FERNANDO ANTÔNIO GONÇALVES - SEM OXENTES NEM MAIS OU MENOS

Acredito que todo ser humano desprovido de uma mínima cultura humanística muito se assemelha aos que, se retirando da frente do espelho, onde só contemplam seus próprios apetrechos corporais, logo esquecem sonhos e ambições, direitos e potencialidades, amor próprio etc. e tal. E nada assimilam para corretamente interpretar as características de suas atitudes, tornados inaptos para um agir reflexivo. Sem tal agir, caminharão alienados pela vida afora, ratificando mandamento consagrado: mente carecida de criticidade, futuro sem alicerces, existência nunca prazenteira, apesar dos físicos sarados, botox e silicone. Muiros até desfilando de camisa aberta com bolsa de colostomia à mostra, como troféu conquistado.

Não tropeçar no binômio pensar-agir é tal e qual o desempenho daquelas naus levadas a portos seguros sob comando de timoneiros conhecedores do ditado “quem sabe onde quer chegar, escolhe o caminho certo e o jeito de caminhar”. Navegante que se preza se acautela diante dos que apenas elogiam, também se esquivando dos imediatistas que se gabam das vitórias de Pirro que a nada conduzem.

Para os do hoje e os do amanhã, juventude em flor, toda cautela é pouca. Que não se imaginem prontos, pois múltiplos serão os obstáculos ainda não gerados, estatuídos pelos seus próprios derredores, aliados uns, aparentados outros, apatetados um bocado, destes até os diabos se distanciando. E que jamais condicionem sabedoria às pós-graduações, buscando em seus nível educacionais sempre entender porque o saber abomina as unanimidades, sendo indulgente, gerador de bons frutos, imparcial e sem fingimentos, promotor incansável de uma não-violência ativa e da participação de todos os pensamentos contraditórios. Já dizia um notável pernambucano que “toda unanimidade é burra” (Nelson Rodrigues)

Que os do hoje e os do amanhã redobrem seus cuidados diante do ganho fácil e lucros rapidamente alcançados. As idas demasiadamente rápidas ao pote, incentivando pretensões descabidas, findam sempre em finais lamentáveis, o acumulado tornado ferrugem. Quem sabe plantar e bem colher ultrapassa-se no dia-a-dia, aceitando-se como um aprendiz de tudo. Percebendo que o convívio com o conhecimento deve ser paciente, nunca ardido em ciúmes, jamais tolamente ufanado, nunca se alegrando com as injustiças sociais, rejubilando-se sempre com a verdade que emerge, a cada dia, das reelaborações históricas.

Quem sabe adquirir conhecimento está ciente que ele jamais se tornará findo, o mundo sendo propriedade de todos, dos mais debilitados inclusive. Que exigem ser amparados na sua dignificação terrestre, para que as regiões tornem-se pacíficas, com ares mais distributivistas, cidadanizadas sem esmorecimentos nem nostalgias, iluminando escuros, fortalecendo uma crescente solidariedade universal, no silêncio redentor de cada amanhecer em Deus.

Allan Bloom, autor do muito polêmico O DECLÍNIO DA CULTURA OCIDENTAL, costuma dizer aos o assistiam: “A filosofia, a inimiga das ilusões e das falsas esperanças, nunca é realmente popular, sendo suspeita aos olhos dos que apoiam qualquer dos extremos que estejam no poder.”

Conscientização é um compromisso histórico, é tomar posse de uma realidade concreta, postulando uma utopia que exige sólidos conhecimentos críticos. Conscientizado é todo aquele que vai para o diálogo com o sentimento de ser parte, sempre se postando como inconcluso.

Para os que desejam aprimorar seu senso crítico, militando nas utopias terrestres que se fizeram ainda mais necessárias com o advento de uma pandemia assassina, uma questão posta numa contracapa de livro recentemente editado: “Seria o conceito de Utopia ainda relevante em uma era de globalização caracterizada pelas vertiginosas tecnologias do Primeiro Mundo e pela desintegração social do Terceiro Mundo?”

Um famoso teórico político e crítico literário, reconhecido mundialmente pelas suas interpretações da pós-modernidade, investiga o desenvolvimento do modelo utópico a partir de Thomas Morus e questiona as funções desse modelo em uma era pós-comunista.

O livro, recentemente editado no Brasil: ARQUEOLOGIAS DO FUTURO: O DESEJO CHAMADO UTOPIA E OUTRAS LIÇÕES CIENTÍFICAS, Frederic Jamesson, Belo Horizonte MG, Autêntica, 2021, 654 p. Bem poderá oferecer ensinamentos balizadores, que cidadanizarão muitos militantes partidários e eleitores.

Leiamos mais, rabisquemos mais, meditemos mais, dialoguemos mais fraternalmente para as eleições de 2022. Quem planta bem, colhe melhores resultados.

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