JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

Sabiá Laranjeira tem um cantar cativante

“A todo mundo eu dou psiu
Perguntando por meu bem
Tendo o coração vazio
Vivo assim a dar psiu
Sabiá vem cá também

Tu que andas pelo mundo
Tu que tanto já voou
Tu que cantas, passarinho
Alivia minha dor
Tem pena d’eu
Diz por favor
Tu que cantas, passarinho
Alivia minha dor”

Comer paca (cuniculus paca) é proibido?

Nascendo e vivendo na roça, a gente (por extrema necessidade e para não morrer de fome) come tanta coisa, que, sinceramente falando, entendo que, quem defende e afirma essa atitude ser criminosa, nunca ouviu o “ronco das tripas vazias”.

Tem tanta coisa com as quais deveríamos nos preocupar mais: a água que bebemos, é realmente potável? Você tem certeza que, comprando aquele garrafão d´água, vai beber a água saudável?

Pois, assim como entendo como “frescura moderna que passamos a adotar”, entender como crime o consumo da paca, muito mais ainda, entendo como idiotice considerar crime “espantar as baleias com o ronco do jet-ski.” Coisa de quem não tem o que fazer!

Lá pelos anos da década de 50, meninos usando calças de suspensórios, apurava uns trocados para comprar as figurinhas do álbum, pegando e vendendo jias. Quem consumia eram os padres-professores do Colégio Piamarta que, naqueles anos funcionava no bairro Montese, em Fortaleza.

Quem era o “criminoso”: quem pegava para vender ou quem comia as jias?

Mas, claro, não era qualquer “jiazinha”. Era uma espécie que se desenvolvia nas valas que existiam no Canal do Jardim América. Os padres eram holandeses – e valorizavam tanto as jias, que as preparavam para comê-las aos domingos.

Eis que, longe dali, sofrendo as agruras e a fome braba provocada pela seca no Ceará, a meninada despreocupada com as leis, pegava seus bodoques e baladeiras e saíam para “caçar o dicumê”. Na volta, às vezes, trazia até cobras jibóias – mas era comum trazer também camaleão (iguana, que, sem folhas verdes para comer, ficavam cinzentas), teiú, paca, tatu, rolinhas e beija-flor.

Ficávamos na dúvida entre praticar o crime (que desconhecíamos naquela idade) pelo abate dessas espécies e morrer de fome.

Claro, não foi esse o caso do “sem-o-dedo-mindim”!

Arapuca para pegar sabiás

Eis que, quem me deu o prazer de ler estas mal traçadas linhas, e se leu com atenção, deve estar se perguntando: e por que o sabiá?!

Lenda ou verdade, aprendemos naquela idade que, Sabiá Laranjeira e Anu Branco ou Preto, quem “mata para comer” jamais terá um bom futuro pela frente.

E, menino acredita em tudo que os mais velhos falam. Menino acredita até que matar para comer paca não é crime, como também não é crime trocar o voto nas eleições por promessas que jamais serão cumpridas.

E por que procurar Melão São Caetano para fazer chamariz para o Sabiá Laranjeira?

O Sabiá, dizem os “antigos”, mesmo estando preso na arapuca, vai continuar cantando – e o cântico vai atrair fluidos positivos para aproximar outros animais “caçáveis e comíveis”.

Lenda?

Há quem acredite em lobisomem e Saci Pererê, ou no Diabo sem “dedo-mindim”!

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