CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

Há muito tempo atrás…

Um bairro distante do outro. Todos se aprontavam cedo entravam na Mercury 51 verde clara e partiam. Muitas coisas para serem vistas pelas crianças que tinham a alegria estampada no rosto. Metade do caminho indo pela Marechal Floriano Peixoto ficava o “Hospício” (um hospital psiquiátrico).

As crianças olhavam para o outro lado de medo que algum louco pulasse os muros altos. Dali em diante apenas casas. Algumas de alvenaria, outras de madeira. Gramados, muitas bicicletas e poucos carros. Entravam na rua Anne Frank e o frio na barriga aumentava.

Depois de algumas quadras a rua era de saibro e mais estreita do que é hoje em dia. O bairro cresceu muito de lá pra cá. Vila Hauer. Um gramado bem cuidado, um muro baixo e o portão de pessoas e o de carro.

Chegaram. As crianças foram as primeiras a pular depois de um leve toque na buzina dado pelo pai para avisar que tinham chegado.

Do corredor lateral da casa bem cuidada pintada de bege com venezianas brancas e repleta de flores (camélias, rosas, brincos de princesa, dálias, jasmim, margaridas e tantas outras) vinha ela, a avó paterna, com seu vestido de seda florido, seu batom vermelho e um perfume adocicado e inesquecível para receber os netos com um abraço acolhedor.

Dos fundos da casa pelo lado oposto vinha o avô. Calça bem cortada, camisa, suspensório, barba feita a navalha e muita “glostora” nos cabelos penteados para trás.

Entravam pelos fundos onde ficava a cozinha. O cheiro da comida da avó era estonteante! Mais para o fundo do terreno a oficina do avô (trabalhava com modelos para fundição). O filho seguiu os passos do pai. Antes do almoço ser servido sentavam todos na sala toda decorada com toalhinhas de crochê onde a “vitrola” estava a tocar os vinis preferidos do avô.

Músicas que quando escutadas hoje em dia traduzem domingos de muita felicidade.

Atrás da oficina as árvores frutíferas. As mãos de fada transformavam as frutas do pomar em deliciosas geléias e compotas (a menina preferia as compotas de figo!). Um poço de água puríssima e um pequeno córrego. Esse fazia divisa com o vizinho.

Na frente da casa, do outro lado da rua, uma igrejinha pintada de marrom. Quando eles chegaram a missa estava terminando e o vai e vem das pessoas bem aprumadas aumentava.

Música tocando, mesa posta era hora de sentar, fazer uma oração de agradecimento e saborear a comida de domingo. Os mais velhos eram os primeiros a se servir. Depois as crianças.

Frango assado recheado, macarronada, maionese, farofa e ela…a gasosa Cini vermelha! (Só aos domingos). De sobremesa a caçarola italiana.

Terminado o animado comes e bebes as mulheres iam para a cozinha lavar as louças e ajeitar tudo. As crianças eram encarregadas de tirar os pratos da mesa e os homens voltavam para a sala para esperar o café de coador.

Depois, muita conversa para colocar os assuntos em dia e as crianças iam correr pelo quintal e, claro, bisbilhotar a oficina. O cheiro de madeira tomava conta de tudo.

As ferramentas eram maravilhosas. Os óculos do avô apoiados na bancada hoje estão guardados pela menina. A bancada também. Muitas ferramentas também. Muitas lembranças também.

O tempo passou rápido demais. Todos já partiram. Os avós, os pais. Restaram apenas o menino e a menina. Hoje já envelhecidos…

Recordar é viver!

Que bom poder ter convivido com eles durante tantos anos e ter guardado na memória os rostos, os cheiros, os sabores, as cores e o sorriso de cada um.

Que bom ainda ter acesso a música preferida que tocava aos domingos naquela “vitrola” que também faz parte da minha casa hoje.

E, para matar as saudades, vou compartilhar aqui a música do José.

José Fernando, meu avô com sua “glostora” nos cabelos. Ela, a avó, era Hélia. Um nome que nunca mais vi.

Hoje não é domingo mas, para euzinha, as sextas-feiras passaram também a ser um dia especial. Tão especial quanto eram os domingos de outrora.

Um bom final de semana a todos.

6 pensou em “SCHIRLEY – CURITIBA-PR

  1. Prezada Shirley, seu texto me voltar no tempo, a única diferença são os lugares, até a escolha da música, que era uma das favoritas da minha mãe e sempre que a escuto as boas lembranças afloram. Obrigado, com certeza minha sexta-feira terá um gostinho especial.

  2. A música nos faz viajar na máquina do tempo.
    Ouvindo músicas de um tempo passado, nosso pensamento viaja para o tempo de criança e recordamos momentos felizes de nossa vida.
    Quem reviveu ou revive o passado, teve e terá futuro.
    Abraços, Schirley, sejamos felizes!

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