Quando chegaste enfim, para te ver
Abriu-se a noite em mágico luar;
E pra o som de teus passos conhecer
Pôs-se o silêncio, em volta, a escutar…
Chegaste enfim! Milagre de endoidar!
Viu-se nessa hora o que não pode ser:
Em plena noite, a noite iluminar;
E as pedras do caminho florescer!
Beijando a areia d’oiro dos desertos
Procura-te em vão! Braços abertos,
Pés nus, olhos a rir, a boca em flor!
E há cem anos que eu fui nova e linda!…
E a minha boca morta grita ainda:
“Por que chegaste tarde, Ó meu Amor?!…”

Florbela Espanca, Vila Viçosa, Portugal (1894-1930)
“Quando chegaste enfim, para te ver…”
Quem chegou? O amor, não o amor pagão.
Não há desejos carnais ou volúpia nestes versos.
Apenas uma espera ansiosa, mas serena.
Quem chegou, chegou para a Florbela ver e não o contrário.
E que chegada; milagres, noite a iluminar, pedra a florescer…
Nunca é tarde demais.