teatro Regina, do Rio de Janeiro; detalhes sobre os procedimentos técnicos, a participação de Ziembinski e muitas história engraçadas sobre esse polonês na direção do meu espetáculo. Falarei das montagens, das apresentações, das reações do público e da mídia.

São detalhes que não podem ficar esquecidos dos meus descendentes. Afinal, como diria o velho Arthur Santos: “Essa minha “cachaça” por teatro veio por descendência.” Assim digo eu!…

3 pensou em “TEATRO EM VÁRIOS ATOS

    • O Teatro é uma arte viva e por isso mesmo empolgante.

      Tem-se que, de fato, encarnar os personagens, a começar pelo estudo de seus modos de andar, sentar, de falar e até imitar seus sotaques e tiques.

      Decorar as falas já é um dos maiores desafios.

      Mais viva é esta arte, portanto, por se tratar de provocar o espectador ao vivenciar os sentimentos que ali estão diante de seus olhos, bem, vivos, pois representados pelos atores no palco, diferente do cinema ou da televisão, quando as cenas podem ser cortadas, consertadas, enxertadas e regravadas.

      No teatro a gente não pode esquecer nem errar uma fala.

      Nos anos 50 ainda se podia contar com o “Ponto”, uma pessoa que lia toda a peça em voz alta para que nós atores não nos perdêssemos. Além co “Contra-regra” que marcava a entrada dos atores na vez de representar.

      No Teatro Santa Isabel, haviaa um velhinho arretado, que ficava socado num buraco no palco e lia tudo em voz alta, como se ele fosse a sombra sonora de todos aqueles que estavam no palco:

      “Coleguinha” era seu apelido. Ele era todos ps artistas saindo de uma única boca.

      Vou me expandir mais, na próxima crônica inclusive falando dos três únicos atores daquela peça – Sangue Velho” – que ainda estão vivos: eu Reinaldo e Geninha Rosa Borges.

      Mais uma vez grato por seus comentários.

      Um abração,

      Carlos Eduardo

  1. Pelo visto, parece que a história do teatro brasileiro começou no Recife. Aguardemos novos capítulos dessa história contada por quem dela participou.

    Grato Carlão pelo resgate dessa história

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