DEU NO JORNAL

Luís Ernesto Lacombe

Eles vagam pelas ruas, têm uma cor entre cinza e chumbo, seu próprio dia nublado e feioso. Têm lixeiras a visitar, pedidos a fazer, lamentos como ganha-pão. Qualquer coração de verdade entende e bate em descompasso, esbarra em tantas impossibilidades, suspira. Resta um sopro, a esperança sopra…

Eles estão por toda parte, carregam quinquilharias, um cobertor enfermo, trapos exaustos, sacos plásticos, um pedaço de papelão, um arremedo de barraca, carregam um pouquinho da desgraça de tudo. Nesse resumo vago das dores do mundo, seus olhares são vagos. Olhos que não veem e que a maioria não vê.

As duas cidades entre as quais me divido estão assim, cheias de olhares atropelados. O endereço é qualquer parte: viaduto, marquise, ponte, calçada, praça, beco. É a ausência por todo canto, de todo jeito, sem nome, sem trabalho, sem comida, sem saúde. Às dezenas, às centenas, aos milhares nas ruas.

São os mais pobres entre os mais pobres. Eram 25 mil em São Paulo, há pouco mais de um ano. Quantos serão agora? Quem vai contá-los, sem sair de casa? Falam em 15 mil no Rio, que um terço deles, há um ano, tinha uma casa, tinha para onde voltar no fim do dia… Talvez já não lembrem o nome da rua, o número, o bairro, a região, talvez não falem disso nas conversas nos bancos das praças, nos canteiros entre as pistas dos carros, nas marquises do sem-fim de lojas fechadas.

As casas já não existem. Outras, aos poucos, se desfazem. São pequenas, vão ficando menores, vazias… A geladeira está vazia. De repente, não há mais geladeira. Um sofá, um colchão, vende-se quase tudo. Vende-se por muito pouco, na deflação que o desespero, a incerteza e a fome provocam. Aceitam trocas também, aceitam feijão, arroz, cesta básica.

Mesmo trancado em casa, qualquer um pode ver: a pobreza no Brasil triplicou no último ano. Hoje, 27 milhões de pessoas vivem com uma renda mensal inferior a R$ 246! Não digam a elas que fiquem em casa, talvez elas não tenham casa. Com certeza, elas têm fome e uma expectativa de vida achatada.

De nada lhes servem os eufemismos… “Insegurança alimentar” é o quê? No ano passado, no Brasil, 19 milhões de pessoas passaram fome! E o drama só aumenta. Hoje, mais da metade da população do país, 117 milhões de pessoas, não sabe se terá comida suficiente no dia seguinte e foi obrigada a reduzir a quantidade e a qualidade dos seus alimentos… Nas filas para receber uma refeição há gente que antes doava e agora pede quentinha.

“Situação de rua” é o quê? Pedra, cimento, fumaça, poeira, noites estreladas assustadoras ou nuvens negras como teto, um dia inteiro de ausência. É o Brasil da fome, sem home e sem office. Quebrado, desempregado, sem renda.

Todos enxergam os hospitais lotados, os doentes, mas ninguém enxerga a fome. A miséria leva à morte de forma quase invisível… Olhem por todos, olhem por todos! Não há heróis entre as vítimas nas ruas, na extrema pobreza, elas não estão salvando ninguém.

1 pensou em “SEM HOME E SEM OFFICE

  1. E o filho da puta do prefeito de Curitiba, Rafael Graça, faz um projeto de lei para multar quem faça doação de comida a estes infelizes, com o argumento de que as sobras sujam as ruas e atraem possíveis vetores de doenças. Afinal, quem é na verdade o infeliz ?

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