MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

Não é a primeira vez que se fala nesse assunto, mas dessa vez há uma novidade. Pela primeira vez, o parlamento da União Européia formalizou uma resolução que permite aos países de lá impor sanções sobre as exportações brasileiras caso não seja comprovado que a sua produção foi feita sem prejudicar o meio ambiente e a floresta amazônica. Como de costume, um monte de gente correu a dar palpite, a maioria afirmando de forma categórica que as acusações são infundadas e que os responsáveis por isso na União Européia não falam a verdade.

Vejam só, políticos mentindo! Quem poderia imaginar? Qual será a próxima revelação desses “especialistas”? Que a chuva é molhada? Que o fogo é quente? Que o mar é salgado?

O que temos visto por aqui é um festival de ingenuidade. É claro que os políticos de lá estão mentindo, e, adivinhem só? Eles sabem disso.

Nenhum deles está interessado na Amazônia ou em salvar a humanidade do fim do mundo. Como todos os políticos, eles estão interessados em duas coisas: poder e votos. Eles querem poder para conquistar mais votos, e querem votos para conquistar mais poder. É assim que a coisa sempre funcionou.

Nessa questão específica, as supostas sanções têm dois alvos. O primeiro deles é o cidadão comum, que neste século de fartura e falta de preocupações sente uma necessidade instintiva de se auto-elogiar, de se sentir bondoso, inteligente e cheio de virtudes, de preferência de um modo que permita mostrar isso nas famosas “redes sociais”. Para esses, o político diz “vote em mim e você estará mostrando que é uma pessoa do bem, preocupada com o futuro, consciente dos problemas da humanidade, cheia de empatia. Poste no seu instagram ou no seu twitter que vai votar em mim e todos os seus amigos saberão que você é o máximo.” O nome que se usa para isso é sinalização de virtude.

O segundo alvo é mais específico: são os favorecidos pelo protecionismo. Políticos adoram criar leis “protegendo” determinados setores da economia através de subsídios e restrições à concorrência, porque quem é beneficiado pelas proteções em pouco tempo se torna dependente delas, e passa a defender os políticos que as mantém com a fúria de quem luta pela própria vida. Não é segredo para ninguém que o setor agropecuário da Europa é viciado em protecionismo, e defende seus privilégios de forma bem agressiva. Medidas como a de agora são como música para os ouvidos dessa classe.

O que devemos ou podemos fazer, então? A primeira coisa é enxergar a realidade de forma adulta: esse não é um jogo para principiantes. Quem espera que as regras sejam “justas” e os outros países sejam “bonzinhos” já começou errado. A regra aqui é “manda quem pode, obedece quem precisa”. Fazer parte do grupo que dá as cartas não é para qualquer um, e não se chega lá com amadorismo, discursos e gritos emocionados de “A Amazônia é Nossa!” O que vale é a combinação certa de produtividade, poder econômico, articulação política e controle da informação (também chamado de “construção de narrativas”).

Vamos analisar o caso de agora. Como princípio fundamental, o comércio só existe se é bom para ambos os lados, e portanto se os políticos impedem que o comércio exista, os dois lados saem prejudicados. A pergunta é: qual lado sai mais prejudicado, qual lado pode suportar melhor esse prejuízo e qual lado sabe controlar o noticiário para mostrar os fatos com um viés positivo? Na prática: sofrem mais os europeus, que terão uma redução na oferta de alimentos e por consequencia aumento de preços, ou sofremos mais nós os brasileiros, que teremos uma redução nas exportações e um aumento da oferta no mercado interno?

Na minha opinião, o negócio é pior para eles (aliás, sanções geralmente são piores para quem as impõe). Mas quando se fala em política e comunicação, a coisa muda de figura: lá, o aumento de preços será mostrado como um sacrifício justo a se fazer por um mundo melhor, e muita gente vai ficar contente de pagar um pouco mais caro se puder com isso inflar seu ego e se achar um salvador da humanidade.

Já por aqui, poderíamos mostrar que se trata simplesmente de buscar novos compradores, e enquanto eles não aparecem o mercado interno absorve essa produção e beneficia todo mundo com produtos mais baratos. Poderíamos também dizer “vocês querem que a gente mande um monte de papéis e certificados junto com a carne e a soja? Tudo bem, mas vai custar mais caro.” Mas como somos viciados em coitadismo, os jornalistas falam com cara de terror sobre a “perda de exportações” e o “desequilíbrio na balança comercial” e dizem ao povo para mais uma vez bancar o pobre sofredor, injustiçado e oprimido.

Já falei isso dúzias de vezes nessa coluna, mas vou repetir mais uma: nossa obsessão com superávit comercial é uma falácia econômica, fruto da política inflacionária praticada pelo governo. Quase todos os países pobres do mundo têm superávit comercial e isso nunca os ajudou.

Por outro lado, a Suíça já passou cinquenta anos seguidos com déficit, e não ficou pobre por isso. O segredo na verdade não é segredo para ninguém: basta manter a moeda forte e estável, e não fabricar dinheiro para cobrir as despesas do governo. Fazendo isso, o comércio exterior se auto-regula. Não podemos esquecer que países não importam nem exportam: quem importa e exporta são pessoas e empresas, e os números que o governo divulga são apenas cortina de fumaça para esconder suas lambanças econômicas.

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