Desde o resultado da eleição de outubro passado que deixei de fazer publicações no facebook. Entendi que meus comentários, meus alertas, etc. não foram suficientes para convencer os leitores, e eleitores, que a volta de Lula ao governo seria o caos absoluto para o país. Limitei minhas publicações a curtidas em comentários alheios, quando concordo e não sei por quanto tempo ficarei assim. A maioria dos eleitores, precisamente 50,9% deles, disseram sim a Lula e eu vivo pensando em estratégias de sobrevivência. Democracia é isso: uma maioria toma uma decisão que vai de encontro aos interesses da minoria, mesmo quando esta está coberta de razão.
Não é de agora que critico a atuação do STF. Fiz vários comentários no facebook, cheguei a nominar tal corte como “cabaré de Nita” em referência um famoso caberá da minha cidade, falei sobre violações constitucionais dos “guardiões da democracia” como no caso dos direitos políticos, não cassados, de Dilma, falei sobre o vergonhoso voto de Gilmar para manter nos cargos Rodrigo Maia e Alcolumbre numa flagrante violação constitucional (o cara foi capaz de escrever que “mesmo ao arrepio da lei” era possível prorrogar os mandatos dessa dupla de cafajeste nas mesas diretoras do congresso) e de outras prerrogativas mais. Usei meu direito de expressão porque tinha a sensação que era uma garantia constitucional. Fiquei chocado em ouvir professores universitários proclamarem que “direito de expressão tem limite”, não no contexto de que tal limite seria a própria lei baseada na tipificação de crimes de injúria, calúnia e difamação, mas na interpretação de um juiz, ou seja, cabe ao juiz definir o que é e o que não é direito de expressão. Francamente, nunca vi isso em nenhuma democracia.
Diz, e muitas vezes, que criaram um novo Tratado de Tordesilhas. Dividiram o Brasil em dois grupos: democrático e antidemocrático. O primeiro é eleitor da esquerda que nunca levantou a voz contra a ingerência do STF nos demais poderes. Que prega democracia, mas que apoia Maduro, Ortega, Evo Morales e que é visto pelo Papa Francisco como a reencarnação do Verbo que se fez carne e habitou entre nós. O segundo grupo é composto por pessoas que se cansaram da roubalheira democrática e da proteção da justiça a políticos desgraçadamente corruptos.
A interferência do STF no executivo, por exemplo, levou às ruas, em diversas ocasiões (primeiro de maio, sete de setembro, etc) milhares de pessoas no Brasil inteiro e de forma absolutamente ordeira e com a participação de idosos e crianças. Em todos os momentos estas pessoas foram tratadas pela mídia, e pela justiça, como antidemocráticos. Todos os atos eram tratados como antidemocráticos, como se o desejo de cada – mesmo que fosse pelo fechamento do STF ou do congresso – não pudesse ser externado! É aqui que entra o paradoxo com a liberdade de expressão. Qualquer um tem o direito de falar o que quer, mas sabendo que há direito de resposta com pena proporcional ao dano. É isto que diz a porra da constituição brasileira.
Um dos maiores casos de liberdade de expressão que conheço se refere a David Irving. Esse inglês publicou vários livros negando o holocausto – vejam que tema sensível – e processou uma editora que publicou um livro de uma escritora americana chamada Deborah Lipstadt, uma historiadora do holocausto. Esse caso foi retratado no filme Negação, de 2016, e é interessante olhar o debate. Irving perdeu a causa, teve que pagar multa e a corte entendeu que a teoria constante nos seus livros era equivocada e por isso não deveria ser propagada. Deu-se a ele o amplo direito de defesa. Suas ideias foram rechaçadas, mas ele teve o direito de expor seus argumentos sem um julgamento prévio e sem parcialidade por parte dos julgadores.
Eu vejo o Brasil num cenário diametralmente oposto. Ao longo da campanha foi proibido chamar Lula de ladrão. As cortes mais altas desse país chegaram ao ridículo de considerar que mesmo que tudo tenha sido dito com base em inquéritos da Polícia Federal, o uso poderia influenciar o eleitor. É nunca vi isso em toda minha vida, exceto em ditaduras.
O encadeamento de tantas ações chegou a ponto crítico que basta um peteleco para explodir e no meu entendimento a culpa é, única e exclusivamente, do ELEITOR. Esse cara vota em pessoas cacheadas por processos de diversas gravidades. Elegeram Helder Barbalho, Renan Calheiros, Flávio Dino, Fátima Bezerra, etc. Elegeram um congresso incapaz, moralmente, de se impor diante do judiciário e com isso permitiu que as cartas fossem ditadas por pessoas que não representam os anseios da população porque não foram votadas. Estão ali por pura indicação e interesse político.
Como já referido, achei muito estranho que essa depredação do congresso e STF tenha sido feito por pessoas que passaram 4 anos indo às ruas de forma ordeira. Cada concentração via-se o resultado: nenhum pneu queimado, nenhuma bandeira queimada, nenhuma vidraça quebrada, nenhum muro pichado. De repente, uma fúria animalesca tomou conta de jovens, velhos e crianças acampadas e eles partiram para essa dimensão de violência. Nas redes sociais surgiram vídeos de pessoas presas pelos próprios “terroristas” que são chamados de “infiltrados” ou “desbotados”. Eu vi a reprodução do diálogo entre o secretário de segurança em exercício do Distrito Federal com o governador. As palavras mostram que se tratava de uma manifestação pacífica. Eu sou favorável a que se investigue. Punir sem investigar como está sendo feito, só lança mais dúvida sobre o estado democrático.
Uma das coisas que falei também foi sobre o fato de termos um presidente que só pode se reunir com plateias escolhidas. Lula não tem a menor capacidade de enfrentar a população, pois onde quer que vá, será sempre chamado de ladrão. Resta saber se uma pessoa que considera Lula ladrão é terrorista porque se for, a melhor alternativa a quem pensa assim é procurar a delegacia mais próxima da polícia federal e se entregar, voluntariamente. Alexandre de Morais disse que havia ainda muita gente para prender, então eu acredito que a melhor forma de protesto é todo mundo indo, calmamente, para se entregar. Ao invés de acampar na frente dos quarteis, que se ocupem os pátios das delegacias da PF. Passaremos a chamar Alexandre de Morais de POVO para que se justifique o preceito constitucional de que “todo poder emana do POVO”.
Finalmente, com a vitória de Lula veio consequências econômicas que todos nós sabíamos que iria acontecer. A decisão de desrespeitar o teto dos gastos vai levar o país a uma encruzilhada: aumentar impostos para cobrir os gastos, aumentar a a taxa de juros para atrair recursos e rolar a dívida “ad infinitum” porque o país não tem de onde tirar grana para pagar a investidores. O governo atual recebeu o país com superávit nas contas públicas, dívida pública reduzida, inflação na casa dos 5% ao ano, taxa de desemprego em 8,4% e lucro nas empresas estatais. Eu duvido muito que consigam manter esse cenário. Se não for o princípio do fim, acredito que começamos a dar nossos passos nessa direção.
A DITADURA DO COMUNISMO JÁ FOI IMPLANTADA A FORÇA NO BRASIL. Maurício, por Xandão e Cia. Eles não vão deixar isso arrefecer!?
Só existe um jeito de tudo isso terminar, como disse a jovem do Zap, parando o Agronegócio, que é responsável por 30% do PIB Nacional!!
Se nada for feito pelos homens da caserna, é dá para pior!!!
Mas parece-me que eles já se esconderam na loca?
Ciço, meu caro. A economia vai cair pelas tabelas e eu duvido muito que esse governo consiga reverter. Temos um novo congresso a partir de fevereiro. Por enquanto, o cara está nadando porque a turma que espera um agrado, aqueles que não foram eleitos, vão querer mostrar serviço para se salvar. Mas, em fevereiro eu espero que seja diferente
Querido amigo,
Vou repetir aqui o que acabei dê-lhe escrever em mensagem pessoal.
Quanta tristeza!
Não consigo mais ver uma saída.
A esquerda não sairá mais do poder.
Meu caro Rômulo, eu acho que o Brasil sentirá na pele o que significou essa eleição de Lula. O governo começou errado e não tem como se sustentar. O desgaste vai ser igual ao de Dilma, com uma diferença de que o novo congresso – eu espero – seja melhor do que o anterior. Eu acho que a gente precisa, todo dia, mostrar as merdas e as consequências.
Como de hábito, excelente arrazoado; infelizmente. Só discordo quanto ao resultado das eleições: o ladrão seguramente não teve os 50,9% de votos que seus asseclas lhe atribuíram. Como disse uma das figuras mais repugnantes desse partidedo, “nós fazemos o diabo para vencer uma eleição”. Com tantos e tão variados indícios de fraude (sem contar a criminosa proteção de STF e TSE durante toda a campanha), pode-se sinceramente dizer que foi uma eleição honesta?
Roberto, obrigado. Na verdade esse foi o dado oficial. Eu concordo que o mínimo que poderia ser feito era a impressão do voto. Não custava nada e dava transparência ao processo, ou seja, aumentava a credibilidade. Não foi assim e, oficialmente, o cara foi eleito. Eu vi divulgações de pessoas que disseram ter votado em Bolsonaro, mas as urnas deram maioria para Lula. Tais pessoas não foram ouvidas e não se esforçaram o suficientemente para provar.
Assuero ,
Além de tudo o que você já disse sobre os ataques ocorridos em Brasília ,corroboram para a estranheza que tudo foi perfeito para as aspirações de perseguições contra todos aqueles que não concordam com o atual governo ( bolsonaristas e todos os anti petistas). Sem falar que o presidente”eleito” encontrava-se em Araraquara/SP, uma das únicas cidades do estado de SP administradas pelo PT( eterno pelego Edinho Silva) e com um decreto praticamente pronto pedindo intervenção federal no DF. Jamais irão investigar tudo o que ocorreu naquele 08/01/23.
Marcelo, em adição o que me espanta são as exonerações. “Fulano” participou dos atos terroristas.. exonera. Vi um grupo de promotores pedindo a demissão de uma colega por um comentário que ela fez discordando do terrorismo. O fato é que terão que prender 58 milhões de pessoas, sem contar algumas crianças, porque onde Lula for será chamado de ladrão
Estimado Assuero,
se o povo brasileiro tivesse uma identidade nacional mais homogênea como o norte-americano, combinaria greves generalizadas em setores estratégicos (agronegócio e transportes) e mandava perguntar pro Xandão se greve também é terrorismo (só pra testar até onde vai seu vilipêndio a Carta Magna).
Não precisava sequer dar um tiro de espoleta, queimar uma borracha escolar ou bloquear um beco sem-saída. Sendo caminhoneiro, deixava o caminhão no acostamento, ou, se integrante do agronegócio, encostava o maquinário onde estivesse, e ia pra casa dormir, somente voltando a ativa após uma lista de exigências populares serem cumpridas (dentre elas a destituição de certos motivadores desse estado tétrico de coisas).
A negativa do Estado a tais exigências seria como, caso continuasse não-razoável? Vai coagir os caminhoneiros e o pessoal do agro ao retorno das suas atividades como? Prendendo?
Aí nesse caso Xandão teria que provar que sua caneta capacita espontaneamente a qualquer habitante da lacrolândia a dirigir um caminhão por dias à fio ou operar o complexo maquinário da cadeia agropecuária para tudo voltar a normalidade. Isso seria a sua diplomação de Mao Zedong dos trópicos, já que o seu correspondente original acreditou que qualquer chinês poderia produzir aço bastando ter uma fornalha caseira. Fora isso, não daria 30 dias para isso aqui mudar da água para o vinho em uma assepsia da máquina pública brasileira de celeridade inédita na história da civilização. Toda a lacrolândia descobriria que todos os confortos da vida moderna que desfrutam opulentamente dependem da colaboração e boa vontade daqueles que decidiram demonizar e seria forçada a repensar profundamente suas posições de vida.
Contudo, tudo que expus é um cenário utópico demais. Como disse no começo, o povo brasileiro não tem uma identidade homogênea como o norte-americano. Pelo menos não uma nobre.
Os ianques têm os arquétipos do Tio Sam e dos founding fathers. Nós, por outro lado, temos Macunaíma e Getúlio. É a mescla da trambicagem com a tirania paternalista que compõem o nosso DNA cultural.
Portanto, na melhor das hipóteses, visto as proporções das últimas eleições, para cada caminhoneiro que largue seu caminhão na estrada há um outro que “fazuéli” e dirige o veículo abandonado. Para cada integrante do agro que sai da cadeia de produção há um outro que crê que Xandão é a “Personalidade do Ano” de 2022 e preenche a lacuna. Ambas as contrapartes, por fim e pra arrombar com tudo, são caguetas e delatoras. Inclusive bem ao estilo maoísta, pois se tem uma coisa que totalitários dessa espécie fazem para sacramentar seu poder é, através do terror, extinguir a confiança mútua entre os cidadãos. Não sabendo mais quem é aliado ou quem é inimigo, o único em quem se pode confiar é o próprio Estado tirânico, pois conforme o dito popular, “se está no inferno, abraça o diabo”.
Só que tem um detalhe que torna o “maoísmo à brasileira” tão distinto quanto tudo que aparece por esses trópicos. Não é à toa que as relações humanas no Brasil andam cada vez mais escassas, nos moldes da tese das “relações líquidas” de Bauman. Está cada vez mais difícil encontrar novos amigos confiáveis, manter as amizades de infância ou ter uma relação amorosa estável porque a confiança mútua a ponto de pôr sua mão no fogo você encontrará somente, ou para a improdutividade, ou para a vicissitude.
Por isso é mais fácil você reunir indivíduos para um porre no boteco, uma festa de rua ou uma suruba do que para discutir soluções de condomínio ou fazer conselhos de bairro. Neste país é mais fácil montar uma quadrilha do que um grupo para desmantelar uma. Em um país onde se tem dificuldade até para fazer um grupo de estudos para um trabalho de Ensino Médio, definitivamente não existe possibilidade de dar ação ao que descrevi mais acima.
No reino esquizofrênico da Manelândia, você é democrático enquanto bovinamente aceita o Estado manelandês destruir sua cara.
Exceto se você for MST ou similares. Aí é democrático destruir tanto patrimônio público quanto privado.
Meu caro Nikolai, obrigado pelo comentário cheio de coerência. Não foi por falta de aviso sobre o risco dessa volta de Lula. Ele que declarou publicamente que acabaria com a guerra russa tomando cerveja, está se servindo do cargo para revanchismo.
Não demoraria muito o STF declarar qualquer greve, ilegal. Bloquear a conta do agro, etc. Eu temo muito pelo futuro do Brasil e pelos empregos. O aumento do salário não será agora, mas em maio; a irresponsabilidade fiscal será coberta com o aumento da dívida e de impostos; a não atualização da tabela do imposto de renda pode fazer com pessoas que ganham 1,5 salário ter que pagar imposto.
Como disse o nosso amigo Rômulo Angélica, parece que a saída é o aeroporto, mas eu acho que devemos fiscalizar. Daqui a pouco o Brasil verá o tamanho do problema.
Sem reparos, Professor!
Abraços Nonato…
Você expressou, amigo Assuero, com suas palavras, tudo aquilo que penso da situação que, desgraçadamente, vivemos em nosso país.
Hélio, isso é bom porque mostra que a sensação não é apenas de uma pessoa.
Parabéns pela perfeição do texto, prezado Assuero!
Você representa o pensamento dos brasileiros que torcem por um Brasil melhor!.
Na política, do nosso País, não há milagres. Há golpes e armadilhas para se chegar ao poder.
A arma mais perigosa que existe é uma caneta na mão de um tirano. É o que estamos assistindo.
Um abraço…
Concordo com você minha querida. Enquanto isso, a gente que sente derrotado vai tentando sobreviver, medindo as palavras, os atos, os gestos, engolindo os sapos…