MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

A frente fria faz parte de Curitiba. Assim como a praia no Rio de Janeiro, e os coqueiros em Maceió, é um personagem quase que obrigatório em qualquer história aqui contada.

As frentes frias nascem lá no sul, próximas à Antártida. Viajam pelo Atlântico Sul e costumam entrar no continente americano lá pelos lados do Uruguai. Dé lá, sobrevoam o Rio Grande do Sul e Santa Catarina e vem se estabeler em Curitiba.

Durante o verão, a chegada da frente fria ocorre com estardalhaço: primeiro um calor abafado, sufocante, desconfortável (vale lembrar que “calor” para curitibano é qualquer coisa que passe dos 22º). Depois, o céu se enche de nuvens pretas, que se anunciam com raios e trovoadas. Ventanias varrem alguns bairros, enchendo as ruas de galhos caídos e destelhando alguma casa construída com mais fé do que engenharia. Começa uma chuva grossa. Depois de uma meia hora, a chuva vira uma garoa que vai sumindo aos poucos. O calor foi substituído por um friozinho úmido.

No inverno, as frentes frias são mais discretas. Às vezes, dispensam totalmente os raios e ventanias, e chegam apenas com uma chuva fina que dura o dia inteiro. O que é certo em qualquer época é a ausência do sol, tampado por uma grossa camada de nuvens que se estende até o horizonte em todas as direções. Durante dois ou três dias, às vezes mais, Curitiba fica com uma cara triste, escura, sem cores, sem sombras. O branco e o preto parece que se misturam e tudo fica meio cinza.

É bastante provável que as frentes frias sejam um ingrediente importante na personalidade do curitibano, que tanto espanta alguns turistas de lugares mais ensolarados. A frente fria não convida a sair pela rua, a conversar com estranhos, a praticar esportes, a mostrar-se, desinibido. Não. A frente fria convida a ficar em casa, de preferência com um cobertor sobre os joelhos, se possível comendo um pinhão preparado no fogão à lenha. Não é uma fobia social: é perfeitamente aceitável receber os amigos para comer uma pizza ou tomar um vinho, mas sempre dentro de casa. A Curitiba das frentes frias não tem espaços públicos: as ruas, as praças, os parques, são apenas caminhos a percorrer entre um lugar e outro.

Enquanto olho a frente fria pela minha janela, recordo-me de um caso, narrado como verídico por vários autores curitibanos. Foi por volta de 1870. Não há confirmação de havia uma frente fria na cidade, mas é provável que sim. Sabe-se que era uma noite escura, talvez de lua nova. Já era tarde quando o prefeito saiu da catedral. Possivelmente estivera tratando algum assunto de interesse público com o bispo, autoridade importante e indiscutível na vida da cidade.

O espaço à frente da catedral, que hoje é conhecido como Praça Tiradentes, na época era apenas um grande descampado, que o senhor prefeito precisava atravessar, na escuridão da noite, para chegar à sua residência. Infelizmente, no meio do alto capim que cobria a praça, dormia uma vaca. O pobre prefeito, que andava quase às cegas, tropeçou, rolou por cima da vaca e esborrachou-se no chão enlameado, rasgando sua casaca.

Conta-se que na mesma semana uma sessão extraordinária da Câmara de Vereadores discutiu a necessidade da iluminação pública, e em poucos meses Curitiba ganhou seus primeiros lampiões.

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