Para Jesus de Ritinha de Miúdo
Conheci Seu Jacó quando o velho já estava dobrando a folhinha de dezembro com seus noventa e seis anos bem vividos e melhor consumido. Velho somítico, canguinha, unha de fome, pão duro, munheca de samambaia, pata de vaca, sovina, miserável, beira de sino, mesquinho, avarento, muquirana, cainha, forreta, do tipo que não dá bom dia para não gastar a língua.
O Benjamin, seu filho, vinho da mesma pipa que eu, me contava histórias divertidas do velho, como quando ele, ainda jovem, caixeiro viajante, foi acusado de ter prometido e não entregado uma panela para um compadre, também judeu. Levado às barras dos tribunais, deu-se que a querela só não caiu no terreno do deboche porque o juiz não permitiu, mas o Isaac dizia: Jacó brometeu banela pra eu, ia dar de graça, de amigo! E, seu Jacó seco respondia: Eu non brometer nada. Eu não dar nada. Nem bom dia Jacó dar, merendíssimo juiz!
Isso, nos casos que envolviam negócios e dinheiros, o que aliás, seu Jacó tinha aos tubos. Tudo guardado em jóias e ouros, já que seu Jacó não confiava em banco, e, muito menos em papel pintado e distribuído pelo governo. Governo ser safado! Jacó non usa babel bintado de governo. Jacó non ser mula de carga.
Essas eram as quizílias do cotidiano. Mas, Benjamim havia me contado que, na juventude Seu Jacó era grande frequentador de puteiro, dessas casas suspeitosas que só abriam suas portas à noite e moças alegres e divertidas com a cara toda pintada e sorriso fácil frequentam.
Mas, segundo o Benjamim, a grande façanha de Seu Jacó foi quando ele, já beirando os cinquenta, longe de casa por mais de par de meses, foi numa dessas casas e já chegou falando:
– Jacó quer moça bonita, dessas de bundón larga, mas que gosta de abanhar!
Aquila sentença arrepiou a maioria das meninas.
– Jacó baga bem, bom dinheiro bra moça bassar um noite com Jacó, mas moça brecisa gostar abanhar.
E o silêncio cada vez mais imperioso, ainda que Seu Jacó oferecesse cinco vezes mais o valor tabelado naquele comércio. Até que apareceu uma crioula, daquelas bem fornida de seus etceteras e tals que pegou o desafio pelos chifres se gambando de que ia arrancar dinheiro daquele judeu muquirana, ainda que com um frio na barriga. Subiu com seu Jacó para o quarto e foi logo perguntando:
– Seu Jacó, eu aceitei pelo valor que o senhor me ofereceu, mas antes de a gente ir para a cama o senhor pode me satisfazer uma curiosidade? O senhor gosta de bater, mas até quando o senhor bate?
– Simples. Jacó bate até hora que buta bretona de bundón devolve dinheiro de Jacó!
Mas isso são histórias de antigamente. Seu Jacó, já naquela idade, com o espinhaço já vergado pela idade, com aquela coloração pálido cadavérica, pisou no prego e murchou. Pegou uma gripe, da gripe passou para a pneumonia, da pneumonia passou para a UTI e na UTI tomou pau e foi reprovado. No leito de morte, já com os olhos baços (Violante irá ao delírio com este verbete), chamou toda a família.
– Rute minha mulher. Você voi combanheira de Jacó durante cinquenta e cinco anos.Quando Jacó faliu você estava ao lado de Jacó. Quando Jacó foi roubado você estava ao lado de Jacó. Quando casa de Jacó queimou toda você estava ao lado de Jacó. Conclusão de Jacó, Rute, minha esposa: Você deu azar danado bra Jacó em cinquenta e cinco anos.
Apesar de Dona Rute ficar emputiferada da vida, nada disse, devido ao momento final do marido naquela cama de hospital.
– Benjamin, filha meu, chega berto. Você abrendeu com Jacó tudo sobre comércio, mas ainda tem algo – e mostrou um grande relógio bolso de ouro cravejado de rubis grandes e pequenos – esta relógio bertenceu a bai da bai da babai. Depois bertenceu ao bai do babai, e por fim chegou ao babai, minha filha!
Benjamim, todo emocionado, com os olhos marejado de lágrimas, olhando para o pai e para o relógio, apertava as mãos de seu Jacó.
– Entón, Benjamin, filha minha. Esta relógio tem história de nossa família, e neste último momento, babai quer te dizer: quer comprar? Babai faz preço baratinha, bra relógio continuar no família.
Dito isso, entregou a alma a Iavé!