DEU NO JORNAL

Luís Ernesto Lacombe

Corria o ano de 1998. O presidente era Fernando Henrique Cardoso, e as invasões de terra se multiplicavam. Apenas naquele ano seriam 599, e em várias regiões do país, inclusive o Rio de Janeiro, meu estado. Eu tinha, então, dez anos de carreira no jornalismo. Como repórter, fui deslocado pela chefia até Seropédica, no Grande Rio, para cobrir a invasão de uma fazenda. Minha equipe foi a primeira a chegar ao local. Havia cerca de 70 pessoas do MST e dois carros da Polícia Militar, apenas oito policiais no total. Ainda assim, eles já tinham convencido os invasores a deixar a propriedade, e tudo parecia calmo. Com a aproximação do nosso carro de reportagem, o clima mudou. Imediatamente, as pessoas que já estavam sentadas na estrada de terra, fora da fazenda, ergueram-se, aos gritos, contando com o testemunho de uma câmera de televisão, para tentar uma nova invasão.

Não demorei a perceber o que acontecia e orientei meu cinegrafista, ainda no carro, a não sair para registrar imagens. Ficou muito claro para mim que nossa presença, pura e simples, estava interferindo naquela história jornalística. Assim que paramos, fui na direção dos invasores e pedi a eles que se acalmassem, menti: “Estou vindo de outra reportagem aqui perto, e nossa câmera quebrou. Não tenho como registrar nada. O envio de outro equipamento pode demorar horas”. Deu certo. Em seguida, caminhei até os policiais e disse a eles a verdade. Nossa câmera funcionava perfeitamente, mas eu não podia permitir que meu trabalho servisse, de alguma forma, como estímulo e proteção para a perpetuação de um crime. Os policiais me agradeceram, e deixei o local.

Quantos jornalistas entendem que devemos evitar ser parte de uma pauta, de uma matéria? A não ser no caso de um jornalismo que se aproxima do entretenimento. Quantos compreendem que há muitos limites nessa profissão de contadores de histórias reais? É fundamental não interferir em acontecimentos, ter um olhar de fora, uma presença discreta, que não promova deturpações, reviravoltas, a quebra do caminho natural de uma reportagem. E já testemunhei tantos tropeços… Comportamentos estimulados por jornalistas para a captação de imagens, falas de entrevistados sugeridas por repórteres, tiro de revólver transformado em rajada de metralhadora na ilha de edição… Já vi muita enganação, para “produzir” uma pauta que a realidade não confirmou, ou para torná-la mais “atraente”, mais “impactante”.

Agora, jornalistas vão além, enxergam-se como personagens de matérias. Eles são a pauta! E, pior, surgem como vítimas, com a desculpa de que o público precisa enxergá-los como seres humanos, para “desfazer uma ideia equivocada que esses dias tão difíceis ajudaram a criar na imaginação de muita gente”. Não, não tem nada a ver com o desapego a fatos para a imposição de narrativas… Eles trabalham “por nós, pelo nosso país”, num discurso de militância estudantil. Tanto “sacrifício”, tanto “sofrimento”. São seres iluminados, que decidem enviesadamente o que nos contar e como contar. Não são mais profissionais sérios da comunicação. Tadinhas das pessoas comuns, tão comuns.

1 pensou em “TADINHOS DE NÓS

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