JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

O melhor de escrever é a reação dos leitores. Sobre a última coluna, criticando a usurpação de nomes tradicionais das ruas por celebridades e políticos, os leitores responderam com sangue nos dentes. Todos (sem exceção) contra essa prática. Entre tantos, alguns exemplos:

ADMALDO MATOS, homem público. “É inútil atentar contra a tradição. O povo nunca deixou de chamar Rua do Imperador à Rua 15 de Novembro”.

AECIO GOMES DE MATOS, pensador. “A traição às tradições revela o espírito mesquinho dos nossos políticos, até mesmo nos gestos nobres de homenagear quem merece. Jamais passaria numa rua chamada Rua José Paulo Cavalcanti Filho; arrodearia o quarteirão em sua homenagem”.

– Ideia ruim, Aécio. Que, para ter nome numa rua, eu precisaria morrer antes.

ANDRÉ REGIS, professor. “Quando estava na Câmara, consegui evitar algumas mudanças; como, por exemplo, o nome da ponte do Limoeiro”.

– Você faz falta, André. Muita.

ANTÔNIO MAGALHÃES, jornalista. “Imagine se fossem retalhar a avenida Caxangá, a mais longa do Recife, como foi feita com Av. Beira Rio, quantos nomes de figurões caberiam nela?”

– Agora que deu a ideia, danou-se, o risco é grande.

ANTÓNIO VALDEMAR, da Academia Portuguesa de Letras. “Muito bom. Vermelho como camarão assado/ E o gravata encarnada/ Tudo – e muito mais!!! – na memória como um cão vivo”.

BARTYRA SOARES, poeta. “Em Catende, tenho saudade da Rua do Craveiro, hoje Quinze de Novembro. Da Matriz, hoje Dom Expedito Lopes. Da Saudade, hoje Presidente Getúlio Vargas”.

CARLOS ALBERTO SARDENBERG, jornalista. “Você escolheu sua avenida?”.

– Ainda não, amigo. E você?

EDILSON PEREIRA NOBRE, presidente do TRF5, brincando. “Esse tal Manuel Bandeira deveria ser um chato. Quer me tirar o direito a que, num pequeno quarteirão da Rua Francisco da Cunha, seja nominada uma Rua Desembargador Federal Edilson Nobre? Puxa vida!”.

FÁTIMA DINIZ, professora. “Mudar nomes de ruas, sobretudo alguns tão belos e poéticos, pelo de autoridades, acaba sendo um ato de traição. Obrigada pelo artigo, até porque publicado no dia do meu natalício!”.

– Se fosse político, iria dizer que foi de propósito.

FLÁVIO SIVINI, médico. “Um escândalo!!. A mediocridade predominando nos corações e mentes (vazias) dos desocupados”.

GIRLEY BRASILEIRO, escritor. Estou triste com esse esquartejamento da Beira Rio. E a história do Aeroporto que virou Gilberto Freire? Para mim, será sempre Guararapes”.

GUSTAVO KRAUSE, governador. “Estava na hora de uma palavra forte, contra esta nova forma de adulação e oportunismo. Trata-se de babação póstuma. Nunca ouviram falar de Manuel Bandeira, que homenageou a beleza dos nomes das nossas ruas?”.

HELENO VENTURA, economista, com ironia “Tudo isso espelha como estamos bem representados na nossa Câmara”.

IGNEZ BARROS, escritora. “No Rio, ninguém substituiu o nome da Rua Conselheiro Lafayette pelo do seu célebre morador, Carlos Drumonnd de Andrade. Em vez disso foi esculpida uma estátua do poeta, sentado em um banco, na Avenida Atlântica (Posto 6), em Copacabana. Bem pertinho de onde morava”.

JOSÉ DOMINGOS DE BRITO, escritor. “Sugiro uma consulta mediúnica ao jornalista Geneton, para ver se ele aprova esse despacho”.

– Xico Bizerra já fez isso, José Domingos. Segundo ele, “Geneton jamais concordaria com tal despropósito, com tamanho desrespeito”.

JOSÉ JARDELINO, pesquisador. “Fico imaginando se a moda pega mundo afora: Quinta Avenida presidente Bush, Central Park general Patton, Champs-Élysées presidente Mitterrand… Seriam tão ridículos e inadequados, quanto cafonas”.

JOSÉ MÁRIO RODRIGUES, poeta. “Gostaria que nunca mudassem o nome da minha, Rua da Amizade”.

JOSÉ PASTORE, economista. “Aqui em São Paulo também temos muitas ruas com 2-3 nomes, muitos deles desconhecidos”.

LEONARDO DANTAS SILVA, escritor. Os nomes das ruas e logradouros de uma cidade se perpetuam através dos séculos. Mas entre nós, só para atender modismos e agradar aos poderosos do dia, estão sempre a mudar designações tradicionais: Cais do Apolo, para Avenida Martin Luther King; Estrada da Imbiribeira, para General Mascarenhas de Morais; Travessa do Gasômetro, para Rua Lambari; Rua Formosa, para Conde da Boa Vista; Rua dos Sete Pecados Mortais, para Tobias Barreto; Rua do Crespo, para Primeiro de Março; Rua Lírica, para Visconde do Uruguai; Travessa João Francisco, para Cassimiro de Abreu; Beco do Quiabo, para Eurico Chaves; Beco da Facada, para Guimarães Peixoto”.

LUZILÁ GONÇALVES, professora. “Eu morava no Beco do Quiabo, agora moro na Luiz Guimarães. No final da rua era Beco do Capitão. Agora é… nem sei mais o quê”.

– Um dia vai se chamar Beco de dona Luzilá.

MARGARIDA CANTARELLI, professora. “O Instituto Histórico e Arqueológico, que tenho a honra de presidir, deve dar parecer sobre essas trocas de nomes de rua. Seu artigo vai dissuadir outras investidas”.

– Ainda bem, tia Guida.

NELSON CUNHA, jornalista. “Morava em Salvador quando o Aeroporto 3 de Julho passou a se chamar Luís Eduardo Magalhães. Daí pra frente, e pra trás, tudo vira fichinha”.

– Vamos pelo mesmo caminho, Nelson.

OG MARQUES, Ministro do STJ. “Viva o Beco do… Boi”.

– Do boi? Podia ser pior, amigo.

RAFAEL DE MENEZES, juiz. “Contra nossas tradições. Incrível o desconhecimento dos jovens da história dos antepassados e do esforço que eles fizeram pra nos trazer aqui”.

RAUL CUTAIT, médico. “Aqui em SP, para se mudar um nome de rua, é necessário que 75% dos moradores concordem com a mudança, algo que torna essa prática muito difícil. Só quando não haja nome oficial, aí existe a prerrogativa do prefeito de dar um nome por decreto; ou, então, da Câmara Municipal definir quem será o homenageado”.

– Um belo exemplo.

RICARDO ESSINGER, presidente da FIEPE. “O que podemos fazer para que este absurdo não aconteça?”.

– Para começar, não votar mais em quem propõe esse tipo de traição à nossa cultura.

ROBERTO DAMATTA, escritor. “As ruas mudam mas as casas são as mesmas”.

SILVIO AMORIM, homem público. “Concordo com você em 99% das suas posições e ideias. Só que não houve agressão a tradição, no caso, porque tradição no nome das vias não havia”.

– Opinião sua, mestre. Que, para mim (e muita gente mais), Beira Rio é já uma bela tradição.

VAMIREH CHACON, professor. “Desde quando os brasileiros cultivam tradições?”

– Penso que desde sempre, mestre.

XICO BIZERRA, compositor. “Fico a refletir: não seria uma boa ideia retalhar nossas ruas e avenidas por esquinas? Assim se daria vazão à ânsia incontrolável dos vereadores em agradar as gentes que lhes interessam. Se de fato trabalhassem em prol do povo, como deveriam, certamente lhes faltaria tempo para discutir tanta bobagem. Vou ali tomar um cafezinho na Esquina Prefeito Fulano, ex-Governador”.

– Se ao menos fosse Esquina Xico Bizerra… Ou Esquina Se tu Quiser...

5 pensou em “RUAS E LEITORES

  1. Cada rua/avenida deveria ter um nome próprio, que seria fixo, e apelidos, que poderiam ser mudados ao sabor das conveniências dos políticos de ocasião.
    Os nomes próprios seriam aqueles definidos por circunstâncias históricas e/ou consagrados pelo uso popular.
    A cada mudança de legislatura, os ilustres vereadores teriam direito a substituir os apelidos ( a cota de ruas de cada um seria proporcioanl ao número de votos) e as respectivas placas, o que garantiria também a prosperidade econômicas das empresas produtoras destes artefatos.
    O povo, como sempre, pagaria a conta, mas pelo menos continuaria a usar o nome antigo, e não torraria a paciência com essas mudanças.

  2. Dar a logradouros nome de pessoas, só acho justo na parede do meu amigo Luiz Berto, editor da gazeta escrota mais lida por quem pensa, neste país. Ele homenageia seus amigos mais chegados, com justíssima razão.

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