Não me ouvirás… É vão… Tudo se espalha
pelos ermos de azul… E permaneces
sobre o vale das súplicas e preces
com solenes grandezas de muralha…
Minha alma, sem te ouvir nem ver, trabalha
tranqüila. Solidão… Desinteresses…
Por que pedir? De tudo que me desses
nada servira a esta existência falha…
Nada servira, agora… E, noutra vida,
oh! noutra vida eu sei que terei tudo
que há na paragem bem-aventurada…
Tudo, – porque eu nasci desiludida,
e sofri, de olhos mansos, lábio mudo,
não tendo nada e não pedindo nada…

Cecília Benevides de Carvalho Meireles (1901-1964)
Eu vejo neste Soneto uma conversa com Deus de alguém que já viveu a vida.
Não é uma conversa rancorosa, tampouco de súplica; é uma conversa serena.
Alguém que recebeu muito, porém permaneceu só, tranquila no seu trabalho.
Demonstrou a fé de que sua vida não foi em vão; “…noutra vida eu sei que terei tudo que há na paragem bem-aventurada…”
O soneto alimentou minha alma.