CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

Texto escrito em colaboração com o especialista em filme de faroeste D.Matt

Esse clássico filme western que fez a diferença na reformulação dos faroestes que marcaram a década de 1950, expondo o ciclo vicioso das relações sociais e políticas, a vitória constante dos que podem subornar pessoas ou pagar justiceiros para se verem livres de problemas ou a morosidade e ineficiência da lei para ajudar a quem de fato precisa. É evidente que a obra adota uma atmosfera e um caminho ideológico distintos do clássico Matar ou Morrer, mas no fim, acaba não sendo assim tão diferente dele em termos de crítica social e comportamento humano.

A história tem Dude ‘Borachón’ (Dean Martin, provando que podia fazer um bom papel dramático) às voltas com o vício em bebida e as memórias amarguradas de uma decepção amorosa; tem o Xerife John T. Chance (John Wayne, como sempre incrível, mas aqui apagado algumas vezes pelo brilho de Martin), um homem desesperançado e pouco afeito a afetos – o típico durão dos westerns; e, também, a dupla Colorado Ryan (Ricky Nelson, o roqueiro de 17 anos com quase nenhuma experiência no cinema) e Stumpy (Walter Brennan, ator vencedor de 3 Oscars em excelente atuação cômica), todos eles digladiando-se em sua mesquinhez, dúvidas, medos e, ao mesmo tempo, tentando fazer o bem para a própria cidade sem ter o apoio dela – e o mais interessante: sem querer demonstrar que as coisas não iam nada bem.

O problema das boas aparências a serem mantidas fica ainda mais evidente quando o papel da atriz Angie Dickinson é destacado no roteiro e o medo do Xerife John Wayne em relação ao seu ambiente e a insegurança inconfessa em si mesmo vêm à tona. É fato que esse é um ponto comum de alguns dos filmes de cowboys clássicos ou do período de transição para a decadência do western nos anos 60, mas a questão aqui é trabalhada com um tom de culpa e desesperança tão fortes que a faz especial em comparação às outras abordagens.

A inesquecível trilha sonora de Dimitri Tiomkin (cujo Degüello dá a macabra marcação que em Matar ou Morrer é feita pelo relógio), o notável personagem de Dean Martin e a direção meritória de Howard Hawks dão a Onde Começa o Inferno todos os ingredientes de um filme inesquecível. O que atrapalha nessa afirmação é o modo como o roteiro orquestra o romance – o ponto fraco do filme, unicamente pelo modo como é finalizado. Porém, a estrutura da obra não é fundamentalmente abalada e o espectador termina a sessão com aquela alegria que normalmente tem ao assistir a um grande épico.

Dificilmente o expectador ao assistir um filme western ou de qualquer outro gênero, sentirá, desde a primeira cena, uma perfeição em todos os sentidos na feitura de um filme, como neste caso em que o filme com o título original de Rio Bravo nos conduz através de todas as cenas até o final esperado.

Esse filme é mais conhecido pelo título original Rio Bravo, porque o subtítulo brasileiro não faz jus ao seu enredo e não nos prepara para a obra-prima cinematográfica que vamos assistir.

A começar, depois dos letreiros, temos aproximadamente uns cinco a dez minutos de magníficas cenas de ação silenciosa, sem estardalhaço, nos preparando para a história que estar por vir. Todas essas cenas iniciais são mudas, sem qualquer diálogo ou sonoplastia externa. Quando começa realmente a ação, então começam também os diálogos precisos, econômicos, bem colocados, sem excessos, com muita economia de palavras e um máximo de ação com resultados de grande impacto.

O elenco é magistral, não se consegue outra palavra para definir a excelente escolha do elenco, não só dos artistas principais, como também dos coadjuvantes, todos mestres na arte de interpretação que deixa o telespectador sem fôlego.

Dizer que John Wayne e Dean Martin estão ótimos, não é necessário, mas temos Rick Nelson em grande atuação, e a participação extraordinária do grande ator Walter Bernnan, já ganhador de três prêmios Oscar e que neste filme rouba todas as cenas em que aparece nos oferecendo uma atuação de grande histrionismo que sem dúvida mereceria mais um Oscar. O cantor Ricky Nelson, nesse filme, está fora de série com uma atuação sóbria, precisa e com excelente aparência de um mocinho boa praça que se oferece para ajudar o xerife na luta local. O papel entregue ao Ricky Nelson, na época, tinha sido oferecido a Elvis Presley, mas o mesmo recusou aceitar por conselho do seu agente mentor, pois o papel não era o principal.

Sorte do diretor, pois o Elvis, que é excelente cantor, como ator é uma nulidade total. Alguém já assistiu a um filme no qual J.Wayne apaixonado e dando beijos longos e sensuais com a sua parceira de cena? Pois nesse filme acontece em várias cenas. A sua parceira apaixonada não é nada menos que a sensual, belíssima, e muito apreciada como artista e de grande presença, Angie Dickinson que apesar de baixinha de 1.65m contracena em cenas tórridas com o grandalhão J. Wayne de 1,90m ou mais. A presença de A. Dickinson é muito aguardada durante o filme, pois a sua figura é um colírio para os espectadores, sua beleza não tem preço, ela atua com todo charme que ela sabe explorar como artista e mulher desejada.

Dean Martin faz o personagem costumeiro de Dean Martin, mas nesse filme ele se supera com uma atuação realmente fora de série. Faz um ajudante de xerife viciado em bebida borrachon, que o diretor conseguiu tirar uma atuação de grande efeito. Suas cenas como “bêbado ou pós bebedeiras” são perfeitas, nos mínimos gestos, olhares turvos, caminhar inseguro, boca seca, mãos trêmulas, sem exageros ou super atuação. Dá o recado com grande atuação. A música do filme foi composta pelo grande e premiado maestro Dimitri Tiomkin que dispensa comentários.

Sobre música, tem uma passagem musical dentro da delegacia, em que Dean Martin e Ricky Nelson dão um show de talentos e comprovam que são grandes artistas, eles cantam a musica “MY PONEY AND ME” em dueto de forma magnífica, acompanhados por uma gaitinha soprada pelo Walter Brennan. Essa cena já vale por todo o filme. É antológica.

Grande direção de um dos maiores diretores de western, HOWARD HAWKS. É como se fora um talentoso maestro dirigindo uma sinfonia numa orquestra de grandes músicos talentosos com os quais se pode capacitar e compor excelente música, desde que a condução seja precisa e bem ensaiada. Esse filme não poderia ser melhor, nem mesmo se fosse dirigido por outros mestres famosos no gênero western, como John Ford, George Stevens ou mesmo Sergio Leone.

Rio Bravo é um grande clássico difícil de ser superado.

Rio Bravo (1959) Official Trailer em HD:

Rio Bravo (1959) – John Wayne, Dean Martin, Ricky Nelson e Walter Brennan em cena clássica:

2 pensou em “RIO BRAVO (1959) – ONDE COMEÇA O INFERNO

  1. Mestre Philippe Gusmão,

    Mesmo sendo muito jovem na época do lançamento desse magnífico RIO BRAVO, no município de Carpina (PE), eu já possuía uma clara percepção da extraordinária competência do cineasta, produtor, diretor e escritor Howard Hawks, que dirigiu com extrema habilidade Rio Lobo e outras obras-primas do faroeste americano, na época em que o western era levado a sério.

    Fraternais saudações.

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