XICO COM X, BIZERRA COM I

Rosa morava num cubículo apelidado de apartamento na praia de Boa Viagem. Modesto lugar, mas nunca deixou que ali faltasse uma flor sobre a penteadeira. Era onde passava o dia, boa parte dele dormindo, a preparar-se para a noitada no velho Recife, num dos cabarés dali.

Menina nova, era, por sua beleza e meiguice, a preferida de muitos dos marinheiros que pelo Recife passavam quando de suas estadas na cidade. Um japonês por ela apaixonou-se loucamente, prometendo-lhe boa vida se a ele se juntasse e fosse morar em Osaka. Ela resistiu o quanto pôde aos apelos orientais até que, convencida de que longe daqui sua vida seria melhor, entregou-se aos apelos do nipônico.

Dele, nunca tive qualquer notícia. Dela, através de um amigo que gozava de sua estima e amizade, soube que é uma ainda jovem senhora num subúrbio de Ozaka, mãe de três japonesinhos, liberta de sua vida anterior e feliz da vida com o destino que lhe foi reservado. O cabaré que ela frequentava hoje não mais existe.

Foi embora sem cor, sem perfume, sem flor, sem nada. Talvez haja uma flor sobre uma penteadeira na distante ilha japonesa de Honshu, onde fica sua casa. Hoje, disse-me seu amigo, Rosa cuida de três crianças de olhos repuxados, muito parecidos com o pai que um belo dia por ela se apaixonou num puteiro do Recife antigo. Sorte dela, as crianças desta Rosa não são mudas, telepáticas, cegas ou inexatas como aquelas outras de Hiroshima que Vinícius um dia poetizou protestando sobre as bombas atômicas ali derramadas.

Um comentário em “ROSA DE OSAKA

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